Midas do terror, Jason Blum produz ‘Spawn’

Midas do terror, Jason Blum produz ‘Spawn’

Rodrigo Fonseca

06 de agosto de 2022 | 09h42

RODRIGO FONSECA
Sorrindo de orelha a orelha pelo faturamento mundial de “O Telefone Preto”, cuja receita tá lá pela casa dos US$ 142,5 milhões, Jason Blum, um midas da produção de filmes de horror, que ganha esta noite, do 75º Festival de Locarno, o troféu honorário Raimondo Rezzonico, afirmou ao Estadão seu engajamento no projeto “Spawn”. A notícia corre o mundo a partir do evento suíço no momento em que o icônico personagem, alcunhado de O Soldado do Inferno, sopra 30 velinhas de aniversário. Foi Todd McFarlane, desenhista e dono de umas das maiores grifes de bonecos (action figures) do mundo que o criou, em 1992, via Image Comics. E em 1997, sua cria mais famosa nas HQs bateu ponto nos cinemas, vivido por Michael Jay White, além de ter conquistado uma série animada na HBO.
“Sim, vamos fazer um novo filme do Spawn e a ideia é que ele possa fazer evoluir o caminho dos longas-metragens baseados em quadrinhos e em super-heróis nos cinemas. Não sei se é um projeto por baixos orçamentos com que trabalhamos, numa lógica de que filmar bem não é filmar caro, mas vamos fazer”, disse Blum ao P de Pop, num hotel nas imediações de Locarno onde está hospedado. “Talvez seja o caso de uma operação parecida com a que Todd Phillips fez, em “Se Beber, Não Case” e, depois, no “Coringa”, de rodar uma produção de peso, com cerca de US$ 50 milhões, o que lhe dá margem para riscos. Talvez ‘Spawn’ seja algo pra US$ 50 milhões ou US$ 70 milhões, o que, ainda assim, é barato para a indústria”.
Blum fez longas laureados pela Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood, de tons antirracistas, como “Corra!” (2017) e “Infiltrado na Klan” (2018). “Meu desejo para o futuro é que eu ganhe o Oscar”, brinca o produtor, que tem uma nova versão de “O Exorcista” para tirar do papel, com David Gordon Green na direção. “Acabamos de adquirir no South By Southwest Festival um file chamado ‘Soft & Quiet’ que tem uma mirada para o terror muito particular, nova”.

Esse anúncio integra uma reflexão de Blum sobre representações do assombro inusitadas, como “Spawn” fez nos anos 1990, nos quadrinhos. Há 30 anos, a indústria das HQs dos EUA, viciada n Marvel e na DC, acostumada a vigilantes brancos, tomou um baque quando leu as aventuras de Al Simmons, um fuzileiro naval americano negro. Ele trabalhava para a CIA em missões sigilosas, e, ao ser morto em combate e descer Inferno abaixo, firmava um pacto com um demônio para regressar à Terra. Sua volta tinha um motivo: manter-se perto de seu grande amor, Wanda. Mas o diabo Malebolgia, traiçoeiro, engana Simmons. O acordo que fez era uma desculpa pra que o militar, cheio de proficiências bélicas, fosse transformado num soldado perfeito para as forças das trevas desafiarem a hegemonia de Deus e sua horda de anjos. Ele, ali, deformado pelo fogo infernal, ganhou um traje mascarado, uma capa viva, capaz de servir de arma, e uma série de superpoderes. Nascia ali um novo Spawn, a larva do Mal, renovando uma linhagem de acólitos das Sombras. Mas, por sua paixão, Simmons se revolta, abrindo precedente para uma cruzada, de tons antirracistas, que, até hoje, três décadas depois, mobiliza lojas de quadrinhos. Uma delas é a tenda virtual da editora brasileira New Order (https://newordereditora.com/), que acaba de fechar um encadernado para celebrar as três décadas do personagem. É uma coletânea chamada “Hellspawn”, com arte de Ashley Wood e Ben Templesmith e tramas de Brian Michael Bendis e Steve Niles, reunindo 16 edições do gibi americano de Simmons. E lá, também, a festa em torno do aniversário do cruzado infernal segue firme.
Esses festejos têm o nome “The Scorched”: essa é a nova revista do Universo Spawn, que bateu recorde de vendas em seu lançamento, em janeiro, a vender cerca de 270 mil exemplares. É mais do que vendem as HQs dos X-Men e dos Guardiões da Galáxia, que a Marvel levou múltiplas vezes ao audiovisual. Sua trama narra uma junção de Spawns de várias épocas, incluindo uma versão medieval e a guerreira She-Spawn.

Outro êxito de vendas é “Spawn: Gunslinger”, também com o selo Image, que vendeu 385 mil unidades antes mesmo do lançamento oficial, em pré-vendas. É uma narrativa escrita pelo próprio McFarlane, com Aleš Kot, e desenhos de Kevin Keane, Brett Booth e Philip Tan, num tom de western à la Clint Eastwood de um Spawn Pistoleiro. Suas peripécias se ambientam num Oeste selvagem, reinventando os códigos do bangue-bangue.
Arquitetada sob a curadoria de Giona A. Nazzaro, com foco na releitura de filmes de gênero, a programação de Locarno segue até 13 de agosto. Nesta quarta, o festival recebe “Regra 34”, de Julia Murat, que está no páreo pelo Leopardo de Ouro de 2022. O grande filme em concurso no evento exibido até agora é o thriller francês “Bowling Saturn”, de Patricia Mazuy. Sem medo da violência, a cineasta faz um ensaio sobre a fraternidade ao narrar o conflito entre um ambicioso oficial da polícia francesa, Guillaume (Arieh Worthalter), e seu irmão malandro, Armand (o ótimo Achille Reggiani). Os problemas entre eles começam quando o pai morre e deixa como herança um clube de boliche. Guillaume crê que deixar o negócio nas mãos de Armand pode salvá-lo do ócio e do erro. Mas…

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