‘Mate ou Morra’: a pedida pop do Globoplay

‘Mate ou Morra’: a pedida pop do Globoplay

Rodrigo Fonseca

26 de fevereiro de 2022 | 10h02

Frank Grillo enfrenta Mel Gibson neste tributo de Joe Carnahan à estética dos videogames

Rodrigo Fonseca
Tributo à estética dos videogames, já exaltada no recente “Free Guy”, com Ryan Reynolds, hoje no Star +, o thriller “Mate ou Morra” (“Boss Level”), hoje na grade do Globoplay, ganhou status de cult em sua carreira pelo mundo, em 2021, apoiado no carisma de Mel Gibson, graças ao estilo particularíssimo de retratar a violência de seu diretor: Joe Carnahan. Em 2002, ele levou ao Festival de Sundance, em Park City, Utah, nos EUA, uma pequeníssima produção policial de ambições dramatúrgicas mais alta do que a média dos filmes centrados no combate às drogas da época, com Jason Patric e Ray Liotta: “Narc”. Instantaneamente, seu nome virou assunto entre os caçadores de talento de Hollywood e até Tom Cruise interessou-se em tê-lo como um potencial diretor em seus projetos. Sua promessa de excelência materializou-se com o sucesso de “A Última Cartada” e com sua escalação para filmar “Esquadrão Classe A”, com Liam Neeson, em 2010, retomando a parceria com ele em “A Perseguição” (2011), um dos longas mais bem elogiados da fase recente do ator irlandês em sua porção Charles Bronson. Mas com seu mais recente exercício autoral, Carnahan – cuja marca pessoal é o interesse por heróis em fim de linha e sua habilidade de criar narrativas claustrofóbicas – reforça a ambição estética que tinha duas décadas atrás.
“Tento tratar a violência sem alienação, dando ao cinema de ação um humanismo que, por vezes, a repetição de fórmulas extraiu dele”, disse Carnaham ao Estadão, via Zoom, à época do lançamento. “Não quero competir com a violência do mundo real, que é assustadora e injustificável, apostando em um grafismo exacerbado. O que eu tento fazer é abrir um debate sobre a natureza solitária do heroísmo e tentar trabalhar a forma dos filmes com uma carpintaria bem aparada e envernizada. Investimos na ação por um coeficiente estético, ou seja, para abrir questões. Tony Scott, em seus filmes, empurrou o filão à frente, ao longo de sua obra. O que busquei aqui foi retrabalhar o legado dos games, para além de seu binarismo e construir algo que faz pensar”.

De fato, entre o que existe de cinema pipoca na Globoplay, o longa de Carnahan é uma gema e se adequa ao que vemos hoje nas telonas com filmaços como o recente “Uncharted”, que vem dos games. Ímã de adjetivos entusiasmados em sua passagem pelo circuito europeu, “Mate ou Morra” dá a Frank Grillo (o vilão Ossos Cruzados de “Capitão América”) uma chance de recriar a linhagem de vigilantes gaiatos que Bruce Willis representava como ninguém em “Duro de Matar” (1988). Sob a direção de Carnahan, Grillo é Roy Pulver, um ex-agente das forças especiais que se vê forçado a reviver o dia de sua morte inúmeras vezes. É uma espécie de “Feitiço do Tempo” (1993) com adrenalina. Ele acorda, é perseguido por assassinos e, não importa o que tenta fazer, sempre acaba morrendo no final. Enquanto desenvolve uma teoria capaz de justificar o que pode estar lhe acontecendo, Roy percebe que sua família também corre perigo e luta para descobrir uma forma de quebrar esse ciclo mortal. Para isso, ele precisa chegar ao fim de um dia, ao menos, com vida. E sua missão fica mais complicada uma vez que essa repetição se desenha à sua frente como se fosse um game de tiro e pancadaria, qual um “Call of Duty”. Gibson é o criminoso que controla o destino de Roy, dominando a equação do tempo desse sci-fi regado a chumbo.
“Numa linha dramatúrgica, Roy age como um dos personagens de ‘Os Sete Samurai’, movido por um código que reflete uma certa nobreza. Mas, por outro lado, ele é como Yojimbo: um samurai cujo único exército é sua própria sorte”, define Carnahan, que dirigiu séries populares como “Lista Negra”, com James Spader, e “State of Affairs”, com Alfre Woodard e Katherine Heigl. “Temos aqui a aventura de um sujeito que desafia a Justiça em prol de um bem maior, que vai além de sua própria família, uma vez que o mecanismo de repetição do tempo é um risco para o mundo”.
No Brasil, o ótimo Alexandre Marconato dubla Grillo. Gibson ganhou a voz de Júlio Chaves, um titã da dublagem que perdemos recentemente.

p.s.: Esta tarde, na TV Globo, rola “Todo Poderoso” (2003), fenômeno de bilheteria com Jim Carrey dublado por Guilherme Briggs.

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