Marcos Prado inflama Berlim com doc sobre brasileiro morto na Indonésia

Marcos Prado inflama Berlim com doc sobre brasileiro morto na Indonésia

Rodrigo Fonseca

12 de fevereiro de 2016 | 14h48

Curumim, de Marcos Prado, registra os últimos momentos de vida do brasileiro Marco Archer, fuzilado na Indonésia em 2015 por tráfico de drogas

Curumim, de Marcos Prado, registra os últimos momentos de vida do brasileiro Marco Archer, fuzilado na Indonésia em 2015 por tráfico de drogas

 

Primeiro dos quatro longas brasileiros selecionados pelo 66 Festival de Berlim, Curumim, de Marcos Prado, foi pojetado na tarde desta sexta em um cinema abarrotado, que engolia seco a cada passo de sua narrativa sobre os derradeiros momentos na vida de Marcos Archer, brasileiro morto na Indonésia em janeiro de 2015. Aplaudido por uma multidao que cercou o cineasta no fim para matar suas curiosidades, o projeto nasceu em 2007, quando o cineasta e produtor de Tropa de Elite foi procurado por Archer. Este passou mais de uma decada encarcerado por traficar drogas.

“Meu maior desafio neste projeto era como conseguir humanizar a figuar do Marco, que nao fazia reflexoes filosoficas e nao se abria”, diz Prado. “Nao eramos amigos proximos, mas a gente se conhecia de antes de ele ser preso, de praia e de festas, nessa aproximaçao dele com o surfe, com asa delta, esporte. Foi um amigo comum que aproximou a gente. E eu me senti muito mal com a morte dele. Sei que ele deveria pagar pelo crime que cometeu. Mas é uma injustiça que esse pagamento seja feito com sua vida. A pena de morte é uma barbarie”.

Respeitado como sendo um cineasta de rigor formal na pesquisa das potencias da imagem desde Estamira (2004), Prado caminha em Curumim por um outro terreno documental. Nao é cinema do esplendor da forma; eh sim um experimento de investigaçao e denuncia, com um dispositivo que evoca o classico Cabra Marcado para Morrer, de Eduardo Coutinho, em seu processo de filmar sobre o arame farpado do tragico. Sabe-se o destino do personagem, mas, mesmo assim, o cineasta cria suspense acerca do que foi feito dele, sobretudo nas cenas nas quais relembra sua tentativa de fuga, antes de ser preso. O filme tem vértebras de thriller, mas sua adrenalina nao dilui seu potencial de filosofia ao pensar na amargura da espera pela Morte e no abandono dos condenados.

Ainda nesta sexta, Berlim recebe Anna Muylaert e seu mais recente trabalho, Mãe Só Há Uma, no mesmo Panorama que acolheu Prado e que, neste sabado, recebe Antes o Tempo Não Acabava, de Sérgio Andrade e Fábio Baldo, com foco na ciranda de descobertas afetivas de um jovem indígena em Manaus. Segunda é a vez de o Forum exibir Muito Romântico, um projeto gestado ao longo de uma década por Melissa Dullius e Gustavo Jahn.

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