‘Matrix’ retorna transcendente, à luz de Keanu

‘Matrix’ retorna transcendente, à luz de Keanu

Rodrigo Fonseca

23 de dezembro de 2021 | 10h32

Keanu Reeves representa o kung fu como um gesto estético no novo e poético “Matrix”

RODRIGO FONSECA
De todas as frases lúdicas e de todas as falas irônicas que garantem a “Matrix Resurrections” o respaldo para ser chamado de “um dos melhores filmes de 2021”, com segurança, o diálogo “Eu ainda sei kung fu”, dito por Neo, no quarto (e devastador) tomo da franquia inaugurada em 1999, é o mais simbólico da operação de revisionismo estético proposto pela cineasta Lana Wachowski. Salpicado por especiarias ligadas à trans cultura de identidade de gênero, a partir da experiência pessoal de sua realizadora, o filme é uma exuberante triagem das maneiras de se “espetacularizar” o pop. Inclua aí até uma ideia popularesca que se construiu da Psicanálise – como lugar de respostas prontas e não de enfrentamento – encarnada na figura dionisíaca de Neil Patrick Harris e seu gato Déjà Vu. Mas a triagem que mais se destaca é a forma como Lana recupera toda a metodologia de se representar a violência no cinema pipoca dos anos 1990 pra cá. E o faz, em parte, pelo fato de o primeiro “Matrix” ter deflagrado, com seu “efeito bala” (espécie de câmera lenta aplicada a uma coreografia de bloqueio), a estética mais essencial da ação na década seguinte. Naquele momento da História, a CNN deu ao Jornalismo uma dimensão de espetáculo, mostrando que uma série de eventos do dito “mundo real” tinham um grau de inusitado capaz de desafiar as diretrizes da ficção. Não por acaso, surgiu ali a era do reality show – prenunciada por “Show de Truman”, de Peter Weir – e nasceu o boom do documentário, que transformou certos diretores (Eduardo Coutinho, Frederick Wiseman, Patricio Guzmán) em igrejas. Sob o véu de um “realismo legitimador”, uma crença de que a proximidade com estratégias documentais tornaria qualquer narrativa mais pertinente, a saga de Neo chegou as telas como um fenômeno, com a proposta de transformar em fantasia a teoria da “jogabilidade”. Para isso, aquele primeiro filme da (hoje) teatralogia apoiava-se em uma estrutura de ação mais espetaculosa do que reportagens das guerras com infravermelho feitas pela TV naquele momento de sensacionalismos gourmet. Misturando artes marciais com o Imperativo Categórico Kantiano e orientalismo com linguagem da MTV, a produção de US$ 63 milhões revolucionou dinâmicas e arquétipos. Mas revolucionou, sobretudo, o tal kung fu de que Neo fala neste novo filme: por trás de cada soco ou chute do personagem de Keanu Reeves havia um gesto… um gesto demasiadamente humano… um gesto de afirmação da condição humana sob a opressão de um sistema simbólico de submissão. O segundo filme, “Matrix Reloaded”, preservou essa perspectiva, galvanizada com a entrada do herói Seraph (Collin Chow). Já o terceiro filme, o confuso “Revolutions”, mais próximo de Habermas do que de Kant, optou por uma linhagem de submissão, substituindo o embate pela imolação, sem pensar os socos e pontapés como gestos. Mas o tempo passou, Lana transicionou e o cinema evoluiu em suas reflexões, sendo avassalado pelas estruturas narrativas muito dialogadas, de perspectiva palavrosa. Uma nova matrix engoliu a imagem exigindo uma nova… “Matrix”. E, não por acaso, Keanu Reeves deveria estar na linha de frente. E parte por ele ser o emblema da transformação mais significativa da ação nas telas, na década passada: a cinessérie “John Wick”. A cruzada do matador de aluguel que se revolta com a morte de seu cão mudou a forma de se filmar brigas e tiroteios tratando esses acontecimentos sob uma ótica cinemática, em que o movimento é soberano, desafiando as leis vetoriais da Física, como só se viu em animações, como se fosse um desenho do Papa-Léguas. Reeves foi o rosto emblema dessa transformação. Aliás, em dois outros momentos da História, o Cinema contou com ele para renovar o uso da adrenalina na tela grande: em “Caçadores de Emoção” (1991) e “Velocidade Máxima” (1994). Agora, mais uma vez, o avatar do heroísmo nos salva da mesmice reforçando a essencialidade de uma figura dissonante (leia-se “herói”) numa sociedade que se move como gado. No novo filme, anos se passaram e o acordo de paz entre as Máquinas e a Humanidade foi quebrado a partir de uma “atualização” de sistema, que acordou personagens antes deitados na letargia da obediência a um tratado de cavalheirismo. Quando a Matrix realinha seus códigos, Neo desperta na ilusão de ser um designer em prol da Warner Bros., em uma deliciosa metalinguagem. Mas a necessidade do amor físico que tem por Trinity (Carrie-Anne Moss, sublime em cena) dá um bug no binarismo da ilusão. Ao despertar, ele parte para uma nova luta, retomando destrezas passadas (“Eu ainda sei kung fu”) mas reciclando-as como gestos coreográficos, como um balé, como arte viva, como cinema dos grandes. Keanu é muito, mas muito, mas muito mesmo maior do que a gente pensa que ele é. É persona e faz parte do que o entretenimento nos deu de mais útil: ele é um ícone da reinvenção, seja do heroísmo, seja da condição masculina.

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