Mauro Lima dá grife autoral à franquia D.P.A.

Mauro Lima dá grife autoral à franquia D.P.A.

Rodrigo Fonseca

21 de abril de 2022 | 12h54

Mauro Lima no set com elenco mirim de “D.P.A.”, em foto de Desirée do Valle

RODRIGO FONSECA
Todos os caminhos cinéfilos deste nosso circuito exibidor levam a “D.P.A. 3 – Uma Aventura no Fim do Mundo”, mistura de Tio Maneco com Harry Potter. Apoiado numa direção de arte exuberante, o terceiro tomo da franquia chegou pra ficar e pra ressaltar a potência de Mauro Lima como cineasta. Criada pela escritora Flávia Lins e Silva, a grife “D.P.A.” nasceu como série de TV, no Gloob, usando um formato que evoca “Os Trapalhões”, “Castelo Ra-Tim-Bum” e os longas-metragens do Tio Maneco, de Flávio Migliaccio (1934–2020), mas se diferencia deles ao mesclar o tom detetivesco com elementos de bruxaria. Um tom que se refina com o trabalho de Mauro Lima, consagrado há 14 anos com “Meu Nome Não É Johnny”. Sua direção é autoralíssima em sua percepção dos excessos nossos de todo dia. Ainda que sejam excessos motivados pela magia. A evocação da literatura nacional também existe na franquia dos Detetives, dialogando com os Karas, de Pedro Bandeira, em livros como “A Droga da Obediência” (1984), e mesmo com a prosa de Francisco Marins (1922-2016), em “O Mistério dos Morros Dourados”, lançado pela Coleção Vaga-lume nos anos 1980. Marins é uma vivíssima referência. Mas apesar de fazer jus a toda essa tradição, o universo de Flávia tem voz própria, diferenciando-se por sua habilidade de promover uma crônica de costumes familiares da infância e da pré-adolescência numa metrópole de classe média. Uma crônica que está bem atenta aos percalços do verbo “adolescer”. O sucesso na televisão levou os personagens aos cinemas, num par de longas-metragens que lotaram o circuito e surpreenderam os exibidores: o primeiro, de 2017, foi rodado por André Pellenz; e o segundo, de 2018, foi dirigido por Vivianne Jundi. O terceiro tem potencialidades para repetir o acerto comercial de seus antecessores, galvanizado pelo olhar e pela delicadeza de Lima, que explora a figura de Severino (Ronaldo Reis, brilhante em cena) nas mais variadas latitudes, indo do humor ao assombro.

Em cartaz com o sucesso de bilheteria “Medida Provisória”, que dirigiu, Lázaro Ramos brinca de Willy Wonka em cena, ao lado da trinca de Detetives do Prédio Azul – Foto de Desirée do Valle

Na trama, durante um malfadado passeio de balão, feito sem consentimento de mamães e de papais, os Detetives Sol (Letícia Braga), Bento (Anderson Lima, impecável em cena) e Pippo (Pedro Motta), mais a feiticeira Nicole (Nicole Orsini, um poço de carisma), percebem que Severino (Reis) está estranho. A descoberta de um medalhão quebrado na mata modifica o sujeito, uma vez que ele possuído por forças das trevas. Essa maldade é tamanha que ele transforma as mães e os pais dos protagonistas em animais, e sai em busca da metade que falta de sua joia. Esse limite que ele cruza garante a uma narrativa de aventura um tom emotivo, humanizando a ação, abrindo um precedente para que se discuta o lugar daquele funcionário em um conjunto de apartamentos onde a magia impera – mas não elimina a invisibilidade social.
Faz tempo que a amizade das crianças salvou Severino da condição que a Sociologia, numa herança marxista, chama de “servo feliz”. Ele não é, meramente, um empregado resignado, que não se nota, que só acata mandos e desmandos. É uma figura querida, com vontades e com voz ativa, que desperta o carinho dos moradores. Inclua entre os inquilinos do Prédio Azul coadjuvantes que garantem breves, mas sólidas participações de Miram Freeland, Luciano Quirino e Charles Myara (brilhante em cena). Porém, ser amado não tira de Severino o fardo que ele carrega. Fardo que dará lugar a uma criatura vilã, afoita por Poder. E é contra esse ser que as crianças – e alguns adultos, entre eles um Willy Wonka todo pimpão encarnado por Lázaro Ramos – terão que agir. E rapidinho, pois a ruindade urge. Vale conferir essa viagem a confins do lúdico na telona.
Na entrevista a seguir, Mauro Lima comenta com o P de Pop o que mudou no cinema nacional desde sua consagração, em 2008, no longa com Cleo e Selton Mello. Aliás, “Meu Nome Não É Johnny” está hoje na grade do Globoplay.

Seu cinema tem, desde “Meu Nome Não É Johnny”, uma acurada visão para quem excede limites, seja da droga, da paranoia (“Reis e Ratos”), da busca perfeição (“João, o Maestro”). E até Severino se excede, em seu zelo pelas crianças… e na maldade que o atinge. O quanto dessa marca autoral te facilita a vida na imersão no universo das crianças, com uma fantasia à la Harry Potter. O que esse teu “D.P.A.” traz de mais original ou de mais pessoal para o cinema infantojuvenil?
Mauro Lima:
Na minha primeiríssima reunião de briefing, com o canal Gloob, a Paris e a Globo Filmes, eu não sabia muita coisa de “D.P.A.”. Por hábito, ou circunstância, eu espiava alguma coisa, meio que de passagem, ou de costas (trabalhando), quando meu filho estava assistindo. Tinha lido um argumento sem ter muita ideia de quem eram Pipo, Sol, Bento etc. De toda maneira, deram-me uma missão clara: o filme precisa crescer junto com as gerações de crianças que passam pela série. Eu acresci a esse desiderato o suplemento de agradar também aos pais e adultos, afinal, é quem as acompanha e fica ali do lado. Algumas das novidades “estilísticas”, digamos assim, que eu achei por bem trazer, foi um certo humor de referências, tipo de desenho animado, que estão no imaginário das gerações mais antigas. Você pode notar nas falas de malvado dublado, a la Dick Vigarista ou Tião Gavião, nas caminhadas tipo Darth Vader, no duelo de Western Spaghetti, nas galhofas e em alguns diálogos clássicos de empresas de dublagem dos anos 1960/70/80. Referências como Área 51 e Roswell, contos de mistério na aviação, enfim. Briguei um pouco pela presença de “noite” no filme, o que também não era comum ao produto.
Que realidade você encontra no cinema brasileiro que recebe DPA 3 em relação ao cenário que havia na época de “Meu Nome Não É Johnny”?
Mauro Lima:
Bem, a resposta real de público virá agora, depois da estreia oficial. Tivemos uma pandemia, mas além desse “detalhe”, da época do “Johnny” pra cá, o hábito de ir ao cinema sofreu uma série de abalos. O aumento de tamanho dos aparelhos de TV caseiros, a tecnologia dos home theaters ficou cada vez mais acessível, o crescimento do streaming. Isso tudo estimulou um consumo doméstico de conteúdo audiovisual. Entretanto, eu ainda vejo nas crianças, através do meu filho, um gosto pela sala de cinema e o programa “ver um filme” em si. Quero crer que o sucesso possa ser semelhante… ou maior, de preferência.

O que essa imersão numa grife estabelecida como a “D.P.A.” trouxe de novo para o modelo de trabalho que você encontra no cinema brasileiro?
Mauro Lima:
Eu suponho que seja um diálogo permanente entre o realizador e um público que já existe. Não só o perfil, mas ele próprio.
Que novos projetos você tem pela frente e como eles se relacionam com narrativas de gênero?
Mauro Lima:
Recentemente, terminei de filmar o “Rio Connection”, uma série internacional de oito episódios, que é uma parceria entre a Sony Pictures e a Globo, para distribuição no mercado de séries faladas em inglês. Trata-se de uma história passada no Rio no ano de 1971 e envolve criminosos internacionais, franceses e italianos, então residindo no país e desviando a notória “Conexão França” pela América do Sul, antes da heroína chegar em NYC.

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