Matheus Souza leva a Gramado seu filme mais autoral (e engraçado)

Matheus Souza leva a Gramado seu filme mais autoral (e engraçado)

Rodrigo Fonseca

29 Julho 2016 | 12h28

Fábio Porchat e Leandro Soares em

Fábio Porchat e Leandro Soares em “Tamo Junto”, um dos concorrentes da seleção nacional do Festival de Gramado

RODRIGO FONSECA

Vitaminado pela escolha do mundialmente aclamado Aquarius, de Kleber Mendonça Filho, como filme de abertura, o Festival de Gramado preparou para sua 44ª edição, agendada de 26 de agosto a 3 de setembro, na Serra Gaúcha, uma das seleções de maior potencial popular de toda a sua história, incluindo uma comédia rascante, rasgadamente pop, ajustada para a geração dos millennials (a turma de 15 ou de 20 e pouquinhos anos): Tamo Junto. A direção é de Matheus Souza, dramaturgo e cineasta com inspirações que vão de Domingos Oliveira e Judd Apatow. Houve uma vez um mês de outubro, no palco do Cine Odeon (hoje Centro Cultural Luiz Severiano Ribeiro), no Rio de Janeiro, quando Matheus, então um aspirante a diretor com 20 aninhos cravados, conquistou o prêmio especial do júri do Festival do Rio com um filme encarado como a súmula estética das inquietações românticas da geração ctrl + alt + del. Era o romance cômico (ou quase dramédia) Apenas o Fim (2008). A ele seguiu-se um lírico ensaio sobre o vazio existencial da juventude: Eu Não Faço a Menor Ideia do Que eu Tô Fazendo Com a Minha Vida (2012). Agora, aos 26 anos, o cineasta – um carioca nascido em Brasília com uma estatura de Joe Pesci, uma pelugem de Chewbacca e uma fome de viver digna de David Bowie – parte para uma empreitada de vulto: um abrasivo ensaio cômico sobre volta por cima.

Fotografado por Vinicius Brum, Tamo Junto traz em seu elenco Leandro Soares, Sophie Charlotte, Matheus Souza, Alice Wegmann, Fábio Porchat, Fernanda Souza, Antonio Tabet, Augusto Madeira, Rafael Queiroga e Dida Camero. Na trama, o jovem Felipe termina o namoro de anos para curtir a vida, mas acaba descobrindo que a vida de solteiro é mais dura do que ele esperava. O longa traz nos créditos de produção um nome que hoje é toque de Midas no Brasil: a RT Features, de Rodrigo Teixeira, que participou de sucessos indie multinacionais como Frances Ha (2012), de Noah Baumbach, e A Bruxa (2015), de Robert Eggers. Nesta entrevista, Matheus faz sua reflexão sobre o humor e sobre o lugar do amor romântico nas telas do cinema brasileiro.

Existe uma discussão feroz em torno do papel da comédia na saúde financeira do cinema nacional contemporâneo, pela discussão de que a linguagem narrativo do gênero se barateou, aproximando-se mais dos cacoetes televisivos.Usa-se até um jargão pejorativo para essa nova comédia pipoca: neochanchada. De que maneira o seu novo longa-metragem, a comédia Tamo Junto, busca se destacar em meio à linhagem das neochanchadas?
MATHEUS SOUZA – Como a comédia se tornou um negócio rentável no cinema brasileiro, a lógica de quem desenvolve os projetos e investe os recursos tende a ser a de evitar riscos. Por isso, os filmes acabam se tornando repetitivos e pouco ousados enquanto cinema e mesmo como humor. Meus filmes são independentes. Eu mesmo escrevo, dirijo e produzo. Eu só chego na distribuidora já com o resultado final, os riscos já foram assumidos. Sendo boas ou não, no mínimo, são comédias que saem do padrão e buscam sempre trazer algo de novo.

Com quanto dinheiro Tamo Junto foi feito e quais são os planos de seu lançamento?MATHEUS SOUZA – É um filme produzido entre amigos, completando minha “trilogia independente de galera”. O orçamento inicial era baixo, mas o resultando acabou agradando o pessoal da Paris Filmes. Eles devem lançar o filme em outubro, e eu ainda não tenho o valor de produção final. Estamos negociando apoios de finalização e direitos de trilha.

Você virou um expoente de um cinema lírico e lúdico aos 20 anos com Apenas o Fim. Que caminhos trilha o cinema de romance hoje no Brasil? É possível uma “love story” brasileira fora do âmbito das telenovelas?
MATHEUS SOUZA – Em um futuro não muito distante, sim. O formato das comédias atuais já está começando a se desgastar pelo que acompanho dos resultados de bilheteria. Um dos maiores sucessos nacionais recentes foi o Loucas pra Casar, que, apesar de semelhante esteticamente aos outros longas da neochanchada, trazia certa ousadia de trama na segunda metade. Os produtores têm que parar de subestimar a inteligência do público. O espectador brasileiro já se acostumou a consumir filmes nacionais. Não existe mais aquela frase clássica que eu ouvia quando era criança de que “filme brasileiro é ruim”. Ou seja, com o desgaste desse tipo de comédia nas bilheterias, a tendência é a produção e o consumo se guiar para outros gêneros, seja romance ou terror.

Há uma linhagem de cronistas da amizade hoje quando se pensa no cinema americano que vai de Judd Apatow a Seth Rogen. Existe esta mesma centelha hoje no cinema brasileiro?MATHEUS SOUZA – O Apatow e o Rogen, e também mulheres como Kristen Wiig e Mindy Kailing, são realizadores de uma geração de adolescentes tardios, frutos das novas tecnologias e de um mundo marcado por pais divorciados, mulheres fortes e independentes, revoluções culturais. Então, temas mais maduros como “família” e “trabalho” acabaram perdendo espaço nas comédias de grande público para temas mais “joviais” como “sexo”, “amizade” e “o que fazer com a minha vida”. Até na franquia Vizinhos, série de filmes sobre família do Rogen, os personagens agem como adolescentes. E isso não é algo ruim. Não significa que os filmes, enquanto cinema, tenham ficado também imaturos. É apenas um fator geracional, as questões do Woody Allen são diferentes das do Seth Rogen. Aqui no Brasil a tendência é acontecer o mesmo com o surgimento de realizadores mais jovens e o sucesso de nomes talentosos que já estão por aí como a Julia Rezende e o Pedro Amorim.

Você tem um longa-metragem inédito, com recursos de animação, que nunca saiu do papel. Que filme é esse e que destino ele terá?
MATHEUS SOUZA – Esse filme foi mais uma das minhas aventuras independentes e acabou virando o meu Chinese Democracy. Tem muita coisa pronta e não tenho pressa para finalizá-lo. Estou pensando em reformular o projeto juntando o que já tenho com um material novo que estou escrevendo agora. Um dos problemas (ou vantagens) de ser jovem é que ideias novas vão surgindo o tempo todo e eu começo a desapegar das antigas. Quero lançá-lo em 2018, como uma espécie de Apenas o Fim 10 Anos Depois. Será uma súmula das minhas reflexões sobre relacionamentos amorosos na passagem dos “vinte e poucos” para os “vinte e tantos”.

Em Gramado, Tamo Junto vai disputar o prêmio de melhor longa-metragem nacional com Elis, de Hugo Prata; Barata Ribeiro, 716, de Domingos Oliveira; El Mate, de Bruno Kott; O Roubo da Taça, de Caíto Ortiz; e O Silêncio do Céu, de Marco Dutra.

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