Marrakech entre ‘Dente de Leite’ e ‘A Febre’

Marrakech entre ‘Dente de Leite’ e ‘A Febre’

Rodrigo Fonseca

07 de dezembro de 2019 | 08h08

Rodrigo Fonseca
Tem festa cinéfila no Marrocos esta noite, abrilhantada pela presença de Robert Redford, convocado ao Marrocos para um tributo por sua bem-sucedida carreira de ator e diretor. Aliás, ele terá direito a um antecipado parabéns pelos 40 anos de “Gente como a gente” (1980), que lhe deu o Oscar de melhor direção. A celebração é do Festival de Marrakech, que põe um fim, neste sábado, nos trabalhos de sua 18º edição. Nesse fecho, consolida-se como o mais estelar dos eventos competitivos de cinema do continente africano. Além de ser considerado um dos mais prestigiados do planeta. Dois longas-metragens pilotados por diretoras estreantes na ficção despontam como favoritos à Estrela de Ouro de 2020 (a Palma dourada marroquina). De um lado, vem o brasileiro “A Febre”, de Maya Da-Rin, com seu retrato sobre um indígena cercado de mistérios numa Manaus urbana. Do outro, está o australiano “Babyteeth” (“Dente de leite”, de Shannon Murphy, sobre o amadurecimento afetivo de uma jovem com câncer. Destaque no elenco de “Os mortos não morrem”, de Jim Jarmusch (atração do Festival do Rio 2019, que começa nesta segunda), a atriz britânica Tilda Swinton preside o time de jurados, tendo entre seus votantes o diretor pernambucano Kleber Mendonça Filho, de “Bacurau”.
Ao lado de Tilda e de Kleber estão as diretoras Rebecca Zlotowski (francesa) e Andrea Arnold (inglesa); a atriz franco-italiana Chiara Mastroianni; o ator sueco Mikael Persbrandt; o escritor e diretor afegão Atiq Rahimi; o realizador australiano David Michôd; e o cineasta marroquino Ali Essafi. “É um privilégio estar em contato com o cinema da América Latina e perceber como é magnífica a produção de vocês, incluindo os trabalhos do Kleber, a quem eu gostaria muito de ouvir. Desculpe pelo meu Português tão incipiente, mas quando premiei “A teta assustada”, com o Urso de Ouro, estava escolhendo um filme de vibrante potência visual, vindo do Peru. Há pouco, eu estive na Colômbia, filmando. Trabalhei em um longa (chamado, por enquanto, de “Memória”) com o lendário Apichatpong Weerasethakul e foi uma imersão maravilhosa na América Latina, que eu só conhecia da telas”, disse Tilda em resposta ao P de Pop. “A língua do cinema nos faz universais”.

Na abertura do festival, que teve “Entre Facas e Segredos” como abre-alas, o jurado brasileiro aproveitou para expor as crises políticas de nosso país, lembrando que o Brasil encontra-se em dias de Idade Média. “Nossos artistas estão sob ataque, o que torna ainda mais necessário que a gente se expresse e irrite quem nos ataca. É fundamental irritar”, respondeu Kleber, que postou fotos no Facebook com seus parceiros de respeito e alguns de seus amigos ilustres, como o diretor bielo-russo Sergei Loznitsa. Este foi convocado para uma projeção de gala do documentário “State Funeral”, com imagens do “showmício” em torno do caixão de Stalin, em 1953, na extinta URSS.

“Aquele foi um momento de exumação de um mito”, disse Loznitsa ao Estadão. “Uma pira mortuária foi usada como palanque para um carnaval midiático”.

De 30 de novembro até ontem, Kleber e seus companheiros de júri, presididos por Tilda, foram bombardeados com imagens dos seguintes filmes para julgar, além dos já citados “Dente de leite” e “A Febre”: a animação “Bombay Rose” (Índia), de Gitanjali Rao; “Last visit” (Arábia Saudita), de Abdulmohsen Aldhabaan; “Lynn + Lucy” (Reino Unido), de Fyzal Boulifa; “Mamonga” (Sérvia, Bósnia Herzegovina, Montenegro), de Stefan Malesevic; “Mickey and the Bear” (EUA), de Annabelle Attanasio; “Mosaic Portrait” (China), de Zhai Yixiang; “Nafi’s father” (Senegal), de Mamadou Dia; “Scattered night” (Coreia do Sul), de Lee Joh-young; “Sole” (Itália, Polônia), de Carlo Sironi); “Tlamess” (Tunísia), de Ala Eddine Slim; “The unknown saint” (Marrocos), de Alaa Eddine Aljem; e “Tantas almas” (Colômbia, Brasil), de Nicolás Rincón Gille. Entre os momentos de maior emoção do festival, as lágrimas corream solto da face grisalha do veterano diretor francês Bertrand Tavernier (de “Por volta da meia-noite”), também honrado com um tributo no local, quando ele foi assistir a palestra do ator Harvey Keitel.

Prestes a voltar às telas em “Fátima”, do diretor romano Marco Pontecorvo, sobre a aparição de Nossa Senhora em Portugal, em 1917, Keitel não segurou seu pranto quando imagens de “A Morte ao Vivo”, com Romy Schneider, a seu lado, neste cult de Tavernier foram exibidas. E Tavernier estava ali na plateia, encolhidinho. “Bertrand me mostrou a precisão dos realizadores europeus”, contou Keitel, que divertiu a plateia ao relembrar o dia quando conheceu Robert De Niro, seu parceiro no recém-lançado “O Irlandês” (“The Irishman”). “Quando a gente se viu, apresentados por uma amiga, os dois pararam, um de frente para o outro, sem dizer nada que não fosse um murmúrio, meio um “Hã… Hã”, que nem a gente entendia”, disse Keitel, na foto abaixo.

Harvey Keitel em Marrakech @Fotos de Rodrigo Fonseca

Já octogenário, ele foi participar de uma roda de encontros de Marrakech, chamada de Conversações, mesma em que falou Loznitsa. Conversaram ainda com o público a atriz iraniana Golshifteh Farahani (do brilhante “Filhas do Sol”), a diva de Bollywood Priyanka Chopra, o próprio Tavernier, o produtor inglês Jeremy Thomas (de cujo currículo consta “O Último Imperador”, de Bernardo Bertolucci) e o cineasta italiano Luca Guadagnino, de “Me chame pelo seu nome” (2017). Quem inaugurou o rol de papos foi a ganhadora do Oscar Marion Cotillard (“Piaf – Um hino ao amor”). “Atuar bem não é questão de ter medo, mas de saber preservar as borboletas que voam na nossa barriga quando a gente se apresenta em público pela primeira vez. As minhas estão sempre comigo”, disse a atriz.
Entre os filmes de África aqui exibidos em seções hors-concours, um drama da Tunísia foi o maior destaque, numa oportuna carona na discussão mundial contra o sexismo e o feminicídio, com direito a sessão de gala, na presença da nata local. “Noura’s dream”, da diretora Hinde Boujemaa, virou um ímã de elogios por aqui. Exibida em sete mostras internacionais de peso (como Toronto, BFI London e Turim), a partir do Festival de San Sebastián, na Espanha, em setembro, esta produção de €500 mil é o exercício mais potente de investigação das mazelas sociais do cotidiano exibido pelo evento marroquino, até agora. Com uma estrada bem pavimentada de raciocínio crítico pelas veredas do documentário, a cineasta tunisiana embarca na ficção denunciando a microfísica do machismo em seu país a partir do drama da lavadeira Noura, vivida pela (excepcional) atriz e advogada Hend Sabri. A atuação dela foi saudada com aplausos incandescentes. A encrenca de sua personagem: oprimida por uma rotina de trabalho selvagem, lavando roupas em um hospital, ela sonha se divorciar do (violento) presidiário com quem teve três filhos, a fim de se casar com o mecânico Lassaad (Hakim Boumsaoudi) e se livrar de uma acusação de adultério. Em seu país, pular a cerca é crime, sobretudo quando se é mulher. Mas o tal “sonho” que dá título ao longa-metragem cai por terra quando seu marido meliante (Lotfi Abdelli) sai do xilindró antes do prazo, desejando retomar sua esposa para si. A queda é maior quando ela começa a ver que Lassaad também não tem o mais generoso dos temperamentos. A câmera do fotógrafo Martin Rit (xará do diretor de “Norma Rae”) ajuda Hinde a construir sua narrativa com uma secura documental que só dá trégua à fabulação quando fita o céu azul, de onde um sapato cai na cabeça do filho de Noura, indicando uma moira trágica para esta combatente das opressões de gênero.

Com o término de Marakech, as expectativas do cinema agora se voltam para a Berlinale 2020 (20 de fevereiro a 1 de março), que terá a atriz inglesa Helen Mirren, de 74 anos, como sua homenageada, com direito a receber o Urso de Ouro Honorário. Seus concorrentes e suas atrações paralelas vão ser anunciados a partir da semana que vem.

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