Maria Augusta Ramos na Real_Virtual

Maria Augusta Ramos na Real_Virtual

Rodrigo Fonseca

21 de julho de 2020 | 12h36

RODRIGO FONSECA
Consagrada mundialmente com “O Processo”, laureado na Berlinale de 2018, Maria Augusta Ramos inaugurou na noite de segunda o que promete ser um dos maios fóruns da estética documental das Américas em 2020: o seminário online Na Real_Vitual. Sucesso de audiência na web, o simpósio organizado pelo crítico Carlos Alberto Mattos e pelo cineasta Bebeto Abrantes abiu os trabalhos conversando sobre a carreira da realizadora de “Juízo” (2007) e “Justiça” (2004), tendo como eixo seu método de documentar. Ela acaba de lançar “Não Toque em Meu Companheiro”, recém-lançado no NetNow, Oi Play, Vivo Play, FilmeFilme e Looke. Seu foco: a luta do sindicalismo brasileiro quando os trabalhadores da Caixa Econômica Federal se mobilizaram pela reintegração de 110 colegas demitidos injustamente após uma greve da categoria. A cineasta é hoje uma grife de excelência na seara da representação e da apreensão do Real.
Escuta e observação precisa se traduzir em imagem e som. Por exemplo, você filmar em um determinado momento, uma determinada situação em que a câmera se movimenta o tempo todo, a sua percepção de tempo é completamente diferente do que se essa câmera estivesse em um espaço aberto ou se tivesse escolhido um determinado quadro, um espaço dentro dessa realidade, ali, e se concentrasse nela. A gente não consegue ouvir tudo. E é por isso que eu falo de escolhas: a gente precisa fazê-las e acreditar que ali vai acontecer alguma coisa. Vou ficar cinco minutos olhando para aquilo porque irá me surpreender. (…) Quando a gente está filmando a percepção do tempo é nula. Eu preciso contar para saber que realmente tenho aquele plano e que coisas vão acontecer. Não só… você dá chances de as coisas acontecerem, ou seja, aguardar o inesperado. Na edição, vou precisar disso”, disse a cineasta, que hoje é uma grife internacional de excelência, em seu bate-papo com Mattos e Abrantes.

Agendado até 14 de agosto, às segundas, quartas e sextas, o Na Real_Vitual vai mobilizar os documentaristas Belisario Franca, Cao Guimarães, Carlos Nader, Emilio Domingos, Gabriel Mascaro, João Moreira Salles, Joel Pizzini, Marcelo Gomes, Maria Augusta Ramos, Petra Costa, Rodrigo Siqueira e Walter Carvalho. Para conhecer a joia teórica o que Mattos e Bebeto lapidaram, basta acessar https://imaginariodigital.org.br/real-virtual/2020. Cada longa que ancora o Na Real_Virtual aborda uma vertente distinta da linguagem documental em voga hoje no Brasil. Os debates passam tanto pela experimentação plástica a partir do registro de um ator em ensaios (“Iran”, de Walter Carvalho) até uma investigação sobre laços afetivos e ausência no âmbito familiar (o cult “Elena”, de Petra Costa). No longa Seca” (2015), Maria Augusta fala da escassez de água, observada em uma região do Brasil onde a população convive com o problema de forma aparentemente endêmica. Mas esse seu “falar” assume como poética uma estrutura observacional que desafia retóricas institucionais. “Existe um processo de confiança que vai se desenvolvendo, meu e da equipe com a pessoa que está participando do filme. No início, pode se sentir pouco à vontade mas, depois, vira quase que uma pessoa da família. É um processo de amizade e de troca, a pessoa não se sente invadida. Essa confiança é importante, está se desenvolvendo um grande fio. É algo que a gente vai desenvolvendo com o personagem”, disse a diretora durante o papo. “Quando as pessoas assistem “Justiça”, elas têm uma noção da minha proposta de cinema e da minha visão de mundo, isso já me faz ficar mais calma. Eu fui absolutamente honesta, retratei o funcionamento do sistema jurídico e penal. Como eu iria fazer, não teria entrevista e iria acompanhar alguns processos e gostaria de retratar todos eles”.

O que dizer de “O Processo”, que consagrou a realizadora na Berlinale e foi muitas vezes citado no Na Real_Virtual:
Uma das formas mais simples para se saber mais (e melhor) sobre o que sobrou do Brasil depois que única presidenta eleita por voto popular de nosso país foi alvo de um caça às bruxas é embarcar, com a dialética debaixo do braço, no trem-bala chamado “O processo”: a passagem você compra num cinema perto de você. A diversão só não é garantida por ser um filme de alumbramentos e assombros, marcado por um dos trabalhos de montagem mais criativos de nossa história audiovisual – mérito de Karen Ackerman. Foi ela quem editou as quase 400 horas de material filmado por Marias Augusta Ramos ao acompanhar os bastidores do impeachment.
Existem filmes de guerrilha ligados ao torvelinho da História de seus países que entraram para a posteridade do cinema pela acuidade e pela urgência com que registraram e reagiram a conflitos de suas terras, como é o caso de “A Batalha de Argel” (1966), “Z” (1969), de Costa-Gavras, e “Crônica dos Anos de Fogo” (1975). Recebido com loas e prêmios na Europa, “O processo” se candidata a entrar nesse grupo. Com uma agilidade de dar taquicardia, o filme de Maria Augusta é o atestado de óbito da democracia brasileira – ainda que ressurreições possam acontecer nas próximas eleições. Sua narrativa foi erguida a partir dos julgamentos de Dilma, revisados como se fosse um teatro de dissimulações. Longas seminais sobre o Direito neste país, “Justiça” (2004) e “Juízo” (2007) consagraram a estética de Maria Augusta: não importa qual seja o tema e o objeto que o traduza, ela vai partir dele para flagrar a natureza encenadora (e retórica) do ser humano num embate de ideias. Alguém sempre está representando, consciente ou não da câmera ligada, em um jogo semântico de argumentações com seu próximo. Isso vale para menores infratores, para corretores da Bolsa de Valores de SP ou para Aécio Neves. Essas encenações se desvelam diante das lentes da diretora, como evidências da sociedade do espetáculo (aquela sobre a qual o filósofo Guy Debord escrevia), num teatro de guerra. E cada instituição tem a Antígona que merece: o Congresso tem uma tragédia grega, de aparentes mocinhos (Lindbergh Farias, Jean Wyllys), de potenciais vilões (como Bolsonaro, Eduardo Cunha, Janaína Paschoal) e de Tirésias (Lula), reescrita à luz de Kafka.
Na edição, acertos e erros de ambos os lados do Poder (sobretudo do PT) vão sendo revelados a cada depoimento como se fossem viradas num roteiro de novela. Na tela, pessoas de carne, osso e cargo político teatralizam seus ritos num tribunal onde as utopias que nos restaram sentam no banco dos réus. É um espetáculo triste. Mas merece um grito de “Bravo!” e nossa atenção nas salas de cinema.

O cardápio do Na Real-Virtual para os próximos dias contempla as seguintes questões, filmes e diretores:
Dia 22/7 – A imagem questionada – João Moreira Salles. Filme: No Intenso Agora
Dia 24/7 – A poética do simples – Cao Guimarães. Filme: A Alma do Osso
Dia 27/7 – O tempo como matéria – Carlos Nader. Filme: Homem Comum
Dia 29/7 – O eu filmado e minha família – Petra Costa. Filme: Elena
Dia 31/7 – Retratos de artistas – Walter Carvalho. Filme: Iran
Dia 3/8 – Nos baús da História – Belisario Franca. Filme: Menino 23: Infâncias Perdidas no Brasil
Dia 5/8 – O filme-ensaio – Joel Pizzini. Filme: 500 Almas
Dia 7/8 – Estratégias narrativas – Gabriel Mascaro. Filme: Doméstica
Dia 10/8 – Por um cinema híbrido – Rodrigo Siqueira. Filme: Orestes
Dia 12/8 – Quando o real vira ficção – Marcelo Gomes. Filme: Viajo porque Preciso, Volto porque te Amo
Dia 14/8 – A periferia no centro – Emílio Domingos. Filme: Favela é Moda

Em 2019, Mattos encabeçou a Ocupação Eduardo Coutinho, em SP, e lançou um livro seminal sobre estratégias de documentar, dedicado à obra e à vida do realizador de “Edifício Master” (2002). Sua pesquisa sobre Coutinho é primorosa e seu texto, uma aula de concisão e de argumentação, sem esturricar palavras nem se besuntar em advérbios. Já Bebeto – atualmente envolvido no projeto documental “Me Cuidem-se”, com Cavi Borges – tem no currículo poemas em forma de filme como “Caminho do Mar” (2018).

Maria Augusta Ramos

p.s.: Laureado com os Oscars de melhor montagem, mixagem de som e ator coadjuvante, para J.K. Simmons, “Whiplash: Em Busca da Perfeição”, lançado em Cannes em 2014, vai ser exibido esta madrugada na Globo, às 2h10. Damien Chazelle despontou para o estrelato, como diretor, ao pilotar o drama (narrado com ritmo de thriller) de um percussionista em formação (Miles Teller) que encara um professor abusivo, vivido por um Simmons em estado de graça. Quem faz a voz de J.K. na versão brasileira é uma lenda da dublagem: Antônio Moreno.

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