‘Me Sinto Bem Com Você’: apenas o começo

‘Me Sinto Bem Com Você’: apenas o começo

Rodrigo Fonseca

24 de dezembro de 2020 | 10h22

Manu Gavassi estrela um dos segmentos do novo longa de Matheus Souza, de “Apenas o Fim” (2008), centrado na vida a dois durante a pandemia, com distanciamentos diversos

Rodrigo Fonseca
Poemas brotam na cabeça ao fim da sessão de um filme ainda em processo ao qual o P de Pop teve acesso às vésperas deste Natal: o brigadeiro de churros com Leite Ninho chamado “Me Sinto Bem Com Você”. Saudades e indigestões relacionadas à pandemia, trançadas pelo diretor Matheus Souza em forma de longa-metragem, evocam uma homilia da catequese poética do catarinense LIndolf Bell (1938-1988) que avisa “Sempre há duas solidões que se aguardam/ Por isso quero estar junto/ como raiz e tronco/em todas as noites de insuficiência”. Embora escreva canções, para peças e filmes, Matheus não é do tipo que cita poesias, e, sim, filmes. Fez isso em sua primeira e consagradora aparição pública como artista.
Palco do Cine Odeon, 5 de outubro de 2008, Première Brasil, Festival do Rio: na portinha dos 20 anos, finalizando Cinema na PUC-RJ, Matheus se põe diante de uma multidão, para lançar “Apenas o Fim” – carta de intenções da geração Ctrl + Alt + Del na representação dos sentimentos juvenis – e cita “Rocky, um Lutador” (1976), em homenagem a um amigo brucutu, e lembra “Todo mundo tem uma Adrian pra quem dedicar uma história de amor”. Doze anos se passaram e a carreira dele vivenciou múltiplas guinadas, especialmente numa parceria com Domingos Oliveira (1935-2019) – com quem fez “Os 8 Magníficos”, hoje em cartaz – e na confecção de roteiros pra a TV (o programa “Amor & Sexo”) e para cineastas veteranos, como Daniel Filho (“Confissões de Adolescente”) e José Alvarenga Jr. (“Intimidade Entre Estranhos”). Na realização, ele encantou Gramado, em 2012, com algo nas raias da obra-prima – “Eu Não Faço a Menor Ideia do Que Eu Tô Fazendo Com a Minha Vida” – e ainda fez um “Nashville” para millennials: “Ava e Vitória” (2018). Mas “Me Sinto Bem Com Você” é um exercício de maturidade. Maturidade não apenas dele como realizador, porém especialmente dele como ator (num trabalho de equalização de voz digno de aplausos) e como pensador de sensações e inquietações das gerações de 20 e poucos que estão na panela de pressão da ansiedade, com os confinamentos todos de 2020. Seu novo longa-metragem – fortalecido na delicada composição de luz da fotógrafa Camila Cornelsen e numa presença em estado de graça de Manu Gavassi como uma Frances Ha tropical – é um garimpo de pepitas sentimentais. Pepitas essas escavadas ao longo da pandemia a partir de um olhar sobre pessoas quarentenadas na companhia das tais carentes solidões de que Lindolf lavava em seus versos. Solidões que Matheus representa em situações de desconforto, divididas em cinco núcleos de personagem distintos, do qual “o” achado é a alquimia entre Amanda Benevides e Richard Abelha (hilário), como um casal baseado só em sexo, obrigado a descobrir erotizações virtuais, a despeito da onipresente mãe dele sempre estragar a festa. A interferência dessa figura materna, num papo cálido dos amantes, cobrando que o garoto tome banho direito e lave o p… é de arrancar gargalhadas e evocar frases catárticas (e antissexistas) tipo: “Fui criado por vó, não consigo chamar ninguém de gostosa”.

Gabz atua e colabora no roteiro

Fora eles dois, o combo Matheus dá direito a mais quatro situações, com sal, manteiga e refil, neste projeto no qual Manu Gavassi assina como produtora associada, tendo colaborado no roteiro junto com as outras colegas de elenco, (Gabz e Amanda Benevides). Os pontos cardinais aqui são: 1. Um casal de ex-namorados (o próprio diretor e Manu) troca mensagens pela primeira vez desde o término, e ela confessa ter limpado o nariz numa camiseta dele estampada com a banda Wilco; 2. Duas jovens (Gabz e Clarissa Muller), que acabaram de se apaixonar, vivem o medo da relação esfriar pela lonjura, evocando a figura de um guaxinim como totem de fofura e querência; 3. Um hilário par de irmãs (Thuany Parente e Bel Moreira), que se afastaram pré-pandemia, tentam retomar a amizade e redescobrir a importância da família, citando projetos de filmes que não foram feitos, como um longa sobre um lobisomem alérgico a cachorro; 4. Um casal que não se aguenta mais – interpretado no alho e óleo da excelência por Thati Lopes e Victor Lamoglia – tem de lidar com a obrigação da convivência 24 horas por dia, apesar da insistência dele em lamber o rosto dela.

Numa química perfeita, Thati Lopes e Victor Lamoglia vivem um casal em desgaste pleno

Algo do Noah Baumbach de “O Solteirão” (2010) e de “História de um Casamento” (2019) perfuma a narrativa de Matheus: o cineasta americano é um expert em incongruências e o diretor brasileiro faz dele uma Estrela de Belém na construção de seu olhar sobre o estrago que a falta de toque – ou de “semancol” – faz na convivência a dois. Sem jamais romper com o intimismo, a câmera de Camila Cornelsen vasculha esse poliedro de cinco vértices atrás das raspas de esperança e dos restos de perseverança que a pandemia preservou ao implodir vidas amorosas. Fala-se de pão caseiro, de plástico bolha, de um possível filme sobre um oculista sem educação (o título: “Vista Grossa”), de fãs do SBT e da realidade dos cabides quando eles estão em armários fechados. São “surrealices”, palavras ao vento e desabafos. O personagem vivido por Matheus, por exemplo, compartilha das reconfigurações afetivas e sexuais da mãe (Priscilla Rozembaum) na era Tinder. Fala-se, em dado momento, uma tradução perfeita do ethos dos tempos atuais: com as redes sociais, “é praticamente impossível esquecer uma pessoa hoje em dia”. Esse é o dilema da personagem de Manu.

Matheus em cena como ator: o cineasta tem seu melhor desempenho no cinema

Neste “Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembranças” da covid-19, Manu é a Clementine que não quer perder as recordações de seu Don Pixote. Seu desafio, aqui, é diferente daquele de Kate Winslet no cult absoluto de Michel Gondry. Lá, o obstáculo era o Tempo; em Matheus, o risco vem do espaço, fechado, confinado, distante. Em todos os filmes do realizador, existe esse eco da distância (geográfica ou existencial) como um vetor deflagrador de erupções. É uma linha autoral que foi se depurando com os anos, com as vivências e com as incertezas do presente. Neste 24 de dezembro, seu “Me Sinto Bem Com Você” – que tem a cara do Festival de Tribeca – caiu como uma rabanada besuntada de doçura. Que o filme chegue logo às telas. Que o Natal seja bom como esse filme é, consolidando Matheus como um dos principais cronistas do devir millennial. Nossa solidão aguarda…

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