Micareta sci-fi, ‘Um Homem Só’ oxigena a aposta nacional no amor e no riso

Micareta sci-fi, ‘Um Homem Só’ oxigena a aposta nacional no amor e no riso

Rodrigo Fonseca

22 de setembro de 2016 | 09h20

Josie e Arnaldo se amam em

Josie e Arnaldo se amam em “Um Homem Só”

RODRIGO FONSECA

Há uma cena de Todas as Mulheres do Mundo (1966) na qual Paulo José, ao fitar o rosto de Leila Diniz pela primeira vez, diz: “O que é que um sorriso tem que outros não têm? O que é que uns olhos têm que outros não têm?”. Essa é mais ou menos a sensação experimentada pelo personagem de Vladimir Brichta (e pela gente) ao ver Mariana Ximenes surgir em Um Homem Só, em cartaz a partir de hoje em circuito. É um filme de amor, acima de tudo. Da mesma maneira como, lá fora, Jean-Luc Godard dizia que “todo grande filme tende a Roma, Cidade Aberta (1945)”, aqui, toda love story tenderá ao clássico dos clássicos românticos de Domingos Oliveira, propondo, portanto, uma geopolítica dos afetos. E, como se dava no cult domingueiro dos anos 1960, as proposições apresentadas pela diretora estreante Claudia Jouvin – roteirista de respeito, com O Gorila, de 2012, à frente do currículo – passam pelo corpo de sua protagonista, não por uma relação de simples lascívia, mas porque naquele ser feminino o “herói” encontra um espelho de seus desejos, de suas “querências”, de suas carências. É nela que nosso ritual de fruição daquela experiência agridoce frente ao objeto pontiagudo chamado amor se desenham, na paleta de cores da premiada fotografia de Adrian Teijido, ganhadora do Kikito, em Gramado, em 2015.  

Exibido no Palácio dos Festivais de Gramado em uma aplaudida sessão realizada há cerca de um ano e um mês, Um Homem Só referendou a atual (e necessária) sanha do cinema brasileiro de correr atrás de compensar nossa defasagem no quesito “filme de gênero” apostando na ficção científica. Estamos diante de um misto de comédia e sci-fi, num diálogo (indireto) com a tradição do pop (seja nas HQs, seja na animação, seja no sacrossanto Ela, de Michel Gondry), coroado por uma atuação de iluminar sorrisos de Mariana Ximenes, laureada com o Kikito de melhor atriz por sua excelência.

No papel de uma doidinha padrão

No papel de uma doidinha padrão “me-leva-pra-casa”, Mariana Ximenes incendeia esta love story

Ruivíssima e inquieta, sem sobrancelhas, Ximenes bota gente no bolso ao compor Josie, uma figura romântica num padrão “me-leva-pra-casa-que-sou-tua” entre a esquisitice e a solidão plena, com um pé em (500) Dias Com Ela e outro em Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembranças. Ela é figura que trará cores ao preto e branco em que vive um sujeito fracassado no trabalho e na vida, Arnaldo (interpretado por Brichta). Sem qualquer perspectiva de alegria em seu cotidiano afogado em cerveja, ele fica sabendo de uma empresa que cria duplos das pessoas e aceita ser clonado, para poder lidar melhor com a parceira (Ingrid Guimarães, rápida, mas sempre fagueira em cena). No momento em que aparece a cópia de si mesmo, ele cai de amores por uma jovem funcionária de um cemitério de animais, a tal da Josie, que Mariana esculpe numa agilidade digna das atrizes da era muda do cinema. Na direção de arte, o filme usa uma profusão de detalhes e muito colorido, criando uma atmosfera de excessos que alimenta o clima nonsense.

Se isso tudo já não fosse bastante para fazer do filme um espetáculo exótico na atual fauna brasileira do riso e do querer, Claudia foi sagaz ao chamar o gênio Otávio Müller para sua micareta do amor demais. Ele vive o amigo mais fiel de Brichta, em uma composição de um tipo atrapalhado, sem resvalar na caricatura, É uma senhora cereja de um bolo que aproxima o audiovisual brasileiro de uma linhagem pós-moderna (e amorosa) do filão sci-fi, feita com açúcar e com afeto.

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