Mary Jane de volta ao coração de Homem-Aranha

Mary Jane de volta ao coração de Homem-Aranha

Rodrigo Fonseca

02 de julho de 2020 | 13h36

Rodrigo Fonseca
Mary Jane Watson votou ao coração de Peter Parker: um beijo cristaliza a relação romântica entre eles. Compre a edição nº 15, de junho de 2020, do gibi “O Espetacular Homem-Aranha”, pra ter acesso não apenas ao recomeço do romance entre a ruiva e o Escalador de Paredes, mas também para resgatar o prazer de ler uma história bem escrita (e bem desenhada) do mais famoso herói da Marvel. O roteiro é de Nick Spencer e os desenhos são de Francesco Manna. A trama está sintonizada com a saga Carnificina Absoluta e coroa a nova fase do personagem, que ganha também uma revista especial baseada em sua versão para os games de PlayStation. O álbum “Homem-Aranha Gameverse” é uma leitura essencial, bem editada pela Panini Comics. São leituras que consolidam a boa reputação do vigilante de Nova York nos cinemas, sobretudo após o sucesso de bilheteria de “Homem-Aranha: Longe de casa”, que custou US$ 160 milhões e faturou US$ 1,1 bilhão. O longa-metragem já se encontra na grade da HBO. Tem projeção dele na TV no dia 13, às 22h30.
Espólio de guerra, edificado a partir do trauma deixado pelo combate contra o titã Thanos em “Vingadores: Ultimato”, o enredo de “Homem-Aranha: Longe de casa” fabrica o que periga a ser a mais bem aparada carta de intenções da cultura dos millennials, com toda a idiossincrasia e toda a relativização de uma cultura de lacrações. Tá ali do ladinho do recente “Fora de série”, de Olivia Wilde, espécie de censo cinematográfico dos padrões comportamentais da Geração Y. Assim como Olivia fazia uma radiografia de novas redes afetivas, montadas a partir códigos de lealdade que desafiam a velha noção de honra, Jon Watts, cineasta escolhido pela Marvel para repaginar seu aracnídeo quase sexagenário (o herói surgiu em 1962) nas telas, vai muito além da cartilha da aventura. Assim como fez no eficaz “Homem-Aranha: De volta ao lar” (uma produção de US$ 175 milhões, de 2017, cujo faturamento beirou US$ 880 milhões), Watts vai além da ação e se escora mais na crônica da adolescência, tendo Peter Parker como foco. Com um ator de talento e carisma tão profundos como o inglês Tom Holland, fica mais fácil fazer isso. Ele cria um Parker que mistura elementos da fragilidade do personagem nos anos 1960 com sua aguerrida reencarnação nos anos 2000, nas páginas da HQ “Ultimate Spider-Man”. É frágil, mas tem gana: como todo millennial, PP sempre tem algo a dizer, mesmo quando aquilo que diz não parece devidamente embasado. Mesmo assim, a doçura que transborda de cada gesto de Holland equilibra suas ações, sobretudo em sua interação com a MJ marota vivida por Zendaya, um dos talentos da atualidade, no ar, na HBO, com a série “Euphoria”. Capricha-se mais no despertar da Primavera entre ambos, em “Far from home” (título original do longa de Watts), do que no corre-corre herói x vilão, embora este também seja impecável. Aliás, impecável também é a versão brasileira, dirigida por Manolo Rey, com Wirley Contaifer dublando Holland.

Diferentemente da fase Sam Raimi da franquia Aranha, que vai de 2002 a 2007, e alça seu voo máximo em 2004, no longa com o Dr. Octopus, o Teioso na versão Holland é menos épico e menos arquetípico do que o de Tobey Maguire. Aliás, toda essa safra de Watts parece mais McDonald’s e menos compromissada com os protocolos clássicos (e classicistas) do heroísmo. Até o vilão, Mystério, vivido com charme por Jake Gyllenhaal, carrega em si algo de ordinário. Não há nele a solenidade louca do Duende Verde de Willem Dafoe. É vilão “gentinha”, ainda que bom. Sua presença em cena vem atrelada às sequelas de Thanos: no início do filme, ele se apresenta com um vigilante de outra dimensão, empenhado em conter o avanço de monstros elementais (criaturas feitas de fogo, areia ou água), que vieram de seu plano de ralidade. Mas, com o passar da narrativa, vemos que Mystério tem seus… mistérios e que esses são maus.

“Homem-Aranha: Longe de casa”

Parker está de férias e sonha com os beijos de MJ, cortejada por um colega mané. Seu colega mais querido, Ned (o genial Jacob Batalon), está deitando e rolando num namoro. Sua tia, May (Marisa Tomei, sempre em atuações radiantes) parece ter encontrado um amor ligado à vida secreta de seu sobrinho. Seus hormônios seguem em fervura máxima – embora os millennials pareçam não admitir esse vetor biológico. Com tudo isso, surge Mystério.
Esse “tudo isso” se traduz em cenas de ação editadas a partir de uma montagem arejada, que valoriza a elegância nas coreografias das batalhas. O humor está lá na dose precisa, sem cair para a chanchada, como o pavoroso “Thor Ragnarok” (2017). E as cenas pós-crédito acentuam o suspense, abrindo precedente para a nova fase da Marvel. Algo diz que Kraven vem aí, na terceira parte da franquia com Holland, prevista para novembro de 2021. Fala-se em Jefrey Dean Morgan (o Negan de “The Walking Dead”) para o papel.
Só falta ao filme na alma ultrarromântica de Raimi. A humanidade que ele imprimia parece ter se pedido. E faz falta.

p.s.: Nesta sexta-feira, às 16h, o documentarista e diretor de ficções como “Filhas do Vento” Joel Zito Araújo debate fake news com o crítico Fernão Ramos, no contexto das distopias de nosso tempo, no site https://cutt.ly/eiNR85d.
p.s.2: Às 4h da madrugada deste sábado, a Globo exibe “Eu, Tu, Eles”, que deu a Andrucha Waddington uma menção especial no Festival de Cannes de 2000, apoiado no talento de Regina Casé. Ela brilha no papel de Darlene, uma retirante que se casa com três homens: Zezinho (Stênio Garcia), Ciro (Luiz Carlos Vasconcelos) e Osias (Lima Duarte, numa atuação genial). A fotografia é de Breno Silveira. Elena Soarez assina o roteiro.

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