Matt Dillon devora San Sebastián

Matt Dillon devora San Sebastián

Rodrigo Fonseca

21 de setembro de 2020 | 09h40

Matt Dillon no estúdio em Nova York com o cantor cubano Francisco Fellove

RODRIGO FONSECA
Muso de Caetano nos anos 1980, quando o jeitão galo de briga de seu Rusty James, em “Rumble Fish – O Selvagem da Motocicleta” (1983), transformou-o em objeto de fetiche, Matt(hew Raymond) Dillon botou o coração e os tímpanos de San Sebastián no bolso, esta manhã, na Espanha, no papel de documentarista, ao pilotar “El Gran Fellove”. Embora já tenha dirigido um longa-metragem antes, “Cidade Fantasma”, em 2002, o ator de 56 anos faz da estética documental musical sua casa em um delicioso biopic de uma lenda cubana. Exibido fora de concurso na mostra espanhola, seu .doc tenta cicatrizar uma ferida da história da música latina: o fato do cantor Francisco Fellove (1923-2013) não ter conseguido finalizar um disco gravado em 1999. Foi uma gravação da qual o próprio Dillon participou, juntando talentos que oferecessem a Fellove o melhor para um comeback triunfal, depois de 20 anos sumido. No longa, o eterno Rusty mostra o quanto seu biografado renovou a canção popular em Cuba, com uma ginga única. Ele deixou seu país em 1955, passou pelo México e regressou a Havana em 1979, mas sem receber o devido crédito. Só no fim dos anos 1990, levado por Matt a Nova York, ele teve a chance de soltar seu vozeirão.

Sem pudor algum de falar na primeira pessoa, Dillon vasculha arquivos, capas de LPs, fotos, filmes dos anos 1950 e monta o puzzle de uma lenda, reinventando-se como artista. “Eu fiquei sabendo dessa história do Caetano, que é um músico incrível, por uma namorada minha, ligada à realidade brasileira. Curioso ter sido lembrado por ele na minha juventude. Trouxe dela o empenho de aprender sempre e de aproveitar oportunidades de estar perto de grandes diretores”, disse Dillon ao P de Pop, em Cannes, em 2018, quando estrelou “A Casa Que Jack Construiu”. “O caminho é esse: insistir e confiar sempre em si mesmo”.

Em seus minutos finais, “El Gran Fellove” traz um reclame comercial de Dillon, com a promessa de que o disco do cubano vai sair em 2021. À época em que Fellove gravou, soltando o dó de peito, nenhuma gravadora valorizou seu esforço. Ao reviver essa história, Dillon levou San Sebastián às lágrimas. Na projeção para a imprensa, era possível ver muitas cabecinhas mascaradas e distanciadas (pelos protocolos de proteção à Covid-19) a balançar o esqueleto. A sessão foi um banho de descarrego, encerrada com um aplauso fervoroso, como há tempos Dillon não recebia. “Tive nas mãos personagens que desafiam a barreira da tolerância, indefensáveis em seus atos. Mas é necessário separar o joio do trigo. É preciso buscar a humanidade deles”, disse o ator, que começou a atuar em 1979, tendo despertado a atenção da crítica no ano seguinte, em “Cuidado com meu guarda-costas”.

Aos 18 anos, ele caiu nas graças de Coppola no set de “Vidas sem rumo” (1983), e, dali, foi ser o irmão caçula de Mickey Rourke em “Rumble fish”. O sucesso de seu perfil à la James Dean foi tanto que ele passou duas décadas brilhando na seara dos cults, estrelando joias: “Drugstore Cowboy” (1989), “Vida de solteiro” (1992), “Um sonho sem limites” (1995), “Ciladas da sorte” (1996) e “Garotas selvagens” (1998). Mas foi perdendo, filme a filme, sua aura de “galã sexy atormentado”, deixando de empolgar os estúdios – e há fofocas falando de litros e litros de álcool perdidos em seu sangue, nesses dias de vacas magras. No fim dos anos 1990, Dillon ensaiou uma virada: roubou a cena de Ben Stiller, coadjuvando no fenômeno de bilheteria “Quem vai ficar com Mary?” (1998), protagonizando uma antológica cena de luta contra um cachorro. Mas a autoparódia que fez ali de seu jeito viril, só foi bem vista, à época, pelos fãs de comédia. Aquela interpretação desgastou sua imagem apolínea aos olhos de seus fãs do passado. Só em 2005, com “Crash – No Limite”, pelo qual foi indicado ao Oscar de melhor coadjuvante, seu brilho de outrora voltou a reluzir.

Fellove em uma das fotos reunidas por Dillon

Agora, em San Sebastián, ele reluz de novo, mas como cineasta. A maratona cinéfila espanhola vai até 26 de setembro, quando o júri presidido pelo diretor italiano Luca Guadagnino (de “Me Chame Pelo Seu Nome”) anuncia os vencedores. Até agora, o favorito à Concha de Ouro de 2020 parece ser “Another Round” (“Druk”), do dinamarquês Thomas Vinterberg. Nele, o realizador retoma sua parceria com o astro de seu brilhante “A Caça” (2012) – Mads Mikkelsen – para falar de um professor de História que refaz sua vida ao entrar num experimento etílico e encher a cara todo dia. Nesta segunda, o arrastado drama japonês “Any Crybabies Around?”, de Takuma Sato, impressionou a crítica com o requinte de sua fotografia. Nele, Takuma narra a luta de um pai bem jovem – e muito irresponsável – para se refazer dos erros do passado.

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