Mário Monjardim, lenda da dublagem, serena

Mário Monjardim, lenda da dublagem, serena

Rodrigo Fonseca

30 de julho de 2021 | 19h16

Mário Monjardim em foto do site Casa da Dublagem

Rodrigo Fonseca
Três dias após a partida de Orlando Drummond, abalado pelo incêndio na Cinemateca, o audiovisual brasileiro sofre mais uma perda: morreu nesta sexta-feira o ator e dublador Mário Monjardim. Parece uma triste coincidência que a voz do Salsicha se foi logo após a morte de Scooby-Doo. Com Monjardim não se vai apenas um dos maiores lordes das artes dramáticas deste país, com seu sorriso em flor generoso na defesa dos colegas e na formação de novos talentos. Com Monjardim se vai toda uma tradição da arte de dublar, em que invenção e o carisma no falar eram mais importantes do que a sincronia. Monjardim não contava loops (a medida de centimetragem de sua classe). Monjardim contava histórias. Graças a artistas como ele e Drummond, nossa “dobragem” tornou-se a melhor do mundo, seguida pela japonesa e pela italiana. Não por acaso, este blog começou com ele. Uma de nossas primeiras reportagens foi a participação dele no elenco de “Hotel Transilvânia 2”, em 2015. Quem cresceu vendo Looney Tunes nas manhãs na TV e passava as tardes vendo Scooby-Doo fugir de monstros, dividiu a infância (e parte da adolescência) com Monjardim, um titã da dublagem brasileira.
Voz de Salsicha (como já foi citado) e do Pernalonga no Brasil, além de ter como habitual “boneco” o ator Gene Wilder, de “A Dama de Vermelho” (1984), o ator capixaba, nascido em Vitória há oito décadas anos, dubla um dos personagens de maior destaque da animação dirigida por Genndy Tartakovsky: o rabugento Vovô Vlad. No original, o sanguessuga de boca banguela ganhou o gogó de um gênio do humor: Mel Brooks.
“Fico honrado de ter participado da dublagem desde sua formação. Estou nessa desde 1959. A profissão passou por várias dificuldades, técnicas inclusive. E foram os “radioatores”, os quais passavam toda a emoção com a voz, que deram grandeza à arte de dublar”, disse Monjardim ao P de Pop à epoca. “Fico triste com o fato de que, apesar de ter me colocado à disposição de meus colegas que dirigem, poucos me chamam para dublar. Tenho frustração com isso. Mas quando aparece algo no cinema ou na TV, isso me dá muito prazer”.

Transformado em ator de rádio em 1954, Mojardim dedicou cerca de 60 anos ao ofício de dublar, e fez história nesta seara por introduzir cacos tipicamente brasileiros no falar de seus personagens. “Ô, Diabo!” é o mais famoso deles. “Foi um prazer dublar o Mel Brooks em Hotel Transilvânia 2 não apenas porque sou um fã dele, mas porque eu tive liberdade de botar uns caquinhos. Não é bom fazer atuação linear, sem invenção”, explicou o ator ao Estadão.
Com passagens por novelas como “Rosinha do Sobrado” (1965) e programas de TV como os humorísticos “Os Trapalhões” e “Balança, Mas Não Cai”, Monjardim foi visto nos cinemas em uma participação no premiado drama “Feliz Natal” (2008), de Selton Mello, astro que, quando menino, dublou sob a direção de Monjardim nas bancadas dos Estúdios Herbert Richers.
“Criar me faz falta”, disse Monjardim.
Agora, você nos faz falta.

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