Marrakech coroa Redford

Marrakech coroa Redford

Rodrigo Fonseca

02 de novembro de 2019 | 09h48

RODRIGO FONSECA
Envolvido na produção de um documentário de Laura Dunn e Jef Sewell sobre o vício digital entre as crianças (“Desert of the Real”) previsto para 2020, Charles Robert Redford Jr. vai ser homenageado pelo Festival de Marrakech, que vai de 29 de novembro a 13 de dezembro, no Marrocos, pelo conjunto de seus 83 anos de vida e 59 de carreira. Apesar de uma aparição em “Vingadores: Ultimato”, o maior fenômeno de bilheteria da História, o astro, diretor, produtor e criador do Instituto Sundance (e seu festival correlato) resolveu se aposentar da atuação em 2018, após o lançamento de “O velho e a arma”. Embora tenha sido laureado com o Oscar de melhor direção em 1981, por “Gente como a gente”, ele só concorreu à estatueta, na raia de melhor ator, uma vez, por “Golpe de mestre”, em 1974. Merecia mais.
“Sempre fiz natação o que me deu preparo físico para seguir trabalhando, firme e forte, além da vontade inata de contar histórias que possam fazer diferença no olhar dos espectadores”, disse Redford ao P de Pop no BFI – London Film Festival de 2018, na Inglaterra. “Entender a fundo os desejos e as inquietações dos personagens é o caminho para se fazer cinema com dignidade. A gente não é o personagem… a gente está COM o personagem. Tão importante quanto dominar o modo como um personagem fala é dominar como ele se comporta em situações que exigem esforço físico.

Idealizador do fórum de debate sobre independência criativa de Sundance, em Utah, onde criou um bunker para um tipo de produção autônoma à vontade dos estúdios, ele batizou a fundação (e a mostra por ela realizada, sempre em janeiro) com o nome de seu personagem mais popular. De tudo o que Redford fez nas telas, de 1960 para cá, nada ficou mais icônico do que o pistoleiro Sundance Kid, de “Butch Cassidy” (1969). Mas, com o passar dos anos, as cicatrizes do Tempo tornaram sua figura algo mais solene, e ainda mais humanista. “Com o rosto de galã sulcado pelo tempo, Redford comunica cada sentimento de seu personagem pelas marcas de seu rosto”, escreveu Owen Gleiberman, na “Entertainment Weekly”, sobre este mito, a quem Marrakech vai conceder um prêmio honorário.
Tilda Swinton vai presidir o júri do festival.
p.s.: Enquanto o Brasil se delicia com “A odisseia dos tontos”, com Chino e Ricardo Darín em dobradinha, a Argentina, terra natal dessa dupla de filho e pai luminosos, curte o humor de Luis Brandoni em “El Retiro”, dramédia de Ricardo Díaz Iacoponi, sobre um aposentado às voltas com uma renovação de seus laços familiares.
p.s. 2: Termina neste fim de semana, no Teatro Poeira, no RJ, a temporada de prestígio de “Folhas de vidro”, com direção (claustrofóbica) de Michel Blois e Alexandre Varella. É a saga de dois irmãos fraturados por um crime sexual do passado. Philip Ridley assina a dramaturgia de um espetáculo que convida Carla Ribas a todos os prêmios das Artes Cênicas pelo desempenho no papel de uma mãe assolada pelo silêncio.

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