Mário Jorge, o ás na arte de ser ‘da pesada’

Mário Jorge, o ás na arte de ser ‘da pesada’

Rodrigo Fonseca

17 de março de 2021 | 12h34

Mário Jorge, aos 68 anos, é um dos pilares de excelência na dublagem nacional

RODRIGO FONSECA
Como ficou a boa dublagem de “Um Príncipe em Nova York 2” (“Comig 2 America”), em todos os aspectos técnicos e dramatúrgicos, sobretudo na versão brasileira de Akeem, o monarca de Zamunda, vivido por Eddie Murphy no apogeu de seu carisma. É um trabalho exemplar de Mário Jorge Andrade, carioca nascido em Madureira, há 68 anos, que, desde 1977, ensina ao Brasil o que é ter carisma e o que é atuar com inteligência usando apenas a voz. E que voz. Passa ano, entra ano, e ele só faz depurar o talento, consolidando uma obra particularíssima num meio hoje pontuado de divergências por conta das gravações remotas, não presenciais, para evitar o alastramento da covid-19. No início deste ano, Mário Jorge botou a Netflix no bolso ao dublar Johnny Lawrence (William Zabka) na terceira temporada de “Cobra Kai”. Sua ribalta agora é a Amazon Prime, que apostou no regresso de Akeem 33 anos de “O Príncipe em Nova York” original – de 1988. Agora, Akeem precisa voltar ao Queens, encontrar seu filho e encarar o general Izzy (papel em que Wesley Snipes deita e rola), ditador alucinado pra tomar o trono zamundense. Snipes ganhou o gogó de Márcio Simões.
Na entrevista a seguir, Mário Jorge conta ao Estadão o que há de mais “da pesada” em Murphy e avalia as crises da indústria da dublagem.

Qual é o maior desafio de dublar Eddie Murphy agora, na maturidade dele, depois de tantos anos de intimidade? Murphy ainda te impressiona? Como?
Acho que o Eddie Murphy não mudou absolutamente nada. Assim como eu, ele ficou bem mais velho, achei que ele ficaria mais lento, com a interpretação mais tranquila, mas não mudou absolutamente nada. Ele ainda é aquele louco de “Um Tira da Pesada”, é a mesma coisa. É impressionante como ele está muito bem fisicamente. Aliás, acho que também estou muito bem… dublando o Eddie Murphy desse jeito. Ele ainda me impressiona pela facilidade que tem de fazer personagens, modificando-se em todos eles muito bem. Ele é a pessoa mais difícil que dublei e dublo, mas adoro dublá-lo.
Você é um mito vivo da dublagem. Ainda há espaço para surpresas e aprendizados no teu meio? Qual foi a primeira vez que você se sentiu, numa dublagem, alcançando a excelência de seu trabalho, de sua arte?
Foi quando dublei “Um Tira da Pesada”, mas ainda tinha “Grease”, no qual dublei o John Travolta, que foi um grande trabalho meu, um dos primeiros grandes trabalhos. Foram os trabalhos que me iniciaram para me tornar o dublador que me tornei.

Como foi a experiência de dublar o Príncipe Akeem pelos meios remotos, digitais da dublagem?
Dublar o príncipe de casa foi uma coisa muito boa. Eu não me misturei, não aglomerei, não participei de nenhum tipo de aglomeração. Acho que você dublando no estúdio, continua tendo o problema de transmitir algo pra alguém ou pegar alguma coisa. Estou em casa há um ano e um mês já. Fiz um estúdio profissional em casa. Gastei uma grana, mas valeu. Acho que as pessoas deveriam continuar dublando de casa, pois estamos com uma média de 2 mil mortos por dia (pela covid) e a gente deveria manter o distanciamento. Enquanto eu não tomar a primeira e a segunda dose da vacina, não saio. E, ainda assim, vou esperar um tempo longo sem sair de casa.
Como vem sendo essa dinâmica?
A única coisa chata do trabalho remoto é que a gente foi meio que detonado. As pessoas que trabalham de casa, foram meio detonadas. A maioria dublou presencial. Eu devo te garantir que a minha quantidade de trabalho caiu mais de 70%, hoje ganho 70% menos que antes. Surpresa no meio sempre tem. A pandemia foi uma surpresa. Nunca pensei que fosse ser detonado como fui. Tem vários estúdios que nunca me escalaram, e outros escalaram porque o cliente exigiu. Essa talvez seja a maior surpresa para mim no meio da dublagem. Não tinha necessidade disso. É só olhar “Um Príncipe em Nova York 2” e “Cobra Kai”, que foi todo dublado da minha casa. Olha a qualidade. É só ouvir e ver que não tem diferença nenhuma. Pelo contrário, se tiver diferença é para melhor.
De que maneira o aumento dos streamings tem impactado na indústria da dublagem? O trabalho aumentou?
Para mim, com certeza, com o streaming, o trabalho aumentou. Mas com a pandemia, o trabalho caiu bastante para mim, porque trabalho de casa. Não tenho nenhum trabalho pela frente, nada programado. A única coisa programada era o “Um Príncipe em Nova York 2” que já está até no ar.

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