Mary Kay Place (já) na mira do Oscar com ‘Diane’

Mary Kay Place (já) na mira do Oscar com ‘Diane’

Rodrigo Fonseca

19 de abril de 2019 | 12h59

Veterana atriz de TV nos EUA, Mary-Kay-Place se reinventa no drama “Diane”, sobre uma viúva de 70 anos em um processo de reeducação afetiva

Rodrigo Fonseca
Após o anúncio da seleção de Cannes, na quinta, com a confirmação de Ira Sachs (e seu “Frankie”), Pedro Almodóvar (com “Dolor y Gloria”) e Kleber Mendonça Filho (com “Bacurau”, copilotado por Juliano Dornelles), as apostas para o Oscar 2020 vão incluir as atrações da Croisette de maneira mais efusiva, mas já tem lá no Awards Daily uma listinhas potenciais concorrentes. O site de Sasha Stone, especializado em premiações, fala já no fenômeno popular “Nós”, de Jordan Peele, aponta o tocante desempenho de Julianne Moore em “Gloria Bell”, mas ressalta uma operária da televisão como um provável ímã de láureas: Mary Kay Place. Seu filme: “Diane”, um ensaio sobre a arte de resistir às rugas do tempo.

Coube a Martin Scorsese, no posto de produtor a tarefa de ajudar esse delicado drama de Kent Jones, a sair do papel, dando uma nova dimensão a uma cantora e atriz de 71 anos famosa na TV americana há quatro décadas, mas um tanto esquecida. Mary Kay Place levou Marrakech às lágrimas no papel que dá título ao longa-metragem mais impactante na seleção oficial competitiva do evento marroquino em 2018, até agora. É uma trama sem viradas bruscas, sobre o dia a dia de uma viúva solitária, devotada a boas ações para os sem-teto e os famintos de Massachusetts, que se vê cercada de perda. Mas mesmo sendo acossada pela Morte, ela não perde o rebolado.

“Existe hoje uma nova geração de grandes filmes feitos com pouco dinheiro, cujo maior dilema é encontrar um cinema para serem vistos. A tarefa de festivais como este é fazer com que a cinefilia ajude estes filmes, neste momento em que as superproduções de Hollywood fazem milhões e dominam o circuito”, disse Scorsese a uma multidão de marroquinos (e de jornalistas de diferentes países) em um colóquio lotado de gente durante o Festival de Marrakech, em dezembro.

Na ocasião conversa começou pouco depois de uma salva de aplausos para “Diane”, que marca a estreia de Kent Jones na direção de longas de ficção. Autor de livros sobre a cultura audiovisual, ele é o curador do Festival de Nova York, sendo conhecido como cineasta pelo documentário “Hitchcock/Truffaut” (2015). Mas a linguagem documental dá lugar à mais lúdica fabulação em vários trechos da saga existencialista de Diane.

“Há 20 anos eu vivo com a ideia deste filme na cabeça, com base em episódios da minha família. Mas foi Mary Kay que fez dele o que ele pode ter de bom. Foi escrito para ela”, disse Jones à plateia, informando que sua estrela não veio ao Marrocos por conta de problemas pessoais em Los Angeles. “É um filme sobre as mulheres de 70 anos e seu olhar sobre a vida”.

Conhecida lá fora por séries como “Big love”, “M.A.S.H.” e “Mary Hartman, Mary Hartman”, pelo qual ela ganhou o Emmy, em 1977, Mary Kay é uma prolífica coadjuvante em Hollywood, que, enfim, ganha a chance de dar a volta por cima em sua profissão  – é a favorita a prêmios em Marrakech. Seu desempenho em “Diane” evoca im cult de Scorsese: “Alice não mora mais aqui” (1974), que deu o Oscar de melhor atriz a Ellen Burstyn.

Sua Diane não lida bem com a solidão, em especial diante do calvário de saúde de suas parentes. Para piorar, seu filho, Brian (Jake Lacy), é um dependente químico que troca as drogas pelo fundamentalismo religioso. E tudo isso se passa enquanto Diane reavalia seus prazeres, suas dores e seus sonhos. A angústia impressa na trama rendeu ao filme o prêmio de melhor roteiro no Festival de Tribeca, em Nova York. Na sequência, ele recebeu o prêmio do júri ecumênico no Festival de Locarno, na Suíça. “Há uma responsabilidade muito grande nas mãos dos diretores americanos neste momento  em que estamos numa discussão sobre um mundo sem fronteiras”, disse Jones. “A saga de Diane quer desafiar limites”.

p.s.: Filmada em Porto Rico, em 2016, mas lançada mundialmente apenas no fim de 2018, a ficção científica sino-anglo-americana de US$ 30 milhões “Cópias – De volta à vida”, recém-lançada no Brasil, é uma iguaria de digestão não muito fácil, mas de um sabor pop singular. Melhor filme B da temporada, e ponha B nisso, diante de reviravoltas absurdas e efeitos classe Z, “Replicas” (título original) evoca uma linha sci-fi que vem lá de Roger Corman e passa pelo hoje esquecido “Runaway: Fora de controle” (1984), com robôs imbuídos de humanidade e criações científicas capazes de desafiar as leis da natureza. Some essas referências a Keanu Reeves, um muso do gênero, que hoje celebra os 20 anos de “Matrix” (1999). A participação inspirada dele injeta carisma nas veias de uma narrativa que assume sua tosquice com orgulho e faz dela um motor para numerosas invenções de roteiro, a maioria delas nas raias na inverossimilhança. Mas ao transpor o limite da credibilidade com autoestima, a direção de Jeffrey Nachmanoff (produtor de “O dia depois de amanhã” e “realizador de “O traidor”) encontra um timbre de mistério que arrebata a atenção do espectador. Há duas ou três sequências memoráveis, entre elas a transformação de um androide em gente.

Dublado por Reynaldo Buzzoni, Reeves vive Will Foster, um pesquisador que trabalha com clonagem e robótica buscando transpor a alma e a mente de pessoas comatosas para novos corpos. Quando a família de Foster morre em um desastre, ele aplica seus experimentos em causa própria, brincando de Dr. Frankenstein. John Ortiz esbanja vilania no papel de Jones, o supervisor das pesquisas de Foster. Destaque para a atuação da inglesa Alice Eve como a mulher de Keanu. A montagem garante equilíbrio ao trânsito do filme do drama para a ação. Há uma mistura que puxa da memória a lembrança boa de “O homem dos olhos de raios X” (1963), de Corman.

 

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