‘Meu Rei’ é o destaque do Varilux no Telecine

‘Meu Rei’ é o destaque do Varilux no Telecine

Rodrigo Fonseca

04 Junho 2018 | 09h48

 

“Custódia”: o melhor do Varilux nas telas


Rodrigo Fonseca

Vai ter Varilux na TV também, numa maratona, neste sábado, no Telecine, do que houve de melhor no evento em edições passados, com destaque para Meu Rei (2015), uma surpresa da competição de Cannes. A edição de 2018 da retrospectiva francófona em nossas terras vai começar na quinta. Nossa maratona anual (e cada vez mais lotada) de longas franceses este ano ocorre, simultaneamente, em 63 cidades brasileiras. Há 20 atrações novinhas em folha e um clássico de 1969 (Z, de Costa-Gavras, que faz 50 anos em 2019, será revisitado em uma cópia nova) no pacote do festival, que traz atrações inéditas como Gaugin – Viagem ao Taiti, Custódia O Amante Duplo.
Do que tem de melhor no Telecine, no dia 9, não perca Na Cama com Victoria, com Virginie Efira, às 15h40; e Tal Mãe Tal Filha, com Juliete Binoche, às 22h. Mas o mais potente título em projeção é Meu Rei, a ser exibido às 17h20. É um estudo singular sobre o querer. E muito controverso, tendo sido vaiado por parte da plateia em Cannes por sua porção brega assumida com orgulho.

Às vezes, um abraço é um abrigo e, noutras, uma armadilha, como comprova este incandescente trabalho da darling francesa Maïwenn LoBesco na direção. Descabelado, babado, gritado e brega como toda paixão com P maiúsculo, o longa-metragem é desigual como narrativa e mesmo como reflexão ética (pela caricatura que pinta dos homens), mas tem uma avassaladora habilidade de abrir os alçapões afetivos da plateia. Emmanuelle Bercot saiu da Croisette, há três anos, com o prêmio de melhor atriz por seu desempenho (empatada com Rooney Mara, em Carol) como um títere a mais do cupido, este moleque dengoso. Sua bilheteria na França beirou 615 mil pagantes.
Dona de um dos rostos mais belos da história do cinema francês a modelo, atriz e (ótima) cineasta Maïwenn, diretora do premiado Políssia (2011), brinda o público aqui com uma ode ao romantismo mais desvairado, da qual não se sai ileso. Em 2016, Mon Roi (título original) foi uma das sensações do Festival Varilux, onde foi uma aposta corajosa da curadoria de Christian Boudier, ao escancarar abismos da alma feminina, com uma beleza visual arrebatadora. Idolatrada pela indústria e mesmo pela ala mais xiita da crítica europeia, a realizadora de 42 anos realiza aqui um ensaio comovente sobre a vida a dois a partir da relação entre um empresário egoísta (Vincent Cassel, em uma atuação luminosa) e a mulher que abre mão de tudo em amor a ele. Esta é vivida por Emmanuelle com um desempenho devastador.

Georgio (Vincent Cassel) registra um  sorriso de Tony (Emmanuelle Bercot) e de seu bebê, Simbad

Fotografado por Claire Mathon (do cult Um Estranho no Lago), Meu Rei se alimenta da interpretação impecável de Cassel, ao detalhar o relacionamento de dez anos de um casal. E não há como ser negar a beleza plástica da produção, na fotografia de Jakob Ihre. Nos primeiros minutos de Mon Roi, a advogada Tony (Emmanuelle) sofre um acidente de esqui e machuca o joelho gravemente. Enquanto se recupera, ela relembra de seu passado afetivo, abrindo uma deixa para Maïwenn fundir passado e presente para contar o encontro da protagonista com seu amado, Georgio, defendido por Cassel com a maestria habitual. Georgio é uma espécie de câncer em vida para Tony. Ao mesmo tempo em que chega todo sedutor, oferecendo a ela um prazer sexual nunca antes provado e dando-lhe um filho, Georgio destrói todo o equilíbrio emocional de sua mulher, entre mil traições, mentiras e ausências. É um filme sobre posse e sobre renúncias… sobretudo a renúncia do amor próprio.  O outro destaque do longa – notável em sua primeira hora – é o desempenho de Louis Garrel, o galã dos galãs jovens da França na atualidade. Para viver o irmão de Tony, Garrel abre mão de seu charme habitual, vivendo um tipo de pouco viço, chatonildo, conformado em ser um ombro amigo para sua maninha carente. É uma entidade a mais das múltiplas manifestações do verbo “gostar muito”.