Margot Robbie, a arlequina da História, ilumina regresso de Tarantino às telas

Margot Robbie, a arlequina da História, ilumina regresso de Tarantino às telas

Rodrigo Fonseca

22 de maio de 2019 | 10h52

Rodrigo Fonseca
Celebrizada nos cinemas como a Arlequina de “Esquadrão Suicida” (2016) e indicada ao Oscar por sua memorável atuação em “Eu, Tonya” (2017), a australiana Margot Robbie fez jus a seu star power em Cannes ao dar à 72ª edição do festival francês, iniciada no dia 14, sua mais vívida representação da força feminina, até agora, no elenco de “Era uma vez em Hollywood” (“Once upon a time… in Hollywood”). Quentin Tarantino deu a ela um papel real: Sharon Tate, a modelo e atriz que, grávida do diretor Roman Polanski, em 1969, foi assassinada por uma seita liderada pelo maníaco Charles Manson.

“Foi um filme em que tive mais tempo com questões internas da personagem, com ações que eu poderia fazer sem falar. É um filme sobre a morte da inocência”, disse a estrela de 28 anos a uma multidão de repórteres que tentava interpelar Tarantino das formas mais agressivas, em uma reação ao painel histórico, cheio de liberdades poéticas, feita por ele, com uma ajuda de Brad Pitt e Leonardo DiCaprio.

“Quanto mais concreta uma realidade histórica, mais obscura ela fica”, definiu o cineasta em Cannes, onde conquistou a Palma de Ouro, em 1994, com “Pulp Fiction – Tempo de violência”, e onde (e deve, mais do que ninguém) ser laureado de novo.

Até o momento, o melhor prêmio de Melhor Atriz seria para Margot, pela maneira etérea como sua atuação dá uma síntese da História. “Eu fiz pesquisa, li muito sobre os fatos em torno de Sharon, mas fui buscar minha própria visão”, disse a atriz.

Em sua passagem no Brasil, em 2015, quando ainda não havia esboçado “Era uma vez em Hollwyood”, por estar ocupado com “Os oito odiados”, Tarantino anunciou que só dirigiria mais dois longas-metragens. “Quero para quando chegar a dez, pois é um número marcante e eu não terei mais o que dizer com tanta qualidade, disse ele em SP. Agora, sua radiografia da América a partir da morte de Sharon é a nona de suas produções e já há uma negociação para ele desenvolver um “Jornada nas estrelas”. Mas este novo filme anda inflamando a Croisette. “Eu era um jovem de 20 e poucos anos, financeiramente quebrado, que começava a carreira do filme por Sundance. Naquela época, quando você fazia um filme independente, era necessário embarcar num circuito de festivais, o que durava um ano. Era uma maratona de um ano excursionando por diferentes festivais. E, viajando de mostra em mostra, aceitando participar de debates, eu acabei me tornando popular. Quando a Miramax, minha distribuidora na ocasião, foi vender Pulp Fiction, meu segundo longa, ela se deu conta de que todo mundo queria ‘o novo filme de Tarantino’ e isso porque os festivais me fizeram popular”, disse Tarantino. “Ali, eu percebi que não faço filmes para o mercado americano. Embora eles sejam falados em inglês e se passem nos EUA, eles falam pro mundo. Faço filmes pro planeta”.

Este novo longa desafia todas as convenções estéticas da dramaturgia, dando um nó na lógica dos roteiros americanos. Parte do longa-metragem – que estreia nos EUA no fim de julho e chega ao Brasil no dia 15 de agosto – se concentra nas angústias do ator de TV em decadência vivido por DiCaprio. Há partes que se debruçam sobre seu fiel amigo, um dublê vivido por Brad Pitt. E há trechos que romanceiam a vida de Margot e torcem fatos reais em nome de uma escolha fantástica do diretor.

“Por favor, mantenham em sigilo os detalhes da trama que revelem muito aos espectadores que não estão aqui, para que eles possam ter o mesmo prazer e frescor de descoberta que vocês terão hoje”, escreveu Tarantino em um comunicado lido no palco do Palais por Henri Behar, crítico, tradutor e moderador das coletivas do festival.

“Eu fiz homenagens a figuras como diretor italiano Sergio Corbucci, que rodou ‘Django’, não só pela popularidade de seus filmes, mas pela qualidade deles”, disse Tarantino ao P de Pop.

Al Pacino tem uma participação memorável em “Era uma vez em Hollywood” e já se candidata ao Oscar no papel de um agente que oferece a DiCaprio uma chance de reinventar sua vida filmando westerns na Itália. Como de costume, o diretor investe numa trilha sonora requintada, propondo uma homenagem ao passado das séries de TV e a diretores e atores míticos como o cineasta Sergio Corbucci e o galã Ron Ely, o Tarzan dos anos 1960. Passados 25 anos da vitória de “Pulp fiction – Tempo de violência” na Croisette, que conquistou a Palma dourada em 1994, Tarantino pode ser laureado de novo. E fala-se numa láurea dupla para Pitt e DiCaprio.

Além de “Era uma vez em Hollywood”, a disputa de Cannes conferiu nesta terça a divertida comédia com toques de brutalidade “Parasite”, do cultuado diretor sul-coreano Bong Joon Ho (“O hospedeiro”), que evoca muito o ganhador da Palma dourada e 2018, o japonês “Assunto de família”, só que numa versão torta. No longa nipônico um clã de ladrões criava um vínculo afetivo mesmo praticando atos escusos. No longa de Bong, há também um clã que sobrevive de trambiques. A diferença é que não existem bons sentimentos neles, sobretudo quando se infiltram na vida de um casal rico, tendo que enfrentar a governanta deles. Situações dignas do programa “Os Trapalhões” (1977-1993) se desenrolam na tela, até que o longa descamba para situações violentas, numa espécie de saldo moral. Bong Joon Ho é uma pedida obrigatória para a láurea de melhor roteiro com sua reflexão sobre patifaria.

https://www.youtube.com/watch?v=W4qcg3EUQuk

Nesta quinta-feira, nove dias depois da consagradora sessão de “Bacurau”, filme dos diretores pernambucanos Juliano Dornelles e Kleber Mendonça Filho, a competição pela Palma de Ouro recebe mais um filme com DNA brasileiro: “Il traditore”, produção Brasil-Itália, dos irmãos Caio e Fabiano Gullane de SP, com o cineasta Marco Bellocchio. Ele é um mito da estética politizada do cinema italiano dos anos 1960, consagrado com “De punhos cerrados” (1965). Chamado de “O traidor” no Brasil, o novo Bellocchio sintetiza horas e horas de material rodado no Rio de Janeiro. Elas recriam a atmosfera de transformação política da cidade, no início dos anos 1980 (ainda em dias de ditadura), quando o mafioso Tommaso Buscetta (1928-2000) fez o Brasil de lar, no abraço sempre caloroso de sua mulher, a carioca Maria Cristina de Almeida Guimarães. Uma das sequências, rodadas numa clínica em Botafogo, pelo realizador de 79 anos, recria um consultório romano. Nele, acontece uma visita do gângster (vivido pelo ator Pierfrancesco Favino) a um cirurgião que operou seu rosto (papel de Nicola Siri). Maria Fernanda Cândido, Luciano Quirino e Jonas Bloch integram o elenco.

Até o momento, Pedro Almodóvar continua sendo encarado como o favorito à Palma, tendo Tarantino e “A hidden life”, de Terence Malick, como seus mais rivais. Duas mulheres são tidas como apostas quentes para o prêmio de direção, ambas francesa: Mati Diop, por “Atlantique”, e Céline Sciamma, por “Portrait de um jeune fille em feu”. Mais elogiados dos títulos da mostra paralela Un Certain Regard, o drama “A vida invisível de Eurídice Gusmão”, do cearense Karim Aïnouz, deve (e merece) sair de Cannes premiado por sua excelência narrativa, sendo que Fernanda Montenegro pode ser laureada por sua comovente participação. É um retrato do Rio dos anos 1950, a partir da relação entre duas irmãs (Carol Duarte e Júlia Stockler) que se amam.

Cannes chega ao fim neste sábado, com a entrega de prêmios da seleção oficial e a projeção da comédia motivacional “Hors norme”, de Éric Toledano e Olivier Nakache, mesma dupla do fenômeno “Intocáveis” (2011). Nesta sexta serão entregues os troféus da seção Un Certain Regard, que tem “A vida invisível de Eurídice Gusmão”, rodado no Rio por Karim Aïnouz, como seu principal concorrentes, tendo sido elogiado nas mais diversas línguas. Estima-se que a atriz Fernanda Montenegro, um dos destaques do elenco de Karim, possa sair premiada na Croisette, 21 anos depois da consagração mundial de “Central do Brasil”.