Memórias indígenas no radar do Na Real_Virtual

Memórias indígenas no radar do Na Real_Virtual

Rodrigo Fonseca

10 de novembro de 2020 | 11h24

Rodrigo Fonseca
Cartografia de vivências e de resistências, o bate-papo de segunda-feira no simpósio online Na Real_Virtual celebrou as modalidades de expressão audiovisual das populações indígenas do Brasil a partir da peleja de diretores como o Guarani Alberto Álvares e do empenho do projeto Vídeo nas Aldeias, de Vicent Carelli. Os dois inauguraram a segunda semana de trabalhos do seminário organizado pelo diretor Bebeto Abrantes e pelo crítico Carlos Alberto Mattos compartilhando os saberes de quem milita dos rituais de empatia do cinema indígena. Álvares, da etnia Guarani Nhandewa, nascido na aldeia Porto Lindo, Mato Grosso do Sul, é professor e tradutor, responsável por .docs como “O Último Sonho”. Carelli, antropólogo franco-brasileiro, dedica-se há décadas à inclusão cinematográfica de indígenas, tendo em seu currículo pérolas como “Corumbiara”, o Kikito de melhor filme de Gramado, em 2009. A conversa deles com os curadores Abrantes e Mattos foi via Zoom. Para ficar por dentro dos colóquios montados por eles, basta acessar o link https://imaginariodigital.org.br/real-virtual/parte-2.
“Nós, guarani, somos um povo da oralidade. Nós enxergamos o outro pelo coração e não pelo olhar. Cinema não faz parte do nosso povo, mas a gente tenta sonhar com ele. Amigos me ensinaram a escrever filmes a partir da montagem. No cinema, deixamos algo para o futuro. Aquilo que a gente vai deixar é o futuro que fica prós nossos netos”, disse Álvares em uma conversa regada a cânticos, onde respondeu com poesia a uma pergunta de Mattos sobre a relação entre demarcação de tela/ demarcação de terras. “Sempre analiso muito a pessoa que vem fazendo os filmes sobre nós. Vincent é um dos pioneiros. Em geral, as pessoas só querem mostrar a luta pela terra, com o indígena sofrido, na beira da rodovia. É só a luta. Vincent, não, ele mostrou mais, ele trouxe a nossa riqueza”.

O diretor Guarani Alberto Álvares

Ao apresentar o cineasta, Abrantes falou do esplendor que existe por trás de gestos de delicadeza explícitos nos filmes de Álvares como perguntar “Você é feliz?” a indígenas com que conversa. “O que mais me chama a atenção na obra de Alberto Alvares é que, na condição de Guarani, ele nos traz um lugar de olhar único e distinto de quase todos os filmes a que assisti nos últimos tempos sobre nossas etnias indígenas”, diz Abrantes.

Em sua fala, o curador ressaltou muitas vezes a dimensão de espiritualidade do cinema de Álvares. “Esse lugar de olhar, parafraseando o lugar de fala da Djamila Ribeiro, nos revela o pensamento, a visão de mundo e a subjetividade das pessoas de origem Guarani. Seus filmes, não abordam exclusivamente – como a maioria dos vídeos sobre as causas indígenas o fazem – a questão territorial, as estratégias de sobrevivência – caçar, pescar, morar, comer, festejar, etc”, diz Abrantes. “Seus filmes indagam os personagens se eles estão felizes ou não; como e quando o mar lhes diz, que vai chover; o que os sonhos representam para os Guaranis. Eles falam de coisas comezinhas, de dores e alegrias, que nos caracterizam como seres humanos. E é isso que lhes conferem um lugar original de ver e escutar o sentimento e o jeito de ser Guarani. Assim, simples e contundente”.

Vincent Carelli fez do projeto Vídeo nas Aldeias um marco de inclusão audiovisual

No corpo a corpo de perguntas a Carelli, Abrantes e Mattos trouxeram a expressão “filmes de acompanhamento”, referindo-se ao tempo longo, de idas e vindas, de preparação dos .docs do cineasta, que, muitas vezes, registram uma mesma história ao longo de décadas a fio. É esse o caso de “Martírio” (2016), codirigido por Tatiana Almeida e Ernesto de Carvalho. No longa, vemos o retorno ao princípio da grande marcha de retomada dos territórios sagrados Guarani Kaiowá através das filmagens de Carelli, que registrou o nascedouro do movimento na década de 1980. Vinte anos mais tarde, tomado pelos relatos de sucessivos massacres, Carelli busca as origens deste genocídio um conflito de forças desproporcionais: a insurgência pacífica e obstinada dos despossuídos Guarani Kaiowá frente ao poderoso aparato do agronegócio.
“Em todas as primeiras filmagens dos meus longas não havia a ideia de fazer um filme ou de que filme fazer. O que me voltar a(o universo de) ‘Martírio’ foi o recrudescimento dos massacres e o sumiço dos corpos. Ao longo do tempo, eu me dediquei muito aos filmes dos indígenas. Filme bom muita gente faz. Mas abrir essa janela para os indígenas filmarem é mais importante”, disse Carelli. “Eu me envolvi com os indígenas aos 17 anos. Entrei no convívio deles como filho não como pai. Filmado eles, a câmera na mão interagindo e entrei pro cinema direto. Nas oficinas, comecei a captar o cotidiano, seguir um personagem, quebrar aquela coisa televisiva da pergunta besta do repórter que questiona ‘Você está subindo’ diante de uma pessoa subindo. Queria fazer uma crônica do cotidiano num cinema de observação. E hoje, preservar o acervo é a minha grande preocupação É difícil conseguir recursos, mas é importante que os indígenas não percam a ligação com as próprias imagens”.

Abrantes ressalta que, à frente do projeto Vídeo nas Aldeias há mais de 30 anos, Carelli “viajou, conviveu, filmou, acreditou que os povos nativos têm tudo a ver com novas tecnologias analógicas e digitais e formou cineastas indígenas de várias etnias”, num gesto ético de inclusão. “Carelli sabe que só sobrevivem ao longo do tempo as pessoas e os povos que contam, recontam e reinventam suas histórias constantemente. Sabe da importância das festas, das danças e sobretudo das línguas nativas, no fortalecimento da autoestima, da cultura, enfim, da identidade de qualquer povo. Vincent construiu e continua a construir o maior acervo sobre os indígenas brasileiros. O projeto Vídeo nas Aldeias não é apenas um rico patrimônio histórico e cultural brasileiro. Trata-se, sim, de um patrimônio mundial, vivo. Tão vivo como a resistência secular e espetacular de nossas nações indígenas, sobre a qual nós, brancos, não podemos nos omitir. Obrigado Vincent Carelli!!!”.

Nesta quarta, o Na Real_Virtual segue adiante com uma dobradinha entre Lúcia Murat e Silvio Da-Rin desenvolvendo o tema Memórias de Chumbo, a partir das recordações e reinvenções de ambos sobre a ditadura militar. Da obra de Lúcia foi selecionado “Uma Longa Viagem” (Kikito de melhor filme em Gramado, em 2011) e, do cinemaço de Silvio, escolheu-se o feérico “Missão 115”, destaque do É Tudo Verdade em 2018. No frigir dos ovos das inquietações documentais do país, Abrantes e Mattos têm agendadas conversas com Adirley Queirós, Claudia Priscilla, Eryk Rocha, Evaldo Mocarzel, Joel Zito Araújo, Kiko Goifman, Roberto Berliner, Sandra Werneck, Susanna Lira e Walter Salles. Esses papos rolam sempre às 19h, às segundas, quartas e sextas. Valem a atenção. E o aplauso. É “O” evento do ano, tendo Márcio Blanco e sua Imaginário Digital como produtores.

p.s.: De 19 de novembro a 3 de dezembro, temos mais um Festival Varilux pela frente, em edição presencial, com direito a uma celebração dos 60 anos de “Acossado” (1960). Vai ter “A Boa Esposa”, de Martin Provost; “A Garota da Pulseira”, de Stéphane Demoustier; “Apagar o Histórico”, sob direção de Gustave Kervern e Benoît Delépin; “Belle Epoque”, de Nicolas Bedos; “DNA”, de Maïwenn; “Donas da Bola”, de Mohamed Hamidi; “Gagarine”, de Fanny Liatard, Jérémy Trouilh; “Mais que Especiais”, de Eric Toledano e Olivier Nakache; “Meu Primo”, dirigido por Jan Kounen; “Minhas férias com Patrick”, de Caroline Vignal; “Notre Dame”, de Valérie Donzelli ; “O Sal das Lágrimas”, de Philippe Garrel; “Persona Non Grata”, direção de Roschdy Zem; “Slalom”, de Charlène Favier; “Sou Francês e Preto”, de de Jean-Pascal Zadi e John Wax; “Verão de 85”, de François Ozon; “A famosa invasão dos ursos na Sicília”, de Lorenzo Mattotti; e “O Capital no século XXI”, documentário dirigido por Justin Pemberton e Thomas Piketty.

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