Na Real_Virtual e seu (nosso) amigo Joel Zito

Na Real_Virtual e seu (nosso) amigo Joel Zito

Rodrigo Fonseca

17 de novembro de 2020 | 15h57

Joel Zito Araújo na sala de zoom do Na Real_Virtual

Rodrigo Fonseca
Comover é um verbo de ação que a turma convidada para falar ao Na Real_Virtual – Parte II conjuga sempre na primeira pessoa do plural, consagrando as noites de conversações online do simpósio documental organizado por Bebeto Abrantes e Carlos Alberto Mattos como “O” evento cinéfilo de 2020. Com 250 ouvintes inscritos, ele tem sido marcado por papos regados a combate, como foi a fala de Joel Zito Araújo. Ganhador do troféu Kikito de melhor direção em Gramado, em 2004, com “Filhas do Vento”, o cineasta mineiro, hoje envolvido com uma nova ficção (“O Pai da Rita”, ambientada no universo do samba, em SP), falou na segunda na maratona produzida por Márcio Blanco e sua Imaginário Digital. O papo não deixou de lado – jamais – suas imersões no melodrama, só que elencou com maior protagonismo a safra de documentários pilotadas pelo realizador, sendo “Meu Amigo Fela” (lançado em 2019, no Festival de Roterdã, na Holanda) o mais recente.
“Faço documentário e ficção e ambos têm muito potencial para criar narrativas interessantes. Gostaria de ter feito mais ficção. Não fiz mais por dificuldade de captar recursos. Mas há projetos em que o documentário é a melhor alternativa para pensar a realidade brasileira. No caso das sociedades latino-americanas, a dramaturgia (ficcional) nos deu poucas opções de conhecer a realidade negra. Nós, das populações negras e indígenas, temos um arsenal mítico de histórias interessantíssimas. Mas tem tantas realidades a serem debatidas. Não fizemos ainda nenhum grande filme (de ficção) sobre o massacre dos jovens negros, caso que expõe o abandono do Brasil. Nós temos uma grande guerra declarada contra a geração de jovens negros que está aí”, alertou o cineasta, ao longo de duas horas e meio de conversa na URL https://imaginariodigital.org.br/real-virtual/parte-2.

Há 20 anos cravados, telas do mundo todo foram tocadas pela estética de Joel Zito com “A Negação do Brasil”, uma reflexão sobre estratégias de segregação midiáticas, passando por telenovelas, com depoimentos de mitos como Milton Gonçalves e Nelson Xavier. Esta produção serviu de motor de arranque para o simpósio documental. “O longa ’A Negação do Brasil’ foi o filme que realizei com menos obstáculos. Uma série de coincidências positivas ajudaram na realização do filme. A pró-reitoria de Cultura e Pesquisa da USP abraçou o projeto no seu início, logo que apresentei para o pró-reitor Jacques Marcovitch. Mas, somente neste filme é que tive tanta sorte. Sempre tive dificuldades de fazer filmes sobre a questão racial pois eles batiam de frente com o mito da democracia racial brasileira. O racismo continua sendo um tema tabu”, diz o cineasta ao P de Pop. “Acho que a captação para a nova geração de jovens negros e negras continua difícil, em função de suas origens sociais e raciais, falta de network e tema tabu”.

Ao Estadão, Joel falou de suas raízes culturais. “Tem um lado mineiro, e outro baiano que serão eternos em mim. Dos mineiros eu reservo o trabalho silencioso, a discrição nos processos de realização dos filmes. Somente os baianos é que não nascem, estreiam. Os mineiros são silenciosos por formação cultural. Tenho um pouco disto. Da parte baiana, eu tenho o gosto pela interação humana. Sou mais solto para me envolver com os outros. Sou mais coletivo no processo de trabalho e cultural. Mas do ponto dos meus filmes, eu vejo as duas formações culturais influindo. As andanças me tornaram muito metropolitano. Gosto da sensação de viver em vários mundos. De usufruir do privilégio de estar em contatos com várias culturas, cenários e paisagens. Neste sentido, eu rompi com o fechamento que as montanhas mineiras provocam”, diz Joel Zito. “Sou meio soteropolitano, mas sem o bairrismo e o umbigo centrado do baiano de Salvador. Gosto desta sensação gostosa de circular por várias culturas e países, e de me fundir com elas. De estudar novas línguas, de interagir com pessoas dos países que visito e pelos quais circulo. Tenho uma filha que se formou nos Estados Unidos e outra na França. Mas o que ainda reside de Minas Gerais dentro de mim são as recordações que vivi no ambiente universitário cosmopolita da Belo Horizonte do final dos anos setenta e anos oitenta, e minha faculdade por onde passou Foucault e Lapassade. Os bares onde encontrava Darcy Ribeiro e Fernando Sabino. O ambiente da contracultura. Os grupos de surrealismo, antes do trotskismo. E a militância contra a ditadura”.
Susanna Lira é a convidada do próximo Na Real_Virtual, neste 18 de novembro, falando do sucesso de seu “Torre das Donzelas” (2018) e das múltiplas expressões das vozes femininas na arte, na política, nas resiliências do dia a dia. No frigir das inquietações documentais do país, Abrantes e Mattos têm agendadas ainda conversas com Adirley Queirós, Claudia Priscilla, Evaldo Mocarzel, Joel Zito Araújo, Kiko Goifman, Roberto Berliner, Sandra Werneck e Walter Salles. Esses papos rolam sempre às 19h, às segundas, quartas e sextas. Valem a atenção, o estudo e o aplauso.

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