Memórias e lágrimas de Harvey Keitel

Memórias e lágrimas de Harvey Keitel

Rodrigo Fonseca

02 de dezembro de 2019 | 10h39

Harvey Keitel em Marrakech @Fotos de Rodrigo Fonseca

RODRIGO FONSECA
Entre as muitas histórias que contou ao 18º Festival de Marrakech, com os olhos marejados de lágrimas, bebericando um suco verde, Harvey Keitel lembrou de seu primeiro encontro com um balconista de locadora, sem nenhuma experiência na direção, chamado Quentin Jerome Tarantino, que desejava escalar o ator (hoje com 80 anos) para um papel em “Cães de aluguel” (1992). “Na primeira fala, ele errou meu nome: disse Mr. ‘Kitel’. E eu: ‘É ´’Kaitel’. Li o roteiro e achei assim, assim… nhé… Mas aos poucos a noção que aquele cara tinha de atuação foi me atraindo”, contou o veterano operário da atuação, que esta noite recebe o público da cidade para a sessão de gala de “O Irlandês” (“The Irishman”), de Martin Scorsese.

Seus causos de bastidor foram desfilados ao longo de uma hora de entrevista com o crítico francês Jean-Pierre Lavoignant, numa série de conversações com os convidados do evento, que começou na sexta, com a exibição de “Entre facas e segredos”. Ainda nesta terça, a atriz iraniana Golshifteh Farahani conversa com o público local e, na terça, vem o produtor Jeremy Thomas (“13 Assassinos”). Prestes a voltar às telas em “Fátima”, do diretor romano Marco Pontecorvo, sobre a aparição de Nossa Senhora em Portugal, em 1917, Keitel foi chamado para ajudar a promoção na África de “O Irlandês”, que, nesta quinta, deve papar para si um balde de indicações ao Globo de Ouro. Lavoignant recebeu o ator nova-iorquino com um comentário um tanto inadequado, lembrando que seu papel na obra-prima de Scorsese é curtinho: ele vive o mafioso Angelo Bruno. “Não existem pequenos papéis, só pequenos atores”, rebateu Harvey, em prantos ao rever imagens de “A morte ao vivo” (“La mort en direct”, 1980), que rodou com Bertrand Tavernier, mestre francês também escalado para uma Conversa de Marrakech, na terça. “Ele foi o primeiro grande diretor europeu com quem trabalhei e, depois, vieram alguns outros, como Lina Wertmüller e Ettore Scola, e me impressionou por mostrar um modo de os cineastas trabalharam com absoluta retidão. Quando eu vi “O relojoeiro”, que Betrand fez nos anos 1970, lembro de ter pensado: ‘Esse é o tipo de diretor com quem eu gostaria de trabalhar’. Um dia, lendo uma entrevista dele, vi uma resposta dele a um jornalista dizendo: ‘Harvey Keitel é um ator com que gostaria de trabalhar’. Ele me dirigiu ao lado de Romy Schneider. Não sou capaz de verbalizar o que sinto sobre esse belo filme”.

À frente de Keitel, sentado na plateia, na primeira fila, Tavernier encolhia-se. E muita gente chorava. Os risos apareceram quando Keitel contou de seu passado militar, como fuzileiro, antes de começar a atuar. “Eu tive grandes mestres como Lee Strasberg e Stella Adler. Mas quando me perguntam o que eu aprendi com Marty (apelido de Scorsese), eu sempre digo: ‘O certo é você perguntar o que Marty aprendeu comigo’. Foi lindo ter feito “A Última Tentação de Cristo” com ele e rever minhas convicções em relação à fé”, disse Keitel, lembrando que o longa-metragem sobre a vida de Cristo foi rodado no Marrocos. “Um dia, acordei à noite pra ir ao banheiro e usei uma lanterna para iluminar o caminho, pois ficávamos hospedados em uma vila ancestral, eu e Willem Dafoe. Quando voltei e iluminei a cama, havia tanto inseto, tanto inseto em cima dela, que eu tomei um susto, desisti de dormir e fui buscar uma Coca-Cola. O pior que fiz aqui foi ter saído para correr, numa longa pista à beira-mar, e perceber que eu estava usando um boné com a insígnia dos fuzileiros. Qual era o sentido de usar aquilo em um momento em que o mundo estava passando por uma série de conflitos. Tirei o boné fora e nunca mais usei. Fizemos um filme lindo que mostra que existe carne e sangue nas veias dos personagens da Bíblia”.
Nesta terça, entusiasmado pelo sucesso de “Parasita” em todo o planeta, a começar pela conquista da Palma de Ouro de 2019, Marrakech vai exibir, ao ar livre, um outro filme de seu realizador, o coreano Bong Joohn-Ho. A produção escolhida pra projeção foi “Expresso do Amanha” (“Snowpierecer”, 2013), com Chris Pine e a presidente do júri marroquinho deste ano, Tilda Swinton.
Sábado, o Festival de Marrakech encerra seus trabalhos com a entrega da Estrela de Ouro. Até o momento, o filme australiano “Dente de leite” (“Babyteeth”), da estreante Shannon Murphy, sobre uma adolescente com câncer que se apaixona por um jovem traficante, é o favorito a laúreas. Mas o brasileiro “A Febre”, que vem papando prêmios por onde passa, vem aí, para desafiar os 13 demais competidores.

Tendências: