Maria Ribeiro e a serena estética do resistir

Maria Ribeiro e a serena estética do resistir

Rodrigo Fonseca

24 de outubro de 2019 | 10h59


RODRIGO FONSECA
Lucidez e entrega, daquela das mais generosas, formam a Estrela de Belém que ilumina os 80 minutos de depoimentos preciosos de “Outubro”, um ato de imolação afetiva compreendido entre um beijo apaixonado e um dedilhar de violão… no caso, o de Gilberto Gil, o que não é qualquer violão, nem qualquer dedilhar. Talvez porque nada seja “qualquer” no documentário dirigido por Maria Ribeiro e Loiro Cunha, com sessão nesta sexta-feira, às 21h45, no Espaço Itaú da Frei Caneca – para desopilar fígados cirróticos de frustração política -, na Mostra de São Paulo. Não faz diferença a orientação de voto, seja de direita, seja esquerda, seja nula – vale respeito a tudo, ok? -, para o exercício de troca desta produção que, antes de tudo, é uma carta de amor ao Tempo. Aliás, isso é tudo o que Maria faz como realizadora. Existe neste .doc um garimpo de ideias riquíssimas, escavado a partir do tradicional formato de entrevista, exercitado aqui com uma despretensão que dessacraliza códigos e cânones, respeitando uma linha retórica de inquietação. Mas uma retórica que aceita dialéticas na busca por entender o que foram os sete dias que antecederam a eleição presidencial de segundo turno no Brasil de 2018. Maria vai às ruas para ouvir e deixar falar, tensionando, vez ou outra, a musculatura da invenção numa trança com a encenação, ao estabelecer uma analogia entre o sentimento do trágico (pelo medo diante dos ventos mais conservadores que viriam) e o fim do casamento.

Vestir-se como noiva é essa interseção. O vestido nupcial usado por Maria – que deu ao nosso cinema uma atuação seminal em “Como Nossos Pais”, de 2017 – se reporta a um desfecho de romance, um fim algo pessoal e algo universal, algo dela e algo de todos nós, que aprendemos, na lida do dia a dia, uma velha lição do dramaturgo Jean Anouilh: “Existe o amor, é claro; e existe a vida, sua inimiga”. Em um rasga-coração, Maria nos leva a instâncias de sua biografia e até da biografia de amigas ou colegas de arte, mas sempre com discrição, com uma elegância que diluiu todo o fel de uma geração de artistas que se viu avassalado pelo trator da História… um trator sem pás ideológicas, mas cheio de pás revanchistas, de todos os lados.

Em 2003, no mesmo ano em que sua brilhante atuação em “Separações” entrou em circuito exibidor, Maria foi dirigir, e rodou um curta que se fantasiava de “fofo” para disfarçar a dor que comportava: “Vinte e cinco”, exibido em Gramado sob elogios e aplausos. Era um balanço do verbo “viver” na marca de um quarto de século, com todo o alumbramento que a década de 1990 permitiu. Na sequência, vieram longas. Um falava sobre seu mestre (e de outros tantos), Domingos Oliveira (o analgésico “Domingos”, de 2011), e o outro falava sobre uma banda que deu voz ao nosso Mal do Século (“Los Hermanos: Esse É o Só o Começo do Fim da Nossa Vida”, de 2015). Todos são registros memorialísticos, misturados a uma narrativa de retrato e a jogos de amarelinha entre “registrar” e “encenar”. O que ela e Loiro fazem em “Outubro” é parecido: é uma polaroide da vivência de um momento de uma época de truculências e lacrações, buscando o foco da leveza, uma leveza que, por vezes, pode arranhar a passionalidade, como se vê no papo entre o ator Julio Andrade e uma senhora nas ruas, durante uma campanha de conscientização de voto. Julio diz, com uma meiguice que se equilibra no arame farpado do assombro: “A vida não é o que está aí no celular. A vida é o que está aqui, na rua, no olho no olho”.

Amanteigado por uma edição que valoriza o embate, mas resguarda a serenidade, assinada na Doriana do equilíbrio por Laís Lifschitz, “Outubro” faz essa conexão entre paixão e placidez, entre jira e oferenda, sem jamais arranhar a resignação, também nos depoimentos, extraindo balanços e balancetes sobre métodos de se sobreviver no Brasil, com a psicanalista Maria Rita Kehl, a roteirista e escritora Antonia Pellegrino, a atriz e cineasta Leandra Leal, o escritor Marcelo Rubens Paiva (cujo relato abre a bica de nossas lágrimas), o zé-pereira das letras Xico Sá, a atriz Martha Nowill, o já citado Gil. Como o filme se estabelece, historicamente, em dias de cabo de guerra entre Fernando Haddad e Jair Bolsonaro, Maria e Loiro vão catar vozes que estão no front do Poder, em prol de um projeto democrático de Brasil, como Manuela D’Ávila, Marcelo Freixo, Guilherme Boulos. Deles fica uma percepção de respeito pela diferença, seja ela qual for, mas um certo azedume diante do fantasma de potenciais cataclismos que desfavoreçam a noção de cidadania, em nome da intolerância. Mas a dupla de realizadores não se furta a deixar que todos os que falem critiquem deslizes de governos anteriores, quebrando mitos. O que torna “Outubro” um documentário essencial é menos uma residual militância em sua medula e mais a sua (engenhosa) estrutura de roda de conversa, em volta da fogueira da esperança… a esperança de que o entendimento ainda é o melhor caminho. E, como dizia uma peça de Luiz Fernando Lobo, “Companheiros”, de 1999: “A esperança é um vício”. “Outubro” é, portanto, um passo de maturidade de Maria como direção. E será um passo de maturidade para quem souber ouvir o que ela e Loiro deixaram parte do Brasil dizer. É bonito de ver.

Tem repeteco de “Outubro” neste sábado, às 15h10, no Espaço Itaú, e na terça, às 16h20, no Reserva Cultural. Perde não. A 43ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo termina no dia 30. Semana que vem tem “O farol” (“The Lighthouse”), de Robert Eggers, o ganhador do Prêmio da Crítica (dado pela Federação Internacional de Imprensa Cinematográfica – Fipresci) em Cannes, no Auditório do Ibirapuera: é dia 29, às 19h30. Filmão.

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