‘Mateus’, o evangelho (meta)físico de Gustavo Gelmini

‘Mateus’, o evangelho (meta)físico de Gustavo Gelmini

Rodrigo Fonseca

06 de junho de 2019 | 18h55

Rodrigo Fonseca
Pêndulos (ora violentos, ora sinuosos) de dois corpos em duna (Fernanda Sant’Ana e Leandro Vieira), movendo-se com a aspereza da areia, dão a “Mateus”, espetáculo de dança (ou seria de reza… homilia), em cartaz no Sesc Copacabana, uma metafísica do assombro que evoca um mito da imagem. “O mundo está em perigo”, alertava o cineasta italiano Pier Paolo Pasolini (1922-1975). Tem algo dele naquela apresentação dessa dupla em estado de graça… algo desse poeta que foi morto como sequela das doenças morais do mundo, por denunciar uma sombra de terror que engessa nossa razão crítica em nome de uma razão prática. “Muito do meu marxismo vem de uma fé irracional, quase mística num processo revolucionário, o que dá ao meu entendimento das relações sociais, ou afetivas, uma dimensão épica. Um dia, ao ler a Palavra, na Bíblia, no Evangelho de São Mateus, fui tomado por um enlevo não racionalizável. Precisava contar aquela história, que, em si, tem uma natureza de épico lírico. E fui narrar esse Evangelho rompendo totalmente com a lógica do realismo e do naturalismo”, disse Pasolini, que, em 1964, fez de Jesus seu astro em “Il vangelo secondo Matteo”.
Calcado numa busca ontológica pela harmonia, física e espiritual, a dança de “Mateus” detona uma reminiscência não ortodoxa de Pasolini e de sua investigação sobre a imolação de Cristo em nome de uma luta de classes entre a fome e a resistência da alma. Com direção de Gustavo Gelmini, conectado como trilogia a seus espetáculos “Toque” (2017) e (o belíssimo) “Fauno” (2018), o jogo de armar entre Fernanda e Leandro funciona, no palco, como amarelinha, na progressão aritmética (sensível sempre) de dois organismos que rodopiam, socam, flanam e flutuam num alfabeto de oração. Rezam a um deus minúsculo, sem onipotência, que talvez possa ser deusa – não se sabe. A certeza que há é apenas a percepção (tudo em Gelmini é intuição) de que não se trata de um clamor a uma força Absoluta, mas sim uma força que bagunça o Ser e o Estar em uma filosofia de ossos e carnes. Ambos livres para desenhar seus próprios desejos, na andança – ou melhor, na coreografia. A tinta dessa escrita é suor, é movimento, é náusea, sendo esta última a vontade de potência de encontrar na fricção do verbo “dançar” o sentido épico de que Pier Paolo falava em vida. Cada giro mudo, esbaforido, de Fernanda e Leandro, parece deflagrar, sob o desenho de luz de José Geraldo Furtado (operada por Thiago Tafuri), uma ladainha em que se repete a pergunta “Espíritos, espíritos?” não em nome de paz religiosa, mas na busca por eco, por interlocução. Os espíritos de Gelmini, na geometria coreográfica de Sergi Arbusà e na dramaturgia de veias saltadas de Paulo Marques, somos nós. Nossa finitude, embalada pela música de Cyril Hernandez, é medida por pó… um pó que cai, como ampulheta a céu (ou palco) aberto. A finitude nossa de cada peça é parecida com a finitude de Fernanda e Leandro. Mas, de mãos dadas a Gelmini, numa ciranda de aceleração, eles a transcendem. Resistem. E nos encantam. Essa beleza segue em Copacabana até 9 de junho, sempre às 20h. Vale o olhar. Vale a reza. Pasolini na testa.

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