MIMO pro sambalanço de Tárik de Souza

MIMO pro sambalanço de Tárik de Souza

Rodrigo Fonseca

25 de novembro de 2019 | 10h45

Tárik de Souza entrevista Elza Soares para “Sambalanço – A bossa que dança”, que passa no dia 30, às 18h, no Odeon

RODRIGO FONSECA
Dick Tracy da MPB, Tárik de Souza, um dos maiores críticas de música das Américas, vai às telas de cinema numa parceria criativa com o cineasta Fabiano Maciel no documentário “Sambalanço – a bossa que dança”, uma das atrações do Festival MIMO, que chega ao Rio de Janeiro no dia 29 de novembro e fica até 1º de dezembro. Idealizado por Lú Araújo, com curadoria da diretora Rejane Zilles, o evento, que mistura projeção de filmes e shows, usará o Cine Odeon como centro nervoso de suas exibições. Conectado ao livro homônimo (preciso e precioso) de Tárik, o .doc de Maciel costura registros inéditos, coletados ao longo de 15 anos de triagem, sob o ritmo musical que, nos anos 1960, celebrizou figuras como Orlandivo nas boates em Copacabana e bailes no subúrbio. Sua sessão será no dia 30, às 18h, no Odeon.
“O filme “Sambalanço, a bossa que dança” mergulha num Rio de Janeiro de rara efervescência cultural. Basta dizer que nas vizinhanças da mesma Copacabana urbana, da ainda capital federal, brotaram dois movimentos na fervilhante vida noturna local: a bossa nova, já devidamente esquadrinhada pela história; e o sambalanço, que até então tinha ficado fora do radar”, lacra Tárik. “O filme destila os motivos: enquanto a bossa era “cabeça”, o sambalanço era um jogo de corpo. Uma versão do velho samba turbinada no pesado órgão Hammond das igrejas e também no solovox, um pré sintetizador, com molho ainda mais dançante, incluindo alguns ingredientes de percussão caribenha. Os primeiros a cozinhar este refogado, que depois teria de Celso Murilo a Walter Wanderley, foram Djalma Ferreira e Waldir Calmon, vizinhos e rivais em casas noturnas (Drink e Arpége) e gravadoras próprias. Há preciosas relíquias desta época no filme. Desfilam ainda no roteiro, personagens como o fabuloso cantor e compositor Orlandivo, em depoimento bastante divertido ao lado do amigo humorista e compositor Paulo Silvino, o dupla face Durval Ferreira (ás da bossa e também do sambalanço) e o baterista Jadir de Castro, que participou do clássico filme “E Deus criou a mulher”, ao lado de Brigitte Bardot, e deu sua entrevista já bastante doente (morreria 15 dias depois)”.

Uma das cenas do longa de Maciel, retratando o encontro de bambas

No filme, também depõe Elza Soares, a grande diva do movimento; a rainha do rádio Doris Monteiro, que também sambalançava; e Ed Lincoln, numa raríssima gravação de show no CCBB, ele que só se apresentava em bailes, já que o movimento era mais feito para dançar do que ouvir. “Dançarinos e fãs da época rememoram o clima. “Sambalanço, o que é isso?”, pergunta na abertura o bossanovista Eumir Deodato, que por conta do monumental sucesso de Ed, trocou o piano pelo órgão e caiu na dança, que incendiou os sincopados de João Roberto Kelly a Silvio Cesar e João Donato”, diz Tárik. “O filme procura responder a pergunta, colocando no mapa da MPB um estilo que chegou até ao encontro da néo sambista Roberto Sá e o hip hop de Marcelo D2, na épica gravação que realizaram do “Samba de balanço”, de Haroldo Barbosa e Luis Reis, em 2009”.

Na programação geral do MIMO, que também teve uma edição em SP, no último fim de semana, foram selecionadas 26 produções inéditas no circuito comercial, nos formatos de curta, média e longa-metragem. Entraram produções como “O astronauta Tupi”, filme de Pedro Bronz que percorre a carreira do artista Pedro Luis; “O avião tá de parabéns”, no qual Egberto Gismonti e João do Pife se encontram para um papo e cantam juntos; e “A história de um Silva”, que conta a história do MC Bob Rum. Destaque ainda para os premiados “O Barato de Iacanga”, sobre o lendário Festival de Águas Clara, e “Dorival Caymmi – um homem de afetos”, que é uma viagem pelo universo do cantor e compositor. O festival conta ainda com o média-metragem “Ilú Obá De Min – Akotirenes Yibi Das Mulheres Quilombolas” e o curtas “Na rota do vento – A música no cinema de Sérgio Ricardo”; “Viva Alfredinho!”, com a trajetória do histórico bar Bip-Bip; e “Ele era assim: Ary Barroso”, sobre um dos maiores compositores brasileiros, de projeção internacional.
p.s.: Ainda não saiu a seleção da mostra Panorama do Festival do Rio 2019 (agendado de 9 a 19 de dezembro), mas é forte a expectativa por “Até logo, meu filho” (“So Long, my son”, China), que saiu da Berlinale com um duplo prêmio de interpretação: venceram Yong Mei (atriz) e Wang Jingchun (ator, em interpretação magistral). É um melodrama em que eles vivem um casal que levam 30 anos às voltas com o luto pela perda de um filho. “Os dois tiveram a medida da sutileza de que eu precisava para que este filme pudesse ser um painel das mazelas sociais do meu país, ao largo dos conflitos emotivos que eu narro”, disse o cineasta Wang Xiaoshuai, seu realizador, ao P de Pop.
p.s.2: A Mythos acaba de lançar a edição nº 600 de “Tex”, em cores, com direito a uma republicação da primeira aventura do herói, imortalizado nas telas por Giuliano Gemma.

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