Maya Da-Rin no termômetro de Locarno

Maya Da-Rin no termômetro de Locarno

Rodrigo Fonseca

09 de agosto de 2019 | 17h50

Rodrigo Fonseca
Mergulho existencial nos dilemas de um índio de Manaus, “A febre”, de Maya Da-Rin, segue arrebatando elogios e incandescendo debates sobre a erosão de tribos na Suíça, de carona em sua projeção no Festival de Locarno, onde disputa o Leopardo de Ouro. O novo filme da diretora de “Terras” (2010) abriu a competição oficial, na quinta, apoiado no talento de um elenco encabeçado por Regis Myrupu.  Nesta sexta-feira, o time de jurados presidido pela francesa Catherine Breillat (de “Romance”) conferiu mais dois concorrentes. De um lado veio a história de amor assolada por dilemas de luta de classe “Douze mille”, de Nadège Trebal (França). Do outro lado, veio uma imersão nos dilemas da fé católica mezzo italiana, mezzo argentina) “Maternal”, de Maura Delpero. Este último foi ovacionado, sobretudo pelo desempenho da atriz Lidiya Liberman no papel de uma freira dedicada a cuidar de mães solteiras na América do Sul. O humor da crianças que integram o elenco mirim é contagiante. Mas apesar do apelo afetivo dos dois novos longas, a cidade segue impactado pela narrativa de Maya, arejada pela montagem de Karen Akerman. Já há cartazes internacionais, feitos por Ana Teresa Ascensão, para o longa, que tem uma nova sessão neste sábado, em solo suíço.

Justino encara uma doença febril em meio à aparição de um animal selvagem em sua vizinhança, no longa de Maya Da-Rin

Nas telas, vemos Manaus como uma cidade industrial cercada pela Floresta Amazônica. Nela, Justino, um indígena Desana de 45 anos, trabalha como vigia no porto de cargas. Desde a morte de sua esposa, sua principal companhia é sua filha mais nova, Vanessa, com quem vive em uma casa na periferia. Enfermeira em um posto de saúde, Vanessa é aceita para estudar medicina em Brasília, e terá que partir em breve.  Com o passar dos dias, Justino é tomado por uma febre forte, sem explicação aparente. A moléstia aparece quando ele passa a ser investigado pela equipe de RH do porto, por ter (supostamente) dormido em serviço. Durante a noite, uma criatura misteriosa segue seus passos, rondando seu ambiente. Durante o dia, ele luta para se manter acordado no trabalho. A rotina tediosa do porto é quebrada pela chegada de um novo vigia, Wanderley, interpretado por um inspirado Lourinelson Vladimir. Enquanto isso, a visita de seu zeloso irmão faz Justino rememorar a vida na aldeia, de onde partiu há 20 anos. Entre a opressão da cidade e a distância de sua aldeia na floresta, Justino já não pode suportar uma existência sem lugar.

Na entrevista a seguir, Maya faz uma reflexão sobre suas escolhas estéticas.

Qual é o lugar do mágico, ou do fantástico, em “A Febre” e o quanto essa geografia evoca fabulações como as do diretor tailandês Apichatpong Weerashethakul? Parece haver algo dele, do diretor de “Cemitério de Esplendor” (2015), nesse enredo… nesse clima. Há?
Maya Da-Rin:
Para muitos povos indígenas, a compreensão de uma dimensão mágica ou fantástica é complexa e não está necessariamente apartada da vida cotidiana. Ou seja, não se trata de uma fantasia em oposição à realidade; são universos que coexistem e dialogam. Os filmes do Apichatpong Weerashethakul também trabalham nessa chave. Em “A Febre”, eu busquei que essa dimensão fantástica estivesse presente no cotidiano de Justino, através da escolha das locações, da construção da imagem e do som. Filmamos com luzes muito baixas e pretos bem densos. A escolha das locações também teve um papel importante, com as paisagens industriais e desertas que assombram Justino.

O que existe de heroísmo, ativo ou passivo, em Justino e o que representação de brasilidade há nele?
Maya Da-Rin:
Acho que todos os indígenas são heróis. Depois de terem vivido o fim do seu mundo há mais de quinhentos anos e resistido ao maior massacre da História, àqueles que sobreviveram e seguem lutando para sobreviver são os maiores heróis que a humanidade já conheceu. Então, com certeza ele é um herói. Mas Justino também é um personagem com o qual eu poderia cruzar no meu cotidiano. E isso foi o que mais me interessou enquanto eu escrevia o argumento. Queria fazer um filme sobre os seus dilemas existenciais. Sabemos da propensão do cinema em “exotizar” as culturas indígenas e da tendência em enxerga-las por um prisma romântico e positivista, como remanescentes daquilo que as culturas ocidentais foram no passado e não como as sociedades complexas e atuais que são.

Qual é o lugar estratégico de um festival como Locarno na construção da trajetória de um filme brasileiro como “A Febre”?
Maya Da-Rin:
Estou muito feliz que “A Febre” esteja participando da Competição Internacional. Meu filme anterior, “Terras”, também estreou em Locarno. É um festival que conta com uma seleção de filmes muito interessante, sempre apostando em um cinema arriscado e autoral ao mesmo tempo em que também exibe filmes de amplo diálogo com o público. Apresentar o “A Febre” aqui abre não apenas uma série de portas para a trajetória futura do filme como, principalmente, chama a atenção da comunidade internacional para a realidade atual do nosso pais, num momento em que o meio ambiente, os direitos dos povos indígenas e a cultura estão tão ameaçados.

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