Melamedismo na veia, bipolaridade na mente

Melamedismo na veia, bipolaridade na mente

Rodrigo Fonseca

06 de novembro de 2015 | 13h34

Mateus Solano será a primeira vítima do

Mateus Solano será a primeira vítima do “Bipolar Show”

Homem-hífen, daqueles de acumular os mais variados ofícios, entre eles os de poeta, ator, diretor, escritor, dramaturgo, músico e falador (ou seria fala-a-dor), Michel Melamed vai somar mais uma atividade – a de dublê de David Letterman – em seu rol de tarefas como criador e transgressor. A novidade chega com a estreia, no dia 8 de novembro (este domingo), às 21h, no Canal Brasil, do programa Bipolar Show. Na tela, em uma abordagem binária, entre o humor e jornalismo, entre a arguição e a piada, o eterno Bentinho (da microssérie Capitu) vira um tipo muito específico de entrevistador, à la Letterman por um lado, mas com um que de Ellen DeGeneres, de Jô Soares e até de Flávio Cavalcanti por outro. Porém, atenção a uma contradição essencial à sua nova condição: ele não chama seus convidados de entrevistados, até porque, trata-se de uma mistura de depoimento e ficção, relato e invenção, desabafo e maliquice. O rótulo vai nascer no ar, assim que um time luxuoso que inclui Mateus Solano (o primeiro felizardo, com direito a um beijão na boca), Letícia Sabatella, Andréa Horta, Alexandre Nero, Fernanda Paes Leme, Bruna Linzmeyer. Cada um vai provar do “melamedismo” em diferentes condições de temperatura e pressão. Ao fim das conversas, ele apresenta números musicais de novos xodós da MPB e do lounge nativo como Domênico Lancellotti, Simone Mazzer, Luis Capucho, Botika e Letícia Novaes, entre outros. Ocupado agora como ator da atual novela das seis, Além do Tempo, e em vias de voltar à telona como ator e mesmo como diretor, Melamed abre o peito pa nóis aqui no P DE POP e seja o que Deus quiser (e o Diabo deixar). Saca só: 

Quando é que um artista se dá conta de que é bipolar: bipolar entre a realidade e a invenção, bipolar entre o riso e o drama, bipolar entre o risco da descoberta e o assédio da fama?
MICHEL MELAMED – Talvez se dando conta de que é polipolar e que a bipolaridade é tão somente um desejo totalizante ou uma forma de se definir por oposição…? Em resumão, a bipolaridade entre a polipolaridade e alguma bipolaridade… Porque é do nosso dever e, principalmente, prazer, romper com o mundo binário, ordinário, simplista, e, deverasmente excludente dos extremismos… Daí a valorização dos multi, dos poli, das diferenças e suas “fronteiras desguarnecidas” – lembro sempre do título lindo do amigo poeta Alberto Pucheu. O movimento não é só pendular, mas o triplo twist carpado nosso de cada dia, confere? O mundo é degradê…

Falou bonito… Bom, assim sendo: como foi feita a seleção das suas primeiras “vítimas” e como foi driblar o arquétipo que cada uma celebrizou na TV ou no cinema?
MELAMED – Vitimando a ideia de vítimas: só tem felizardo nesse tarô, começando por mim, que tive a horna de ladear na criação esses convidadaços! Já o “drible” é mesmo o número desse programa, o “Drible Show”, ao passo que ninguém ali tá amarrado em nome de arquétipo nenhum: todo mundo livre pra incorporar e bater tambor.

Letícia Sabatella passa pela sabatina melamediana

Letícia Sabatella passa pela sabatina melamediana

O que há de mais bipolar no Brasil hoje?
MELAMED – A ignorância. A diversidade é nossa riqueza maior: sete bilhões de projetos… A polarização no Brasil de hoje é sintoma de infantilização e só interessa a quem não interessa, ou seja, aos donos da verdade.

E o que haveria de bipolar na indústria cultural brasileira?
MELAMED – Já a produção artística parece viver situações diversas para cada linguagem, quer dizer, por exemplo, de um lado o acesso aos meio de produção e divulgação (câmeras, computadores, internet) permitindo essa explosão audivisual e o diálogo mundial, de outro, a produção cênica e musical que estejam em diálogo com as tradições, enfrentando dificuldades – de produção, público etc – em razão da má educação… Em suma, grotescamente quixotescos e aliterados… Por isso uma voz mais homologar o voto eterno no PEC (Partido da Educação e Cultura).

E teatro ainda tem lugar na sua agenda? Quanto?
MELAMED – Bipolar Show é teatro!!

O ator caracterizado na novela das seis:

O ator caracterizado na novela das seis: “Além do Tempo”

Como tem sido para si o aprendizado da linguagem das telenovelas? Como é a experiência do horário das 18h na TV Globo, com Além do Tempo? 
MELAMED – Estou literal e literariamente amando Além do Tempo. Mils são as razões, dentre estas, se só sei fazer o que não sei fazer, a novela é puríssima Bienal: linguagem, dinâmica, visibilidade, tempo, relacionamentos etc. Tudo novíssimo em folhas na relva. Das possibilidades artísticas e experimentais à coisa da obra aberta, com os diversos artistas se encontrando diariamente e tendo o tempo industrial para criar, juntos, a cena, a história, o personagem, o acontecimento, enfim… É uma obra viva, cheia de riscos, e, no caso deste grupo específico, elenco, autores, direção, técnica, tudo tomado do carinho e respeito e compromisso. Só dá para amar.

Atenção: em seu projeto pessoal de dominação global (da alegria nossa de cada dia), Melamed consegui que o Bipolar Show passasse ainda em horários alternativos. Anota e não perde: segundas, ao meio-dia, quintas, às 17h30, e na madrugada de sábado para domingo, às 2h.

p.s.: O crédito das fotos do Bipolar Show é de Débora 70.

p.s.2: Quem ainda não teve chance de ver o tríptico As Mil e Uma Noites, do português Miguel Gomes, faça isso correndo. Os três volumes da produção de seis horas passou pela 39ª Mostra de São Paulo, roda nesta sexta na itinerância do festival paulistano em solo carioca (via Espaço Itaú) e estreia no dia 12 (a parte 1) e no dia 19 (as partes 2 e 3). É uma imersão radical – pelas vias da fábula – no microcosmos de um Portugal baleado pela crise.

Miguel Gomes é autor-ator em seu experimento

Miguel Gomes é autor-ator em seu experimento à lusitana

p.s.3: Fica ligado neste trailer, com cheirinho de Oscar:

 

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