Memórias estudantis e cineclubismo no arranjo do Na Real_Virtual nº1

Memórias estudantis e cineclubismo no arranjo do Na Real_Virtual nº1

Rodrigo Fonseca

04 de novembro de 2021 | 13h01

“Espero Tua (Re)Volta” deu a Eliza Capai o Prêmio da Anistia Internacional na Berlinale

RODRIGO FONSECA
Um lado a cineasta laureada com o Prêmio da Anistia Internacional na Berlinale de 2019 por “Espero Tua (Re)Volta”. Do outro, o único documentarista blockbuster do país, com a marca de ter vendido 1.892.117 ingressos com “O Mundo Mágico dos Trapalhões”, em 1981. Esse foi o ringue – de paz, de congraçamento, de celebração de estéticas – que abriu a edição 2021 do seminário sobre narrativas documentais Na Real_Virtual. Em meio à paralisação presencial das atividades culturais do Brasil, em 2020, decorrente da pandemia da covid-19, o evento surgiu, na web, como um oásis de reflexão audiovisual, adotando o documentário como objeto de estudo. O êxito da primeira edição – pela qual passaram titãs do formato como Maria Augusta Ramos, João Moreira Salles, Cao Guimarães e Petra Costa – foi tanto que houve uma continuidade nos meses finais do ano passado, mobilizando mais uma leva de cineastas de prestígio mundial como Lucia Murat, Joel Zito Araújo, Eryk Rocha, Susanna Lira e Walter Salles. A reverberação dos colóquios foi tanta que uma nova fornada de colóquios foi estruturada, reunindo 24 vozes autorais de diferentes gerações, para discutirem o pensar/fazer documental. A programação segue até o dia 10 de dezembro, sempre às 19h, ambientada na plataforma Zoom, via Sympla. A URL https://imaginariodigital.org.br/real-virtual/2021 traz todas as informações dos debates, produzidos por Kerlon Lazzari, via Associação Imaginário Digital e a Supimpa Produções. Carla Italiano e Bebeto Abrantes conduzem as conversas. Os dois assinam a curadoria em parceria com o crítico Carlos Alberto Mattos.
“Eu venho do Jornalismo. Comecei em uma época em que a internet desponta. Essa condição de vir do Jornalismo foi um problema e uma grande solução na minha história”, disse Eliza, que filmou ainda o contagiante “O Jabuti e a Anta” (2016).. “Eu não sabia que precisava de equipe, então eu saia para fazer os filmes. Aos poucos fui entendendo que ia fazendo propostas baseadas nas angústias existenciais que eu tinha e não conseguia entender. Para falar dos assuntos que me angustiam, eu busco como se fosse um ponto de luz. O ‘Espero a tua (re)volta’ veio muito desse lugar. Ele junta a questão de gênero, do feminismo e das lutas raciais dentro do guarda-chuva da escola. A gente fez achando que seria um filme sobre um final feliz, com o Brasil tirando um monte de máscara, e começa reconhecendo o Brasil com um país racista e misógino. Vi ali a responsabilidade de fazer um filme para se comunicar com a nova geração secundarista. (…) É uma tentativa de uma busca pela comunicação efetiva que transmita a complexidade do movimento e a tristeza de quando somos atropelados pela vitória do Bolsonaro, mas, ao mesmo tempo, traga a pulsão daqueles protagonistas”.

O jovem Tendler entrevista o eterno Zacarias nas filmagens de “O Mundo Mágico dos Trapalhões”

Tendler, atualmente empenhado em tirar o Festival de Brasília do papel (em dezembro), também revisitou sua gênese como diretor. “Sempre procurei fazer uma produção que navega entre a História e a Política. Não sei o que veio antes de fazer cinema na minha vida. Em 1964, eu tinha 14 anos de idade. Na ocasião, centenas de parlamentares foram caçados. Organizações sindicalistas foram fechadas. Muitos militares foram expulsos das forças armadas. Comecei a prestar atenção em quem estava podendo reagir ao golpe: eram os jornalistas e os artistas. A reação ao golpe veio dali: da imprensa e do cinema”, diz Tendler, que levou multidões às salas exibidoras com “Anos JK: Uma Trajetória Política” (1980) e “Jango” (1984). “Com 14/15 anos, começo a olhar que o caminho é esse e digo que posso ir por essa trilha. Entro para o cineclubismo. O caminho natural para quem entra em cinema é fazer ficção. Mas eu aprendi que o documentário pode existir à semelhança da ficção. Só precisa ter autores. Eu gosto de construir meus filmes tendo um personagem central. Esse personagem começa sendo o presidente da República; depois filmo uma trupe de comediantes; e vou por aí. Todos os meus filmes possuem uma âncora, pois não consigo ver a ação das massas sem uma liderança. É uma visão política e cinematográfica, um estilo cinematográfico de contar”.
Nesta sexta, o Na Real_Virtual segue, reunindo Theresa Jessouroun (diretora de “À Queima Roupa”) e Cristiano Burlan (diretor de “Mataram Meu Irmão”), num debate batizado de “O corpo como alvo”. As próximas mesas serão: dia 10) Marcos Pimentel e Marília Rocha; no dia 12) Tetê Moraes e Camila Freitas; no dia 17) Geraldo Sarno e Henrique Dantas; no dia 19) João Batista de Andrade e Toni Venturi; no dia 24) Allan Ribeiro e Letícia Simões; no dia 26) Eduardo Escorel e Carlos Adriano; no dia 1º de dezembro, Orlando Senna e Cavi Borges; no dia 3 Dez.) Sandra Kogut e Aline Motta; no dia 8 Dez.) Jom Tob Azulay e Ana Rieper; no dia 10 Dez.) Jorge Bodanzky e Takumã Kuikuro.

p.s.: Imagine se “Superman – O Filme”, aquele, o de 1978, que todos amamos, fosse dirigido por Terrence Malick. O resultado seria “Os Eternos” (“The Eternals”). Chloé Zhao é imparável. Não bastasse toda a beleza de “Nomadland”, ela ainda nos dá o mais ontológico dos filmes de super-herói, capaz de tangenciar todos os pleitos políticos de inclusão de nosso tempo sem fazer de sua abordagem uma bandeira – ao contrário do que o execrável “Old Guard” fez, com uma Charlize Theron caricata. Salma Hayek e Angelina Jolie, aqui, sob a batuta de Chloé, transpiram experiência e humanidade, ampliando a dimensão transcendentalista de uma aventura que, por vezes, faz a gente lembrar do monolito de Kubrick. Gemma Chan, ao lado delas, agiganta-se em um atuar elegante, que dá carne e alma à Sersi das HQs. No elenco, Ma Dong-seok (de “Invasão Zumbi”) é um sol, no papel de Gilgamesh. Mas há um tanto de luz de igual beleza nas atuações de Kumail Nanjiani (hilário como Kingo) e de Brian Tyree Henry, que acaba de ser aplaudido na sessão do Cine São Luiz, em seu trabalho como Phastos. Que surpresa boa a Marvel nos deu. Sei que vai sobrar vaia pra Bonsucesso agora, mas: cinco minutos desse lívido “Os Eternos” contagiam e transcendem mais do que o soporíferZzzzzz “Duna”.

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