Memória Back: tempero de polêmica

Memória Back: tempero de polêmica

Rodrigo Fonseca

10 de fevereiro de 2016 | 10h31

Sylvio Back mantém, desde os anos 1960, uma obra alimentada de poesia e provocação

Sylvio Back mantém, desde os anos 1960, uma obra alimentada de poesia, provocação e lucidez irônica

Provocação parece ser, numa olhada mais superficial, a matéria-prima dos filmes que integram a coleção de DVDs Cinemateca Sylvio Back, recém-lançada pela Versátil como um gesto de reconhecimento a uma obra, que, ao longo de quase cinco décadas da mais pura nitroglicerina poética, pode (e deve) ser considerada originalíssima dentro do planisfério audiovisual brasileiro. Originalidade, entretanto, nem sempre garantiu unanimidade a uma carreira marcada por um coeficiente (um tanto corrosivo) de ironia, vide as discussões que inflamaram a passagem pelas telas de longas-metragens como Rário Auriverde (1991), Lost Zweig (2003) e O Contestado – Restos Mortais (2010). Os três integram o box de bolachas digitais, que ainda garimpou o obrigatório Lance Maior (1968), com Regina Duarte fazendo cinema ao lado de Reginaldo Faria. Polêmicos ou não, estes registros de diferentes patologias nacionais ganharam maior tônus com a idade. Mesmo Aleluia, Gretchen (1976), a obra-prima do diretor, fica parecendo mais viçoso (e rebelde) quando revisto à luz dos atuais turbilhões políticos do país. Entre os trabalhos mais recentes de Back, a Versátil deu espaço nobre ao documentário Universo Graciliano, um documento imprescindível ao entendimento das nuanças existenciais da prosa do autor de Vidas Secas. Na entrevista a seguir, Back revê o passado e vislumbra o futuro.

Que Brasil está refletido nessa sua obra de longa metragem dos anos 1960 até hoje?
BACK –
A obra é sempre um making of do diretor. Ninguém escapa dessa. Como faço um cinema moral, equidistante das paixões políticas e ideológicas da hora, ele acaba revelando tanto minhas virtudes quanto os defeitos, assim, sem dó nem piedade. Na verdade, meus filmes são melhores do que eu. Talvez aí resida seu DNA polêmico e contestável, com fotogramas que não procuram encantar nem a mídia nem a crítica. Mas, conflagrar o espectador e deixá-lo órfão, sem levá-lo pelas mãos ou pensar por ele. Sim, expulsá-lo da inércia intelectual a que é submetido pelo entretenimento, pois, sabemos que entretenimento não é arte. Para tentar avaliar o que é esse meio século de 38 filmes escritos e dirigidos com explicito tônus desideologizado, faço minha a sentença do designer húngaro Tibor Kalman: “Se você faz algo que ninguém odeia, ninguém amou”. Esse é o cinema do Sylvio Back.

"O Contestado - Restos Mortais": filé dos DVDs

“O Contestado – Restos Mortais”: filé dos DVDs

O quanto a literatura, seja via Stefan Zweig, seja via Graciliano Ramos – para citar dois escritores que o senhor adaptou -, serve de mediador para o seu olhar?
BACK –
Não por acaso Stefan Zweig e Graciliano Ramos caíram nas minhas graças de realizador independente e livre pensador. Seja pelo tormento existencial, seja pela retidão moral e autonomia político ideológica com que escreveram suas obras. Dois intelectuais que pensavam por sua própria cabeça, insubmissos a qualquer “voz do dono”. Vida e obra corriam o mesmo e permanente risco. Apaixonei-me por eles sem transformá-los em santos evitando higienizar onde suas contradições são e eram incontornáveis. Daí, Zweig e Graciliano, respectivamente, setenta e sessenta anos de suas mortes como procurei demonstrar em Lost Zweig e em O Universo Graciliano, continuam com as obras inoxidáveis, respeitadas como se tivessem sido escritas hoje. A isso se chama imortalidade!

"O Universo Graciliano": prosa e brasilidade

“O Universo Graciliano”: uma prosa com a brasilidade

Quais serão os próximos passos de sua carreira como realizador?
BACK –
Nós, cineastas, somos felizes reféns de projetos que, afinal, dão sentido e longevidade a uma carreira. Tenho um fileira deles escritos e formatados à espera de sua materialização. Destacaria os que estão na agulha em pré-produção, como o docudrama Véu de Curityba e a ficção A História é Teimosa. E, também, tenho agora em fase de escritura, uma minissérie sobre o escritor e cronista Carlinhos Oliveira, morto há trinta anos, e cuja trajetória existencial e obra literária, ambas, excepcionais, são um retrato falado de um Rio de Janeiro que não existe mais.

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