Martha, Kryptonita de Gotham e Metrópolis

Martha, Kryptonita de Gotham e Metrópolis

Rodrigo Fonseca

11 de maio de 2020 | 15h21

Santíssima Trindade do Pop, com Gal Gadot, Henry Cavill e Ben Affleck

Rodrigo Fonseca
Virou esporte na cultura pop a sanha de se tirar sarro de “Batman Vs. Superman: Dawn of Justice”, um dos melhores filmes de Zachary Edward Snyder, por conta de uma citação ao nome “Martha” que não deve ser explicado a quem não viu. Apesar do escárnio, esta produção de US$ 250 milhões contabilizou US$ 873 milhões nas bilheterias em seu lançamento, no primeiro trimestre de 2016, e seguiu amealhando fãs e ampliando sua arrecadação, seja na venda de DVDs seja em exibições na TV. Esta noite, rola “BvS” na Globo, na “Tela Quente”, às 22h40, em caprichada versão dublada, dando uma injeção de ânimo desta 40ena. Flávia Saddy dubla Gal Gadot, a todo-poderosa Mulher-Maravilha; Jorge Lucas é a voz do Homem-Morcego de Ben Affleck; e Guilherme Briggs encarna brasilidade no último filho de Krypton. É uma dublagem preciosa da Delart, com Luiz Carlos Persy dublando o Alfred de Jeremy Irons.

Em sua narrativa, uma crise nas infinitas terras se forma na representação do heroísmo. Nestes tempos em que as HQs se tornaram o combustível da indústria audiovisual do entretenimento, ofertando à dramaturgia um formato inusitado e renovador (o de saga), a decadência da clássica noção de Bem, de Bondade, alimenta “Batman vs. Superman: A Origem da Justiça”. No auge do sucesso da Marvel em circuito, o longa-metragem surgiu como a pedra fundamental para a Era de Ouro que a DC Comics pretendia pavimentar nas salas exibidoras. Essa pretensão foi concretizada definitivamente em 2019, com a conquista do Leão de Ouro por “Coringa”, de Todd Phillips. Mas as ousadias que o filme sobre a gênese do Palhaço do Crime tomou só se tornaram viáveis depois de todas as pesquisas de storytelling feitas pela DC/Warner. E elas deram um salto neste espetáculo autoral capaz de redefinir toda a potência imagética de seu diretor, Zack Snyder, e reafirmar a busca estética iniciada por ele em “Madrugada dos Mortos” (2004). Mesmo atormentado pela perda de sua filha. Autumn, que suicidou-se em 2017, ele seguiu com seus projetos, tendo elaborado o thriller de zumbi “Army of the Dead”, para a Netflix, e o drama “The Fountainhead”.
Entre a alegoria política e o fliperama, numa narrativa adulta sombria, sem medo de sangue, o longa que a “Tela Quente” projeta nesta segunda faz jus à confiança que os estúdios Warner depositaram sobre os ombros de Ben Affleck, ao confiar ao galã o manto do Homem-Morcego. Seu desempenho é irretocável, trazendo um Batman pós-trauma, zangado e sem esperanças, menos existencialista do que o de Christian Bale. Ben Affleck esbanja maturidade como Bruce Wayne e faz jus a Christian Bale. Pela primeira vez, em quase 31 anos de permanência do Batssinal nas telas, desde a gestão Tim Burton, o herói é afastado das influências simbólicas de Frank Miller, sendo arquitetado mais sob a influência das HQs da década de 1970, de Denny O’Neil, Neal Adams e Dick Giordano, com uma certa inocência fantasiada de preto. É difícil não falar do Guardião de Gotham City primeiro, não só porque Affleck ofusca Henry Cavill, o protocolar intérprete do Homem de Aço, mas porque o diapasão simbólico do herói criado em 1939 por Bob Kane e Bill Finger reverbera uma quantidade de ondas jamais ultrapassável pelos encantos do último filho de Krypton.

Embora Snyder lute a fim de balancear os dois, Bruce Wayne é mais caudaloso do que Clark Kent e ajuda a marcar o que o roteiro de Chris Terrio e David S. Goyer – muitas vezes truncado – tem de melhor: a natureza detetivesca, com camadas e camadas de investigação no rastro de Lex Luthor. Aliás, um Lex Luthor para entrar para a História dos vilões de HQ da telona graças à gincana afetiva à qual Jesse Eisenberg, seu intérprete, aceita se submeter, com algo de Coringa e traços de Donald Trump, em seus requebrados histéricos e seu cabelinho esvoaçante. Sérgio Cantú é quem dubla Lex em português. É quase impossível crer que um papel que foi de um ator genial como Gene Hackman (no Superman de 1978 e seus congêneres com Christopher Reeve) possa ficar ainda melhor nas mãos de outro. Eisenberg encarou o desafio e venceu. Seu Luthor é uma figura histérica, mas de tom grandioso, num desempenho que assusta e arrebata. É um dos melhores desempenhos de Eisenberg desde “A Rede Social” (2010), pelo qual ele concorreu ao Oscar.

Embora o título do filme de Snyder não a contemple, a Mulher-Maravilha também tem seu quinhão de brilho neste latifúndio pop, graças ao carisma da israelense Gal Gadot. Ela vira, aqui, um ícone do Feminino, com vigor e inteligência em prol da amizade, numa narrativa que explora seus dotes para brigar, sem descuidar de seu dom de pensar, refletir e surpreender. Gadot, no papel da amazona Diana Prince (alter ego da M-M), esbanja carisma entre platôs de terra carregada de signos políticos ligados ao desdém ético de nosso tempo. E desdém é uma palavra que serve de bússola ao filme, começando por seus dois protagonistas, o de Gotham e o de Metrópolis.

Titãs em conflito no longa de Zack Snyder

Amparado pelos acordes da inspirada trilha sonora de Hans Zimmer, Snyder traça uma sábia analogia entre o mascarado de Gotham e o filho de Jor-El, a partir da desamparada travessia de ambos da infância à vida adulta. Ambos são traumatizados pelo amor familiar: Wayne pela ausência da orfandade, na morte de seus pais; Kent pelo excesso do jugo paterno em Krypton e pela onipresença fantasma de seu pai terráqueo, vivido com carisma por um grisalho Kevin Costner. A clivagem da segurança no seio da família, ocasionada na vida de ambos por uma tragédia, fazem deles os heróis que são. E, frente a um mundo em desamparo, que anseia por deuses do Alto e rejeita quem vive da Noite, os dois se tornam mais do que nunca necessários, pois a carência de referencial gera Bezerros de Ouro do Poder, quase sempre fundidos por loucos como o Lex de Eisenberg, quase celebrativo em sua corrupção.
Artimanhas do vilão justificam o duelo do título, que funciona mais para fomentar o nascimento da Liga da Justiça, os Vingadores da DC Comics, cuja formação é esboçada aqui com citações a heróis da água, do metal e da velocidade. Um esboço que rendeu um filmaço em 2017, igualmente polêmico. Mas é melhor que o modo como cada um dos integrantes da Liga aparece fique em segredo, pois este é o trunfo da sequência já em estudo desta superprodução que, antes de tudo, serve para Snyder provar o autor sólido que é como cineasta. Desde seu cult sobre zumbis, “Madrugada dos Mortos”, ele se fez como uma espécie de profeta do niilismo em Hollywood. Seus filmes refutam finais felizes e contestam a soberania da Bondade nas narrativas, pois cada the end filmado por ele carrega em si uma centelha de desesperança, uma percepção de que herói é aquele que precisa ser imolado, o Cordeiro de Deus a sangra pelo pecado do Homem.

Foi assim em “300” (2007); era esse o destino de Roschach em “Watchmen” (2009); deu-se o mesmo com as corujas falantes de “A Lenda dos Guardiões” (2010); e foi assim com as internas do manicômio de “Sucker Punch” (2011). Nem Kal-El ele livrou de ter de sujar as mãos em “Homem de Aço” (2013): o bom moço máximo dos gibis foi forçado a matar para nos salvar da fúria de seu algoz Zod. Não por acaso, no meio de “Batman Vs. Superman”, Kal-El profetiza: “Nem tudo permanece bom!”. Ele tem razão: na América sobre a qual Snyder fala, as virtudes do altruísmo viraram tão irreais e impalpáveis como as histórias em quadrinhos. Não por acaso ele cita, frontalmente, as HQs de John Byrne, o quadrinista que desconstruiu o Super-Homem nos anos 1980, humanizando-o na esfera do desejo e da fraqueza moral: mitos existem para serem quebrados e mais tarde refeitos como lendas.

É por isso que (cada vez mais) precisamos delas: para ver o esboço de civilização que nos tornamos e nos distanciar desse rascunho. É hora de arte-final. Não por acaso, na forma, o longa de Snyder é tão bem acabado em seu parque de efeitos especiais, com um realismo que sustenta criaturas apocalípticas e explosões de mísseis no espaço. A fotografia de Larry Fong (da série “Lost”) vai e vem do realismo, vai e vem do chiaroscuro, vai e vem do onírico, fazendo convergir sonho e fato, perplexidade e abstração. São extremos em comunhão, como o Morcego e o Kryptoniano, juntos num filme que conjuga ação (em coreografias de tirar o fôlego) e razão, na busca por entender o ponto político em que chegamos e aonde vamos. Para o alto e avante com esta alegoria seminal sobre o nosso desamparo moral.

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