Milos Forman, ausente, porém, eterno

Milos Forman, ausente, porém, eterno

Rodrigo Fonseca

18 de maio de 2020 | 10h36

Milos Forman dá instruções a Jack Nicholson no set de “Um Estranho no Ninho”

Rodrigo Fonseca
Há 60 anos, Jan Tomas Forman estreava no cinema como realizador, com “Lanterna Magika II”, um documentário dirigido coletivamente com seus conterrâneos tchecos. Passados 15 anos de sua estreia, então repatriado, como americano, e já laureado em Cannes, com o Grande Prêmio do Júri, por “Procura Insasiável” (“Taking Off”, 1971), ele dirigiu seu trabalho mais famoso e respeitado: “Um Estranho no Ninho” (1975). AS efemérides aplacam a falta que ele, Jan Tomas, ou melhor, Milos Forman, faz às telas.
Existe uma lenda no cinema europeu, em torno da figura de Milos Forman, que explica seu método de trabalho: uma lenda que fala sobre comida. Quem me cantou a pedra foi Javier Bardem, numa entrevista em 2007. O espanhol tinha acabado de rodar “Sombras de Goya” com o mestre tcheco e aprendeu o caminho para amolecer seu exigente coração: “Costelas de porco… Fala disso e ele te conta o que você quiser. Milos adora trocar receitas de comida com quem veio da Europa como ele. Sei uma receita de porco com limãozinho que deixa ele doido”.
Ouvi o conselho e testei: em 2009, quando ele lançou “A walk worthwhile” – último dos 16 longas que rodou a partir de sua esteia como cineasta, em 1960 – liguei para seu escritório, em Nova York, e perguntei (depois de várias questões estéticas) se ele já havia provado da feijoada carioca. O resultado: 20 minutos extras de entrevista, gastos num papo sobre pratos de frios e saladas da República Tcheca, alternado com pontuais reflexões sobre censura, tema de seu magistral “O povo contra Larry Flynt”, pelo qual ele recebeu o Urso de Ouro na Berlinale de 1997. A abordagem de interditos políticos temperava de inquietação o olhar que Forman construiu ainda na juventude, diante de quilômetros de arame farpado instalado nos ambientes universitários de Praga, de onde pudesse brotar algum protesto contra o regime vigente.
“Eu decidi me aposentar quando a libido artística baixou, em consequência ao estado de inércia que tomou conta do mundo: a pessoas batem em tudo a partir das redes sociais, do digital, mas são incapazes de fazer um protesto transformador. Eu fazia filmes para incendiar o desejo dos outros. Mas ficou difícil me fazer ouvir”, lamentou Forman numa conversa em 2012, ao ser homenageado no Brasil com uma retrospectiva na Caixa Cultural.
Filmar o romance “One flew over the cuckoo’s nest”, de Ken Kesey, a partir de sua releitura teatral escrita por Dale Wasserman, foi o veio de catarse encontrado por aquele tcheco recém-chegado à Hollywood (ou melhor, à Nova Hollywood, termo usado para descrever o cinema novo dos EUA, iniciado com “Bonnie e Clyde – Uma rajada de balas”, em 1967, e encerrado com “Touro Indomável”, em 1980). Eram dias de contestação: América, anos 1970, Vietnã, Watergate, Nixon… Ele viveu o ano que não acabou, 1968, na Europa, arrecadando prestígio graças à deliciosa narrativa de “O baile dos bombeiros”, um dos longas mais famosos de sua fase tcheca. O sucesso (comercial e político) daquele filme – uma comédia que debochava do Estado – rendeu a ele passe livre para os EUA. Mas lá, ele não poderia ser apenas mais uma mão de obra estrangeira a trabalhar por empreitada em Los Angeles. “A memória do que eu vi em Praga, com a imagem de estudantes sendo metralhados por contestarem a opressão do governo, em plena Guerra Fria, despertava em mim a vontade de incomodar. Quando o livro de Ken me caiu na mão e me apresentaram o Jack Nicholson para ser meu ator, percebi que o caminho do incômodo era a loucura. Filmei ‘Um estranho no ninho’ para provar que os loucos são os mais sábios no momento em que o mundo se perde em ciladas morais de conservadorismo”, disse Forman, em 2006, na primeira de nossas conversas.
Foram dez, ao longo de oito anos, até que o escritório dele fechou as portas, em 2014. Havia um projeto para filmar com Nicolas Cage que ficou na gaveta dele, não por falta de vontade, mas pela recusa dos estúdios em apostar nele, apesar dos dois Oscars que tinha na estante, um por “Um estranho…” e outro por “Amadeus”, uma joia classicista. “Ganhei essas duas estatuetas de Melhor Diretor num tempo em que o cinema queria rebeldia, hoje ele quer super-heróis”, lamentou ele no nosso papo final, encerrado com um alô ao Brasil. Um papo que hoje virou saudade e dor.

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