Mark Wahlberg a mil no streaming

Mark Wahlberg a mil no streaming

Rodrigo Fonseca

12 de janeiro de 2020 | 13h16

Rodrigo Fonseca
Domingos são dias historicamente talhados para filmes de ação ou dramas ligados a violência. Basta notar as três décadas de resistência do “Domingo Maior” na grade da TV Globo, pós “Fantástico”: a atração de hoje é a sci-fi soçila “Elysium” (2013), com Matt Damon e Wagner Moura, às 23h10. Mas a pedida do filão de hoje se refere à dupla presença de um príncipe do gênero, Mark Wahlberg, em dois canais de streaming. No filé MUBI estreou hoje “O Vencedor” (“The Fighter”, 2010), de David O. Russell. Nele, Wahlberg é o boxeador Mickey Ward, que nocauteia a pobreza com a ajuda do irmão crackudo (Christian Bale) e da mãe, uma matriarca cheia de malandragem, vivida por Melissa Leo. Ela e Bale foram osacrizados por suas atuações nesse melodrama pugilista que Wahlberg produziu ao lado de Darren Aronofsky. Já no HBO Go estreou o saboroso “22 Milhas”, uma iguaria de temperos mais rascantes. Neste momento em que Wahlberg está a um passo de viver o coronel Steve Austin, numa versão para a telona da série “O Homem de Seis Milhões de Dólares” (na TV, o herói era Lee Majors), vale a pena vê-lo em correrias de arrancar o fôlego, que testam seu carisma.

Hoje, na indústria, MW é uma grife de produção. Seu nome é o que assegura a arrancada de protótipos de “Máquina Mortífera” como esta produção de US$ 35 milhões escalada pela HBO online. Diante da escassez de filmes de ação “puro sangue”, sem chanchada nem fantasia, seu sangrento “Mile 22” parece exuberante, pelo menos em seus 20 minutos iniciais. Os motivos de seu aparente viço: a) a tensão com que a montadora Melissa Lawson Cheung e seu parceiro Colby Parker Jr. costuram a edição; b) a retidão que Wahlberg carrega no olhar, firmando-se como bom ator longa a longa, sobretudo após o show que deu em “Os Infiltrados” (2006), de Scorsese. Mas a frustração com este thriller chega logo, pois a direção foi confiada a Peter Berg. Ator e prolífico realizador, ele fez sucessos como “Bem-vindo à selva” (2003), com The Rock, e “Hancock” (2008), com Will Smith, provando ser mais eficiente em intrigas políticas do que no grafismo exigido por tramas violentas. Sua obra como cineasta ensaiou uma guinada com “O reino” (2007), com Jamie Foxx, que patinou nas bilheterias, mas alvejou em cheio fraquezas morais do governo George W. Bush. Competente (mas não mais do que isso) na construção de sequências de luta e combate armado, Berg, por vezes, aposta em uma linha Costa-Gavras (diretor de “Z”) e se joga em thrillers políticos (o que é caso deste longa com Wahlberg), mas se afoga ora num ufanismo cego, ora em uma crítica institucional superficial. O eixo dramático de “22 Milhas”, cujo faturamento arranhou a marca de US$ 66 milhões, são os esforços da equipe tática do agente especial Silva (Wahlberg, dublado com brilho por Marco Antonio Costa no Brasil) para exfriltrar (retirar) um policial da Indonésia, protegendo-o de criminosos que ele prometeu delatar. A exfiltração do tira será feita por uma rota que prometia mil perigos, mas que, na tela, mostra-se insossa pela inabilidade de Berg para manter a pressão nas alturas.

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