Migliaccio pra sempre na memória… e na tela

Migliaccio pra sempre na memória… e na tela

Rodrigo Fonseca

08 de julho de 2021 | 14h44

Rodrigo Fonseca
Em sua passagem por grandes veículos de mídia como o “Jornal do Brasil”, Marcelo Migliaccio deixou uma marca singular em seu domínio do vernáculo e da arte da entrevista, esbanjando uma inquietude que se galvaniza em sua participação no delicado documentário sobre seu pai, o brilhante ator e diretor Flávio Migliaccio (1934-2020), em cartaz a partir de hoje em circuito. Tocante do começo ao fim, em sua colagem de depoimentos e cenas de arquivo, o filme “Migliaccio, o Brasileiro em Cena” é o inventário de uma cicatriz provocada pelo descaso de nossos governo com a Cultura, o que levou Flávio ao suicídio. A direção é de João Mariano, Alexandre Rocha e Marcelo Pedrazzi. O roteiro é assinado por Pedrazzi, Fernanda Dannemann, Leonardo Menezes e Marcelo. Fernanda e ele entrevistaram Flávio múltiplas vezes. Ele contabilizou cerca de 60 filmes em seu currículo, indo de “O Grande Momento” (1958), considerado um dos marcos do (pré-)modernismo em nosso audiovisual, até “As Jovens Polacas” (2019), sempre investindo na figura do chamado “homem comum”, gente (boa) como a gente. Reverenciado em especial pela figura picaresca do Tio Maneco, uma mistura de Indiana Jones com Professor Pardal, Migliaccio dirigiu sete longas, entre 1963 e 1989. O primeiro, “Os Mendigos”, que tem Ruy Guerra no elenco, é o mais primoroso deles, tendo disputado o troféu principal do Festival de Moscou.
“Flávio se dedicou muito às crianças, pois inha em mente que a criança é o futuro e que é preciso incutir nelas bons sentimentos”, lembra Marcelo. “Na obra infantil dele esses eram os valores, natureza, companheirismo, curiosidade, ciência. Se você for ver hoje, o que a criança recebe da mídia? MMA. Outro dia passei em uma loja de brinquedo e os bonecos que tinham lá eram dos lutadores de MMA. O MMA é um horror, contraria qualquer arte marcial, nenhuma delas permite você agredir alguém que está caído e, no MMA, permite. Na festinha que pit boy vai, não tem juiz para separar. É isso que estão dando para crianças hoje. Nesse sentido, a obra dele faz muita falta. A TV Educativa criminosamente apagou a série do Tio Maneco. Apagou todos os 430 episódios. Só que o meu pai era coprodutor da série. Era dono da série. Em 2001, ele pediu as fitas e a TVE informou que tudo havia sido apagado. Não precisa dizer que ele ficou deprimidíssimo. Apagaram a obra dele e de mais vinte atores… Uma série que consumiu cinco anos da vida dele, saindo de casa, às sete da manhã, para voltar sete da noite, gravando externas o dia inteiro. Uma série onde a Cássia Kis teve sua primeira aparição na televisão. A TV Educativa se achou no direito de apagar. Uma série que é atemporal como o ‘Sítio do Picapau’, que poderia ser comercializada até hoje, e não era datada. Uma atração infantil educativa foi apagada. Ele entrou na Justiça em 2001 e, agora, em 2021, ainda não aprovaram a indenização a qual ele tem direito. Ele morreu e esse crime contra ele foi uma das razões de sua depressão dele. A Justiça vai julgar pela segunda vez, o pedido indenizatório do nosso advogado”.
Cercado por bastidores trágicos, “Migliaccio, o Brasileiro em Cena” é uma celebração da vida de um dos nossos gigantes.

p.s.: Falando em gigantes… Ao chamar Jair Bolsonaro de gângster, na abertura do 74º Festival de Cannes, o diretor Spike Lee abriu uma reflexão mundial sobre as asperezas políticas do Brasil, sintonizada com todo o histórico de luta que fez sua fama e garantiu a ele a presidência da disputa pela Palma de Ouro de 2021. Os holofotes que caíram sobre o cineasta de 64 anos, e seu estilizado terninho rosa, fizeram os exibidores e as plataformas de streaming salivarem por seus novos projetos. Um deles é um musical sobre o consumo do Viagra nos EUA. O outro, já em preparação, é uma releitura hip hop de “Romeu e Julieta”, chamada “Prince of Cats”. Papos do Marché du Film cannoise, que é ala de negócios da maratona audiovisual francesa, asseguram o andamento de ambos os filmes do diretor, que teria chefiado o corpo de jurados do balneário em 2020, se a pandemia não tivesse cancelado a competição oficial de longas-metragens.

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