‘Meu Rei’ no Varilux e Cannes no Canal Brasil

‘Meu Rei’ no Varilux e Cannes no Canal Brasil

Rodrigo Fonseca

06 de maio de 2020 | 21h34

Rodrigo Fonseca – #FiqueEmCasa
Pela suspensão (momentânea, esperamos) do Festival de Cannes, por conta da 40ena, há uma corrida pelo melhor do evento em anos recentes, na TV e na web, começando por uma mostra no Canal Brasil, que começa nesta sexta com “Em Chamas” (“Burning”, 2018), de Lee Chang-dong, às 23h10, e termina no dia 24, com “A Vida Invisível”, de Karim Aïnouz. A frente mais quente de batalha, contudo, é o Varilux online, organizado por Christian Boudier. Basta ir para o site www.festivalvariluxemcasa.com.br e conferir as novidades, uma vez que há reciclagem do menu do evento francês. Acaba de entrar “Meu Rei” (2015), uma surpresa da Croisette. A edição de 2020, na web, da retrospectiva francófona tem entre suas joias este estudo singular sobre o querer. Estudo muito controverso, tendo sido vaiado por parte da plateia em Cannes por sua porção brega assumida com orgulho.
Às vezes, um abraço é um abrigo e, noutras, uma armadilha, como comprova este incandescente trabalho da realizadora Maïwenn LoBesco na direção. Descabelado, babado, gritado e breganeja como toda paixão com P maiúsculo, o longa-metragem é desigual como narrativa e mesmo como reflexão ética (pela caricatura que pinta das relações familiares), mas tem uma avassaladora habilidade de abrir os alçapões afetivos da plateia. Emmanuelle Bercot saiu da Croisette, há cinco anos, com o prêmio de melhor atriz por seu desempenho (empatada com Rooney Mara, em “Carol”) como um títere a mais do cupido, este moleque dengoso. Sua bilheteria na França beirou 615 mil pagantes, sendo vendido para o mundo todo.

Finalizando o esperado “ADN”, a modelo, atriz e (ótima) cineasta Maïwenn, diretora do premiado Políssia (2011), também incluído no Varilux, brinda o público aqui com uma ode ao romantismo mais desvairado, da qual não se sai ileso. Idolatrada pela indústria e mesmo pela ala mais xiita da crítica europeia, a realizadora de 44 anos realiza aqui um ensaio comovente sobre a vida a dois a partir da relação entre um empresário egoísta (Vincent Cassel, em uma atuação luminosa) e a mulher que abre mão de tudo em amor a ele. Esta é vivida por Emmanuelle com um desempenho devastador. Fotografado por Claire Mathon (do cult “Um Estranho no Lago”), o doído “Meu Rei” se alimenta da interpretação impecável de Cassel, ao detalhar o relacionamento de dez anos de um casal. E não há como ser negar a beleza plástica da produção, na direção de arte de Dan Weil.

Nos primeiros minutos de “Mon Roi”, a advogada Tony (Emmanuelle) sofre um acidente de esqui e machuca o joelho gravemente. Enquanto se recupera, ela relembra de seu passado afetivo, abrindo uma deixa para Maïwenn fundir passado e presente para contar o encontro da protagonista com seu amado, Georgio, defendido por Cassel com a maestria habitual. Georgio é uma espécie de câncer em vida para Tony. Ao mesmo tempo em que chega todo sedutor, oferecendo a ela um prazer sexual nunca antes provado e um filho, Georgio destrói todo o equilíbrio emocional de sua mulher, entre mil traições, mentiras e ausências. É um filme sobre posse e sobre renúncias… sobretudo a renúncia do amor próprio. O outro destaque do longa – notável em sua primeira hora – é o desempenho de Louis Garrel, o galã dos galãs jovens da França na atualidade. Para viver o irmão de Tony, Garrel abre mão de seu charme habitual, vivendo um tipo de pouco viço, chatonildo, conformado em ser um ombro amigo para sua maninha. É uma entidade a mais das múltiplas manifestações do verbo “gostar muito”.

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