‘Mea Culpa’, um zine que dá barato

‘Mea Culpa’, um zine que dá barato

Rodrigo Fonseca

15 de novembro de 2019 | 10h27

Rodrigo Fonseca
Transformada em um barril de pólvora criativa para a atomização dos clichês mais moralistas da tradicional família leitora brasileira, a Caixa Cultural – RJ hospeda até sábado toda a sorte de cartunista, ilustrador e roteirista de HQs destinado a fazer do Panorama Nona Arte 2019 – Quadrinhos Impossíveis um evento para entrar (e ficar) no calendário cultural da Cidade Maravilhosa, incluindo lançamentos diversos de transgressores natos, como o ás Johandson Rezende. Indivíduo das mais alta periculosidade quando o assunto é o combate à monotonia, o agitador cultural, animador e quadrinista responsável por “Cartoondelia” (2015) volta agora com um zine, o “Mea Culpa”. Aos 42 anos, este carioca de Realengo, famoso na cena dos gibis e na seara cinéfila (ele ajudou a fazer do Cine Joia, em Copacabana, um bunker de resistência) lança este seu “Amarcord” na Caixa este sábado, a partir das 14h. Na sequência, esse tratado de ousadia vai estar à venda na Baratos da Ribeira, em Copacabana, e na Cucaracha, em Ipanema. Nele, encontram-se porres em forma de narrativas curtas, baseadas em delírios da psiquê alquebrada desse artista gráfico que faz da picardia sua munição.

Nestes tempos de “Coringa”, qual é a loucura que rege esse teu Zine? Que tom ele tem?
Johandson:
Fazer um fanzine já é um ato de loucura por si, um desejo quase patológico de se expressar, porque um fanzine não dá dinheiro. Aliás, é o contrário: a gente gasta com ele. Dá um certo trabalho pra ser criado, tanto na arte, quanto na produção: dobrando, grampeando e distribuindo cada exemplar pessoalmente. Além dessa coisa quixotesca, a loucura já começa pelo título, “Mea culpa”, que remete à confissão, de minhas neuroses, meus pecados, questões, aflições e alegrias.
Qual é o atual estado da HQ Indie no Brasil e com a cultura dos zineiros?
Johandson:
Não sei se sou a melhor pessoa pra responder isso, mas acredito que quase todo autor nacional tornou-se um pouco zineiro, no sentido de publicar independentemente, através de financiamento coletivo ou do próprio bolso, na maioria das vezes com baixa tiragem, e venda de mão em mão ou pela internet.
A que linhagem de HQs vc se filia?
Johandson:
Principalmente à linhagem do underground, como a galera da ZAP Comix de Crumb, dos quadrinhos de temática adulta, autobiográfica, e os chamados quadrinhos de autor, onde o quadrinista cria todo processo de roteiro, desenho, arte final, e muitas vezes, publicação e distribuição. Exercita-se assim uma liberdade criativa que exploram técnicas e temas, indo além de certas amarras tradicionais.

Nesta sexta-feira, a boa do Panorama Nona Arte 2019 é o seguinte:
Das 14:00 – 15:45, tem o debate “Quadrinhos em revista”, com Dani Utescher (SP) e André Dahmer (RJ): Um panorama da produção nacional através de dois projetos de publicação em quadrinhos: Coleção Ugritos e Revista Expressa. Das 16:00 – 17:45, rola o debate “Não ficção”, com Allan Sieber (RS/RJ), Sirlene Barbosa e João Pinheiro (SP): Aventura, ficção e humor já são bastante reconhecidos como ingredientes das histórias em quadrinhos, mas outra produção, baseada em fatos reais e histórias pessoais, ganha cada vez mais destaque. Das 18:00 – 20:00, rola o debate “Brasil nos quadrinhos”, com Aline Lemos (BH) e André Toral (SP): Quadrinhos que apresentam aspectos da cultura brasileira se utilizando de referências históricas e geográficas para revelar as particularidades de um país marcado pela diversidade.

p.s.: Nesta madrugada, às 4h, rola “Casa Grande”, de Fellipe Gamarano Barbosa, no “Corujão” da Globo. É um ferino exercício de observação das lutas silenciosas de classe no Brasil.

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