‘Me Chama Que eu Vou’ e as Marias do Brasil

‘Me Chama Que eu Vou’ e as Marias do Brasil

Rodrigo Fonseca

16 de dezembro de 2020 | 14h04

Rodrigo Fonseca
Prestes a completar 60 anos de Rio de Janeiro, a mineira de Ubá Maria das Dores Morais Dornas faz de seus 91 anos um templo da produtividade. Quietinha em sua casa desde março, fugindo da pandemia, ela encara tanques lotados de roupa todo dia, por distração. Também está sempre a cozinhar paneladas de rabada ou costela, com agrião. Faz isso quando não está sentada em sua máquina de costura – no ofício que garantiu sua aposentadoria, em 1989 – a alinhavar máscaras de pano, pra proteger seus vizinhos da covid-19. Maria das Dores lê com a dificuldade de quem parou os estudos na terceira série do ensino fundamental, no fim da década de 1930, aprendendo boa parte do que sabe ou batendo perna ou vendo televisão. Desde os anos 1970, ela tem uma paixão secreta – platônica, porém bem resolvida – pelo personagem central de “Me Chama Que Eu Vou”, filme de encerramento do 15º Fest Aruanda, a ser exibido esta noite, às 20h, no site do evento paraibano. Este rojão de alegria em forma de .doc fala sobre o cantor Sidney Magal. O caminho das pedras para vê-lo nesta quarta-feira (16/12) é https://www.festaruanda.com.br/, URL na qual o crítico e professor da UFPB Lucio Vilar concentrou as atrações de sua maratona cinéfila, que conhecerá hoje seus vencedores. Maria das Dores mexe mal na web. Fez um cursinho de Informática em 2007 – depois que seu companheiro, João Ferreira Dornas, com quem se casou em 1948, morreu de complicações cardíacas-, mas não tem muita intimidade com a internet. Por isso, pediu a seu afilhado, a quem criou como um filho, para rever o longa-metragem de Joana Mariani sobre seu ídolo. Na noite de terça, ela entrou de bicona numa projeção do filme, feita a pedido do P de Pop, sob os bons augúrios de Aruanda, colando a carinha besuntada de creme Nívea no computador, para acompanhar Magal falar de si. Marejava os olhinhos cada vez que ele cantava baladas românticas e não o hinário cigano que lhe deu fama. Por 70 minutos deste périplo documental, Maria das Dores viajou, sentindo-se parte de uma história que faz um ícone das multidões parecer gente como a gente, comendo à beira da praia.

Regado a hits como “Sandra Rosa Madalena”, tirado de aparições televisivas de seu intérprete, “Me Chama Que Eu Vou” sabe ser enciclopédico na medida certa, sem perder um humanismo que transcenda factualidades. Nele, Joana costura, com firmeza (mas com açúcar), todo um universo de dados que ajudam a entender o histórico de como Magal virou um fetiche para multidões, mesclando um requebrado à moda dos ciganos e um visual carregado no exotismo (com madeixas a princípio encaracoladas). Para além de um “quê”-“quem”-“como”-“quando”- “onde”-“por quê”, tomado do jornalismo (é um projeto em parceria com a Globo News), mas reinventado poeticamente, o longa também traz um debate estético singular sobre o preconceito cultural que separa o brega do cult por estamentos sociais. Mas de todas as camadas de reflexão, a mais tocante é a investigação que Joana faz sobre a intimidade de um artista que vê seu lar, e a companhia de sua mulher, Magali, como a ribalta mais iluminada. E foi ali que Maria das Dores mais chorou. Por vezes, mascando seu biscoito champagne, entre goles de Soda (diet, pois ela se quer fitness), a veterana costureira de Ubá perguntava; “Mas que raio é isso de brega, que eu ouço falar desde o Chacrinha? Se tudo que eu gosto é brega, eu sou brega. Mas eu tô aqui, linda, aos 90 anos. Então brega é bom”. As perguntas e os estoicismos pararam quando Magali West, mulher de Magal há 40 anos, entra em cena.
Uma nuvem de ciúmes pareceu se espalhar pelos olhos antes reverentes de Maria das Dores, que foi ao cinema pela última vez no dia 11/4/2019, data de seu 90º aniversário, pra ver “De Pernas Pro Ar 3” – foi o presente pedido por ela a seu afilhado. Magali entra no filme como um esteio de reconexão de Magal, a persona, com Sidney Magalhães, o homem. Existe, nos filmes de Joana Mariani, uma recorrente (leia-se autoral) tentativa de falar de pertença, a partir de histórias amorosas. Em seu rascante “Todas as Canções de Amor” (2018), víamos dois casais em tempos distintos que inscreviam o tumulto de seus afetos em músicas, em hits da MPB que embalavam seus quereres. Um casal se esfacelava; outro vicejava. Mas o ponto é que, indo ou ficando, o amor não apaga quem somos, não deleta essências. Ele fortalece. O mesmo se dava no belíssimo .doc lançado por Joana no Festival do Rio de 2015: “Marias: A Fé no Feminino”. Pessoas que, no fervor de Cristo, amavam Nossa Senhora, não perdiam suas identidades como mulheres – há um homem, que também se enxerga e se reinventa no masculino. O mesmo engenho se passa com “Me Chama Que Eu Vou”, entre Magali e Magal. Maria das Dores preferiu simplificar essa semiótica, batendo (com força) no braço do afilhado, cada vez que o cantor dizia que aquele encontro era um “pra sempre”. Ela batia e dizia: “Tá vendo! Esse tem cabeça. E sabe se vestir direito. Não é que nem você”.

Maria das Dores Morais Dornas tem 91 anos e sabe que você vai dizer “Mas nem parece”, e vai ficar ainda mais feliz do que já ao perceber que os leitores do P de Pop vão considerá-la mais jovem do que de fato é

Existe uma dinâmica ativa de fala em “Me Chama Que Vou”, em depoimentos diretos de Magal para a câmera. Mas há uma mnemotécnica preciosa na articulação de recordações do cantor na mídia. Joana resgata momentos antológicos de Seu Magalhães no “Cassino do Chacrinha”, no programada Hebe Camargo, em conversas com Marília Gabriela e em entrevistas na qual ele, ainda jovem, disseca o machismo brasileiro em relação a seu rebolado. Não há uma só sequência, dessa porção mais arqueológica do filme, em que cenas de arquivo e fotos não ganhem um tratamento de montagem dinâmico, ressignificando-se num mosaico visual lépido, construído na montagem sinuosa de Eduardo Gripa. Montagem essa coroada com o Kikito, em Gramado. Joana agora prepara uma ficção em tons de musical sobre a vida de seu “documentado”, chamada “Meu Sangue Ferve Por Você”, com José Loreto no papel principal, e com Giovana Cordeiro no papel de Magali. A produção é dela (com Diane Maia e Dan Klabin) e a direção é de Paulo Machline, com quem ela fez a história de Joãosinho Trinta, há seis anos, com Matheus Nachtergaele no papel do carnavalesco. Ao saber disso, Maria das Dores quicou de alegria.
Pimpona, perguntou: “Será que estreia até o meu aniversário de 92 anos?”. Embora nunca tenha visto Magal de perto, Dona Maria das Dores trata ele como se fosse um membro da família, qual um dos primos com que comia biscoito de araruta na Vila Casal (MG). Ela se orgulha de ter visto Nelson Ned de perto por lá. “Ele era de Ubá também e ficava doido quando desrespeitavam ele, por ser um homem baixo. Eu não achava aquilo certo. Quem fazia troça dele mordeu a língua quando ele virou um cantor de sucesso, com aquele vozeirão”. Essa história fechou a noite de Maria das Dores. Feliz pela jornada cinematográfica que fez, ela ainda cravou um “Mas já acabou?” quando a projeção chegou ao fim. Talvez Magal nunca saiba que ela exista; nem o cinema brasileiro, que ela muitas vezes prestigiou. Foi ela quem desvirginou o olhar cinéfilo do afilhado ao leva-lo, em 1985, para ver “Os Trapalhões no Reino da Fantasia” no Cine Olaria. Mas, não importa não ser conhecida. Importa pra ela viver os filmes. Esta manhã, ela levantou já de linhas e agulhas em punho, em sua vetusta máquina, cantarolando “Sandra Rosa Madalena”. Mostrar o filme a ela foi um dever do P de Pop, que quer vê-la sorrir. Pra vocês talvez ela seja só a personagem de uma crônica cinéfila com ecos de crítica, só mais uma Maria, com suas dores. Pro P de Pop, não. Pra nós, ela é a Madrinha, nome que Deus escolheu para chamar as mães que amam tanto que precisam de pseudônimo. Bênção, Madrinha.

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