Matteo Garrone entre a fábula e o realismo

Matteo Garrone entre a fábula e o realismo

Rodrigo Fonseca

22 de janeiro de 2021 | 10h34

Matteo Garrone na coletiva de “Pinocchio” no Festival de Berlim de 2020, onde este sucesso de bilheteria foi ovacionado – @Berlinale

RODRIGO FONSECA
Poucos realizadores europeus revelados nas últimas duas décadas construíram uma carreira tão bem-sucedida nas telas, entre público, crítica e curadoria de festivais, como o romano Matteo Garrone, artista plástico e realizador de 52 anos, em cartaz no Brasil com “Pinóquio”, uma releitura exuberante da prosa de Carlo Collodi (1826-1890). Na ativa na direção desde 1996, ele despontou aos olhos do planisfério cinéfilo em 2002, com “L’Imbalsamatore”, mas foi em 2008 que alcançou um prestígio invejável ao sair de Cannes com o Grande Prêmio do Júri por “Gomorra”. Este thriller de máfia realista até o osso foi responsável, junto com “Il Divo” (também de 2008), de Paolo Sorrentino, pelo advento do “Risorgimento”, uma onda estética que renovou o então combalido cinema da Itália, que agonizava em um processo de sucateamento. De lá, a partir de 1945, com “Roma, Cidade Aberta”, vieram diretores que mudaram a História, como Lina Wertmüller, De Sica, Fellini, Antonioni, Pasolini, Visconti, Zurlini, Pietro Germi, Ettore Scola, Monicelli, Dino Risi, Bertolucci, Marco Bellocchio, Sergio Leone, Tonino Valerii, Sergio Cobucci, Dario Argento e mais uma leva de gênios. Ainda saíram de lá gêneros como o Peplum (épicos de gladiador no Império Romano), o Giallo (terror de lâminas afiadas) e o spaghetti western, sem contar Carlo Pedersoli e Mario Girotti. Mas aí, nos anos 1990, veio o furacão Silvio Berlusconi, que chegou ceifando as estruturas de produção no audiovisual italiano, beneficiando a televisão. Por anos a fio, só Bellocchio, Pupi Avati e Nanni Moretti movimentaram as estruturas narrativas daquela pátria nas telonas. Mas aí chegaram Garrone e Sorrentino, abrindo espaço para uma turma formada sob forte influência dos Easy Riders (os autores do cinema americano dos anos 1970, na Nova Hollywood), com direito a Alice Rohrwacher, Luca Guadagnino, Daniele Luchetti, Paolo Virzì, Laura Bispuri, Claudio Giovannesi e os irmãos Damiano e Fabio D’Innocenzo. Hoje, a nação deles voltou a transbordar nas telonas e nos streamings.
“Há muitos cinemas distintos na Itália hoje, numa diversidade que abraça inclusive o respeito merecido à tradição do grande cinema que fizemos nos anos 1950 e 60, em meio a uma nova safra de cineastas capazes de ultrapassar as fronteiras de exibição de nosso país e chegar ao mundo tudo – o que me enche de orgulho dos meus conterrâneos”, disse Garrone ao P de Pop, em entrevista por telefone, que ele confessou estar lendo muitos roteiros e pesquisando o que pode ser seu novo filme. “Espero encontrar uma história logo”.

Geppetto (Benigni) e o boneco de madeira, vivido por Federico Ielapi

Laureado com um segundo Grande Prêmio do Júri, em Cannes, em 2012, por “Reality”, ele adaptou as aventuras do mentiroso boneco aspirante a ser gente de Collodi para as telas em 2019, misturando atores, efeitos visuais e uma sofisticada maquiagem. O projeto, “Pinocchio”, orçado em € 11 milhões, estreou às vésperas do Natal de 19 na Itália, e vendeu milhões de ingressos, configurando-se como um sucesso comercial tipo exportação. Ovacionado em sua passagem fora de concurso pela Berlinale 2020, em fevereiro passado, pela exuberância de sua direção de arte, o filme de Garrone conquistou uma bojuda bilheteria em seu currículo europeu – US$ 21 milhões, dos quais US$ 17 milhões foram arrecadados em cinemas italianos – e uma farta fortuna crítica, apoiada na excelência da direção e no desempenho de Roberto Benigni. O oscarizado astro e diretor de “A Vida É Bela” (1998) vive Geppetto nesta divertidíssima produção, que explora a faceta mais violenta da prosa infantil de Collodi, sem medo do politicamente correto. Benigni havia interpretado Pinóquio em uma versão de Collodi que dirigiu e estrelou em 2002, sem muito êxito comercial. Agora, como Geppetto, tudo mudou.
“Ele divertia muito a gente nos sets. E por vir de uma origem humilde, Roberto sabe retratar a pobreza com uma veracidade única. Era tudo de que eu precisava para partir de Pinóquio para discutir as mazelas da Itália”, disse Garrone ao Estadão.
Embora tenha escolhido como seu representante ao Oscar de Melhor Filme Internacional de 2021 o documentário “Notturno”, de Gianfranco Rosi, a Itália fez sua grande festa cinéfila no ano que passou com o “Pinocchio” de Garrone. Celebrizado em “A Vida É Bela” (1998) e visto na última década com destaque em “Para Roma, com amor” (2012), de Woody Allen, Benigni é quem abre o “Pinóquio” de Garrone vivendo um sofrido Geppetto na narrativa estruturada pelo produtor inglês Jeremy Thomas (de “O Último Imperador”). Federico Ielapi é quem vive Pinóquio, um brinquedo de madeira que ganha vida e passa a frequentar a escola, tendo numa entidade em forma de inseto chamada Grilo Falante (na voz de Davide Marotta) sua consciência. Mas no afã de virar gente, ele esbarra com animais escroques, envolvendo-se em mil confusões, ameaçado de virar um asno. Uma fada (Marina Vacth) será sua salvação – ou quase – em sua andança pelo mundo.
“Esta história universal de Collodi fala sobre escolhas erradas e sobre tentações, ao mesmo tempo em que apontam para as crianças os perigos da vida”, disse Garrone. “O que eu tentei fazer foi injetar fantasia na minha mirada mais realista e injetar realismo na fantasia”.

p.s.: Depois de retratar uma das principais manifestações da dança como espaço de resiliência, no premiado “A Batalha do Passinho – O Filme” (2012), e de registrar os estilosos cortes de cabelo da Zona Norte, em “Deixa na Régua” (2016), o tijucano Emílio Domingos, uma das mais ativas vozes da cultura periférica carioca na seara documental brasileira, vai abordar a rotina de uma agência de modelos em “Favela É Moda”. Esse estudo sobre a representação de corpos negros – ganhador do prêmio de Júri Popular no Festival do Rio 2019, onde recebeu ainda uma menção honrosa – estreia esta sexta na grade do Canal Curta!, às 22h30. Tem sessões ainda no sábado, 2h30 e 14h20; no domingo, 21h20; na segunda, 16h30; e na terça, 10h30. A partir desta sábado, o longa estará disponível no Curta!On, novo clube de documentários do Now, da Claro NET.

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