‘Medida Provisória’ de Lazinho chega a Moscou

‘Medida Provisória’ de Lazinho chega a Moscou

Rodrigo Fonseca

03 de outubro de 2020 | 11h41

“Medida Provisória” (foto de Mariana Vianna) está com competição em Moscou

Rodrigo Fonseca
Criado em 1935 e reinventado em 2000, o Festival de Moscou vai embarcar na brasilidade e na sua luta contra a intolerância racial de carona na estreia do ator Lázaro Ramos como realizador: foi dia de “Medida Provisória”, em competição, na maratona cinéfila russa, neste sábado. Há um medalhão eslavo no júri, o diretor Timur Bekmambetov (de “Procurado”). Na quinta, o evento chega ao fim, com a entrega de prêmios, aos quais concorrem 13 longas-metragens de ficção ao todo. Concorrem com Lazinho “The Barren Bride” (Índia); “A Siege Diary” (Rússia); “In The Shadows” (Turquia); “Hypnosis” (Rússia); “The Fishermen’s Daughter” (Azerbaijão); “Peaches & Cream” (Israel); “The Melody of String Tree” (Rússia); “Far Frontiers” (Rússia); “The Campaign” (Romênia); “Fate” (Cazaquistão); “Hilda” (Reino Unido); e “Dissolve”, este último pilotado por um mestre, Kim Ki-Duk, da Coreia do Sul. Batizado lá fora de “Executive Order”, o filme, produzido pelo cineasta Daniel Filho (atualmente alvo de homenagens nos EUA e online no Circuito Inffinito de Cinema), tem como inspiração livre a peça “Namíbia, não”, de Aldri Anunciação, que o próprio Lázaro dirigiu nos palcos, em 2011, no Rio. Em maio de 2019, o P de Pop foi ao set de filmagem, na Praça da Harmonia, no bairro da Gamboa, no RJ: lá, Taís Araújo, Seu Jorge e o anglo-brasileiro Alfred Enoch, o Dean Thomas da franquia “Harry Potter”, estrelaram a sequência que acompanhamos, numa descida de ladeira. Taís vive a médica Capitu, que testemunha um rebuliço no país, causado por uma decisão do governo que pode expatriar os negros residentes no Brasil. Enoch é o namorado dela, Antonio, um advogado aguerrido em suas causas, que tem um primo jornalista – papel de Seu Jorge. O elenco ainda traz duas titãs da TV: Adriana Esteves e Renata Sorrah. Lusa Silvestre (“Estômago”) é uma grife do roteiro. Na terça, há mais uma projeção deste estudo sobre segregações, agendada para o New Tretyakov Main Auditorium. Também no dia 6 passa um outro trabalho recente de LR, só que como ator: “O Silêncio da Chuva”, do qual o já citado Daniel Filho é o realizador. Este thriller inspirado em Luiz Alfredo Garcia-Roza e seu herói, o delegado Espinoza, foi enquadrado pelos moscovitas no programa BRICS, do qual faz parte também “Aos Pedaços”, que deu o Kikito de melhor direção a Ruy Guerra em Gramado.
“Fui dirigido por muita gente, por muita gente talentosa, e fui aprendendo que filmar é a arte de saber tomar escolhas. Dirigir é saber escolher em prol do que é melhor para todos, principalmente para o filme. Tomei aula de técnica cinematográfica antes de embarcar nessa e me arriscar como cineasta, estudando lente, eixo… Só que o fator essencial é saber transmitir os afetos que eu tenho a partir dos personagens que estou ajudando meu elenco a criar. Tudo é afeto num set”, disse Lázaro ao Estadão na filmagem, sempre ao lado do fotógrafo Adrian Teijido (de “Elis” e “O palhaço”).
Na tropa de choque do que define como uma história de amor em um Brasil de distopia, Lázaro conta ainda com (a já citada) Mariana Xavier, Pablo Sanábio, Dan Ferreira, Flavio Bauraqui, Pedro Nercessian, Hilton Cobra e “muitas outras atrizes e atores bacanas, capazes de trabalhar de forma harmônica”. Com dois astros talhados pelo cinema de língua inglesa nas mãos, como Seu Jorge e Enoch (o Wes Gibbins de “How to get away with murder?”), Lázaro mergulhou em modos de atuar bem distintos. O resultado os russos vão aplaudir neste fim de semana, ajudando o projeto a ser mundialmente conhecido.

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