Mario Jorge, a versão Madureira de ‘Dolemite’

Mario Jorge, a versão Madureira de ‘Dolemite’

Rodrigo Fonseca

01 de novembro de 2019 | 10h22



RODRIGO FONSECA
Fala-se muito (e com razão) em indicações ao Oscar para Eddie Murphy por seu tocante desempenho em “Meu nome é Dolemite”, sucesso da hora na Netflix, que marca a volta por cima do astro de “Um tira da pesada” (1984) depois de uma década de vacas magras. Desde “Dreamgirls” (2006), pelo qual ganhou o Globo de Ouro, o ator nova-iorquino de 58 anos não fazia sucesso. Mas seria justo que seu Dolemite pudesse render prêmios também para um ator carioca que, há 42 anos, reescreve, diariamente, o senso poético por trás da arte de dublar: Mário Jorge Andrade. Há vozes que marcam a História da dublagem e há vozes que vão além, e redefinem a dimensão estética desse ofício de “dobrar” vozes em outras línguas, vertendo-as para a língua portuguesa. É o caso desse artista que, desde o fim dos anos 1970, adiciona uma marca de picardia – sabendo ainda tangenciar o trópico do trágico – no ato de emprestar brasilidade a atuações como a de Murphy. Quando “Os Rapazes da Banda” (1970), de William Friedkin, foi exibido na TV, na década de 1980, o jornalista Artur da Távola escreveu um apaixonado elogio sobre Jorge. Mas o Tempo – essa máquina de fazer monstros, como a desatenção nossa de cada dia – foi pouco generosa com um ATOR do porte dele, trazendo-lhe menos reverência do que o necessário, o que acabou sendo compensado com a legião de fãs que o cultuam… com razão. Só seu trabalho em desenhos, relembrado nessa entrevista aqui para o site “Omelete”, em 2017, já seria mais do que suficiente para lhe valer nosso “muito obrigado”. Disse ele:
Dublar animação dá uma relaxada, deixa a gente mais livre pra criar do que filmes com atores, no qual é preciso muita atenção ao que o ator faz“, contou Jorge, que foi a voz nacional do mago Gorpo (ou Orko), da série “He-Man”, e que, desde 2001, dubla o Burro Falante da franquia Shrek. “Na vida, a sorte deve estar atrelada ao talento. Eu dei sorte de ter pego um papel de protagonista assim que comecei a dublar, em julho de 1977, fazendo a voz de Larry Hangman, o JR da serie “Dallas”, em A Volta do Maior Detetive do Mundo. E dei sorte de ver todas as animações que fiz se tornarem sucessos. O Titio Avô, por exemplo, virou uma febre”.

Na entrevista a seguir, Jorge expressa ao P de Pop como é unir excelência e sabedoria a cada loop, com a maestria de alguém que torna o Cinema, a TV e, agora, o streaming lugares de beleza. Obrigado, Mario Jorge, por você existir.

O que mais chama atenção no modo de falar de Eddie Murphy e que desafio a interpretação dele impõe?
Mário Jorge Andrade:
O Eddie Murphy consegue passar uma malandragem que é bem carioca. Talvez por isso eu tenha ido tão bem em dublá-lo. Pelo fato de ser carioca, não ser malandro, mas de ter sido criado em Madureira. Eu peguei muito dessa malandragem dele, que é uma malandragem à carioca, e, talvez por isso, o público goste tanto da minha voz nele. Eu acho que é o melhor “personagem”… melhor “boneco”… que faço. Gosto muito de dublar o John Travolta, mas com o Eddie é mais Mário Jorge.
O que Dolemite traz como diferencial entre os “heróis” que Murphy encarna? E qual foi o primeiro dos personagens dele que você dublou?
Mário Jorge Andrade:
A dificuldade de dublar o Eddie é que ele é muito intenso e fala muito rápido. Essa rapidez com que ele fala os diálogos é o que torna o sincronismo e a interpretação muito difíceis. Com certeza ele é o personagem/ator mais difícil que eu dublo. Porém, cada filme do Eddie é uma jogada diferente. Se você olhar “O Professor Aloprado” e olhar “Meu Nome é Dolemite!”, ou então “Um Tira da Pesada”, todos os filmes têm as características do Eddie, mas ele vai vivendo coisas muito diferentes. Os personagens são heróis ou anti-heróis, mas todos, de uma maneira muito própria, são um pouco do Eddie. O “Meu Nome é Dolemite!” é mais um assim.

E a sua prática, de quatro décadas de dedicação à atuação, facilitou a dublagem dele?
Mário Jorge de Andrade:
Eu achei que, conforme eu fosse ficando mais velho, e ele também, dublar o Eddie Murphy iria se tornar mais fácil, mas eu estou percebendo que é o contrário. Dublar “Meu Nome é Dolemite!” foi barra pesada. Eu tinha acabado de fazer uma cirurgia e dublei com três ou quatro dias de operado. Percebi que ele está cada vez mais difícil. Nesse filme, ele consegue levar ao personagem um misto de cafonice e inocência, o que não deixa de ser uma forte crítica. Eu adoro dublar os filmes do Eddie e esse foi um desafio bem grande. Nunca falei tanto palavrão na minha vida. Foi um desafio muito grande em todos os sentidos para mim. O primeiro filme que eu fiz dele foi o primeiro “Um Tira da Pesada”. Os filmes do Eddie sempre trazem muita visibilidade. Os fãs sempre falam sobre o Burro Falante dos filmes do “Shrek”, falam sobre os filmes dele em geral. O Eddie Murphy traz muita visibilidade. Isso é muito bom para mim e para todos. Gosto muito de dublá-lo e ele me traz muita visibilidade. Esse novo filme com certeza vai trazer ainda mais, acho que ele pode concorrer ao Oscar.

O que esse espaço do streaming, vide a Netflix, trouxe como abertura de mercado pra dublagem? O que um filme como “Meu nome é Dolemite” dá de visibilidade para você?
Mário Jorge Andrade:
Essa abertura da Netflix realmente trouxe muito trabalho para os dubladores. Os filmes dublados passaram a ser mais respeitados. Uma coisa interessante da Netflix é que eles ouvem o público. Eu acabei dirigir a dublarem da série “The Crown”, na qual o público exigiu a redublagem porque ela tinha sido muito mal dublada. Por essa exigência, a empresa fez toda a redublagem da série. Eu acho que isso aumentou consideravelmente a qualidade da dublagem, já que o público ficou mais exigente.
Que novos trabalhos você tem pela frente na dublagem este ano e em 2020?
Mário Jorge Andrade:
Eu acabei de dirigir a dublagem de “The Crown”, fiz todas as escalações e dirigi todas as temporadas, a terceira foi dirigida por mim e pelo Felipe e pela Hana. Acabei de fazer “The Handmaid’s Tale”, uma séria maravilhosa e muito difícil. Fiz “O Mundo Sombrio de Sabrina”, estou fazendo a segunda temporada e a série está fazendo muito sucesso.
Como foi a sua trajetória na dublagem?
Mário Jorge Andrade:
Eu dublo desde agosto de 1977. Já tenho 42 anos de dublagem. Nasci no Rio de Janeiro, em Madureira, talvez por isso a minha jogada de cintura para fazer “Meu Nome é Dolemite!”. Aliás, eu, Hélio Ribeiro e Mauro Ramos nascemos em Madureira. Comecei fazendo cinema. Fui parar na dublagem muito depois, por uma indicação feita pelo Carlos Imperial para o Hebert Richers. Nunca tinha feito dublagem profissional, mas, fiz um teste, passei e estou fazendo isso até hoje. Meu tio era italiano e um tremendo diretor de cinema chamado Alberto Pieralisi (realizador da obra-prima “O 5º Poder”) e eu comecei fazendo cinema com ele. Fui assistente de direção dele, fazia continuidade e assistência de direção. Depois, fui assistente de direção do J. B. Tanko, fui assistente de direção do Carlos Manga e de vários outros diretores. Aí fui para a televisão e fiz um programa com o Boninho chamado “Clip Clip” e, logo depois, fiz “TV Colosso”. Estou com 67 anos, mas com carinha e corpinho de 80.

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências: