‘Mediterrâneo’, ‘a’ pérola de San Sebastián

‘Mediterrâneo’, ‘a’ pérola de San Sebastián

Rodrigo Fonseca

22 de setembro de 2021 | 09h48

“Mediterrâneo”: afogamento nas águas da xenofobia

Rodrigo Fonseca
Inaugurado no dia 17 de setembro, com “One Second”, de Zhang Yimou, o 69º Festival de San Sebastián, no norte da Espanha, já revelou algumas joias. Confira suas mais brilhantes descobertas:

MEDITERRÂNEO, de Marcel Barrena: Em fase de apogeu, o cinema popular espanhol flerta com o thriller e com o cinema catástrofe neste delicado estudo sobre a xenofobia contra os imigrantes que fogem de zonas de conflito na África para se refugiarem em terras gregas, na Ilha de Lesbos. Um salva-vidas (Eduard Fernández, em comovente atuação) fará de tudo para resgatar vítimas da exclusão que se debatem contra a violência do mar… e da política. Filmaço.
UN MONDE, de Laura Wandel: A pré-escola nunca pareceu tão assustadora quanto vista sob o olhar de uma menininha cujo irmão é alvo de bullying. Nora, a protagonista deste drama geracional, tem só 7 anos. Mas parece que todas as brutalidades da Bélgica de hoje cabem em seu olhar de maré cheia.
DISTANCIA DE RESCATE, de Claudia Llosa: Cerca de 12 anos após a conquista do Urso de Ouro de Berlim por “A Teta Assustada”, a diretora peruana volta à cena com uma produção Netflix de fantasmagorias que mexem com as heranças do realismo mágico latino. María Valverde e Dolores Fonzi deram à 69ª edição do evento espanhol a melhor atuação feminina, numa composição em duo indissociável, que traduz sororidade… e algo mais. Elas interpretam mães que se conhecem em meio à tragédia do envenenamento de um menino. Um ritual preserva o corpo do guri. Já sua alma…
BENEDICTION, de Terence Davies: Fora sua batalha de anos a fio contra a homofobia e a luta para comungar do Catolicismo, sem ser julgado, o poeta Siegfried Loraine Sassoon (1886-1967) brigou o máximo que conseguiu para fazer com que a literatura defenestrasse a guerra da vida de seus leitores, pregando o pacifismo. O realizador de “Vozes Distantes” (1988) volta às telas usando a história de Sassoon como um manifesto antibelicista, fundindo imagens de arquivo de trincheiras com suntuosas sequências de ficção, estreladas por Jack Lowden.
JÉSUS LÓPEZ, de Maximiliano Schonfeld: A Argentina comprova uma vez mais o quanto a sua dramaturgia é autorregenerativa em uma história de fantasmas, centrada em um povoado em que a morte do rapaz assombra os moradores à sua volta, influindo na delicadeza do dia a dia.
MASS, de Fran Kranz: Ann Dowd e Jason Isaacs levam a dor da perda a limites intoleráveis em um drama sobre casais que se encontram para chorar uma tragédia.

Javier Bardem é “El Buen Patrón”

Acerca da competição oficial:
Na terça, em San Sebastián, a sessão de “El Buen Patrón”, uma hilária comédia do madrilenho Fernando León de Aranoa, com seu divo Javier Bardem (em atuação colossal, digna de Marcello Mastroianni), ofuscou a concorrência, na briga pela Concha de Ouro. Só se fala com mais ardor de um título, entre os concorrentes: “Arthur Rambo”, nova longa do francês Laurent Cantet, aclamado por longas-metragens de tônica social como “Entre os Muros da Escola” (Palma de Ouro em Cannes de 2008). Seu novo exercício de autoralidade narra a luta de um escritor das periferias parisienses, de origem argelina, que passa de queridinho da crítica a alvo de linchamentos virtuais depois de tweets preconceituosos, postados em seu passado, vazarem nas redes sociais. Estima-se que “The Eyes of Tammy Faye”, de Michael Showalter, vá virar o jogo nesta quinta-feira, apoiado no talento da atriz Jessica Chastain no papel de uma líder evangélica.
Sábado serão conhecidos os vencedores, no encerramento do evento.

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