‘Marighella’ ganha o mundo… agora via Chile

‘Marighella’ ganha o mundo… agora via Chile

Rodrigo Fonseca

16 de agosto de 2019 | 11h20

Rodrigo Fonseca
Um dos mais prestigiados fóruns da identidade latino-americana nas telas, o Santiago Festival Internacional de Cine (Sanfic), no Chile, escolheu o baiano Wagner Moura para ganhar um tributo em sua edição deste ano, que começa neste domingo e vai até o dia 25, não só por sua excelência como ator, mas também por sua aposta no risco, ao estrear como realizador, filmando o legado do guerrilheiro Carlos Marighella (1911-1969). Prestes a ser visto nas telas do Lido, no Festival de Veneza (28 de agosto a 7 de setembro), na briga pelo Leão de Ouro, como parte do elenco de “Wasp Network” (produção de Rodrigo Teixeira dirigida pelo francês Olivier Assayas), Moura vai ter sucessos como “Tropa de elite” – o I, de 2007, e o II, de 2010 – e “O homem do futuro”, de 2011, exibidos em telas chilenas. “Vai ser uma festa muito linda e estamos muito satisfeitos com a programação que temos neste ano”, disse à imprensa o diretor artístico do Sanfic, Carlos Núñez, que homenageará o ator mexicano Gael García Bernal (também escalado por lá em sua porção cineasta, para exibir o drama “Chicuarotes”, que dirigiu este ano), e a atriz argentina Graciela Borges, que será parte do júri desta edição. Mas a expectativa maior é por “Marighella”, que vai ser projetado no dia 24. Mas a seleção da competição internacional do Sanfic é forte: “Amanda”, Mikhaël Hers (França); “Cancion sin Nombre”, Melina León (Peru); “The Man of the Future”, Felipe Ríos (Chile, Argentina); “God of the Piano”, Itay Tal (Israel); “Los Miembros de la Familia,” Mateo Bendesky (Argentina); “The Sharks,” Lucía Garibaldi (Uruguai, Argentina); “Monos,” Alejandro Landes (Colômbia, Argentina, Uruguai); “System Crasher,” Nora Fingscheidt (Alemanha); e “The Third Wife,” Ash Mayfair (Vietnã).

Seu Jorge e Adriana Esteves vivem um casal separado pela violência da ditadura militar em “Marighella

Ainda inédita no Brasil, “Marighella” detonou debates de ordem política na Berlinale, em fevereiro, onde fez sua estreia, fora de concurso. Trata-se de um estandarte de controvérsia, pela coragem de apostar na dialética ao apontar a luz e as trevas da direita e da esquerda. Mas é também um estandarte de virtuosismo, por seu ritmo narrativo feérico. A trama foi escrita pelo ator e por Felipe Braga. Nela, o poeta, deputado e militante baiano vivido por Seu Jorge confronta a esquerda com uma discussão sobre a importância estratégica da luta armada. Acaba expulso do partido em que milita por sua aposta em um contra-ataque com tiros e bombas. Seus feitos levam Lúcio (Bruno Gagliasso, inspiradíssimo numa atuação enraivecida, mas com alguma fragilidade afetiva) a ampliar o cerco, vigiando o filho de Marighella, Carlinhos, um menino.

“Estou preparado para ser atacado por todos os lados por este filme, no qual a relação pai e filho é fundamental para mostrar que estamos diante de uma história de sacrifício. Há 50 anos, o Estado matou um homem negro num carro, que lutava pela liberdade. E 50 anos depois da morte desse homem, chamado Carlos Marighella, mataram, também em um carro, uma mulher negra que tinha a mesma luta, a vereadora Marielle Franco. Vivemos sob uma batalha de narrativas, até hoje”, disse Wagner na Berlinale, para onde levou uma placa com o nome da vereadora para a projeção hors-concours do longa-metragem. “O trabalho com a montagem e a direção de fotografia foi um trabalho no qual eu fui conduzido pelo editor Lucas Gonzaga e pelo fotógrafo Adrian Teijido, dois caras muito experientes. Nós três fizermos ‘A busca’ juntos, antes, em 2012. Era nossa proposta que ‘Marighella’ nunca parecesse um filme de época, e, sim, algo vivo. O Brasil que eu olhei foi o de 1964, debaixo da ditadura militar, preocupado com o máximo de fidelidade possível, na direção de arte e na maneira como os atores se comportavam. Tivemos uma assessoria de guerrilheiros, que foram conversar com a gente”.

Controverso em sua coragem de ser dialético, humanizando tanto a esquerda quanto a direita, “Marighella” impressionou os críticos pela potência de sua representação da violência, como um filme de ação de arrancar respeito de Vin Diesel, ainda que feito sob a inspiração de uma linguagem à europeia. “Eu usei como referência para a equipe e o elenco que deveria ser um filme de ação à moda dos irmãos Dardenne”, disse Wagner, referindo-se à estética hiper-realista de Jean-Pierre e Luc Dardenne, diretores belgas ganhadores de duas Palmas de Ouro em Cannes, com “Rosetta” (1999) e “A criança” (2005). “Neste nosso momento, a palavra resistência, que Marighella representa, faz muito sentido. Nossa intenção era refletir o mais fidedignamente as contradições do Brasil de hoje. Há uma semelhança da realidade que a gente mostra com o Brasil de hoje, mas não é uma resposta a Bolsonaro. São semelhanças históricas, de um Estado que encarcera e mata, sobretudo negros”.

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