Márcio Blanco na engenharia do Real

Márcio Blanco na engenharia do Real

Rodrigo Fonseca

04 de novembro de 2020 | 14h30

Márcio Blanco produz o seminário Na Real_Virtual

RODRIGO FONSECA
É hora de cair na realidade, de novo, e online… uma vez mais… graças ao projeto em forma de seminário que Carlos Alberto Mattos (um dos papas da crítica no país) e Bebeto Abrantes (diretor e roteirista de respeito) organizaram numa troca de ideias e de esforços com o produtor Márcio Blanco. Nesta quarta o Na Real_Virtual – um simpósio da arte de documentar que mobilizou a web de julho a agosto – vai reabrir sua URL para agitar papos sobre filmar e pensar o Brasil.

A trupe de talentos convidados para as conversas será composta por Adirley Queirós, Alberto Alvares Guarani, Ana Luiza Azevedo, Claudia Priscilla, Eryk Rocha, Evaldo Mocarzel, Joel Zito Araújo, Jorge Furtado, Kiko Goifman, Lúcia Murat, Roberto Berliner, Sandra Werneck, Silvio Da-Rin, Susanna Lira, Vincent Carelli e Walter Salles. E Eduardo Coutinho (1933-2014) vai ser o astrolábio a guiar a navegação investigativa da conversa inicial, hoje à noite, neste 4 de novembro. O legado do documentarista por trás de “Jogo de Cena” (2007) vai ser analisada em papos com o seu rol de colaboradores mais frequentes: Beth Formaggini, Carlos Nader, Consuelo Lins, Cristiana Grumbach, Jacques Cheuiche, o já citado João Moreira Salles, Jordana Berg, Laura Liuzzi e Valéria Ferro.
Para ficar por dentro dos colóquios, basta acessar o link
https://imaginariodigital.org.br/real-virtual/parte-2. Para explicar o que está por vir nas próximas quatro semanas, Blanco – um pesquisador, Doutor em Comunicação pela Uerj e organizador do festival Visões Periféricas – fala aqui, ao P de Pop, sobre como é produzir o Na Real_Virtual, por meio de sua Imaginário Digital.

O que o Na Real_Virtual mais mobilizou de informação e de troca em sua primeira edição e o que o coletivo de autores desta segunda fornada traz de mais surpreendente? Que desenho os curadores parecem ter traçado?
Márcio Blanco:
O grande feito da Parte 1 do Na Real_Virtual foi ter reunido um time expressivo de documentaristas brasileiros para conversar sobre suas estratégias de abordagem dos temas em seus filmes. Olhar para o documentário a partir desse prisma não é muito comum pois o formato ainda é muito vinculado a um “retrato da realidade”, algo que tem a ver com a sua própria história.
A certa altura do século passado, se delimitou uma fronteira nítida entre ficção e documentário que colocou o primeiro em um terreno do entretenimento e delegou ao documentário uma função social e educativa, com forte compromisso com a verdade. Algumas escolas de documentário que surgiram no pós-guerra reivindicavam pra si esse estatuto, não sendo poucos os debates acerca da melhor forma de se alcançar esse estatuto. Depois de quase cem anos de lançamento daquele que é considerado pelos historiadores o primeiro filme documental – “Nanook of the North” (1922), de Robert Flaherty – o formato experimentou tantas formas de abordagem do real que hoje fica difícil falar em uma forma privilegiada. O Na Real_Virtual Parte 1 soube trazer isso para o foco e explorar essa diversidade, reunindo, em um só evento, algumas das principais estratégias de abordagem do real no tocante ao documentário brasileiro das últimas duas décadas. Fazia falta dar essa olhada retrospectiva, ainda mais em um momento em que a tecnologia está transformando fortemente a forma de produzir e consumir audiovisual.
Esse já seria um grande mérito do evento mas o fato de a Parte 1 ter sido feita inteiramente de forma virtual, em meio à uma enorme crise sanitária que obrigou a todos ficarem em suas casas, também contou muito para transformar o Na Real_Virtual em um marco. Estávamos todos, equipe, diretores e público conectados virtualmente, falando desde suas casas. Todos vulneráveis por estarmos em público desde nossos ambientes privados, fragilizados pelas incertezas do momento mas ao mesmo tempo aproveitando aquela oportunidade para nos fortalecer individualmente e como grupo, discutindo tantos aspectos políticos e de linguagem fundamentais para os rumos do documentário e do país. Nesta Parte 2, o coletivo de autores segue representando o que de melhor o documentário brasileiro produziu nos últimos anos mas agora não estamos fazendo apenas um recorte por “estratégias de abordagem”. Elegemos alguns temas oportunos de serem discutidos neste momento político que atravessamos e selecionamos filmes e diretores significativos que se debruçaram sobre esses temas. Alguns diretores que possuem um vínculo estreito de trabalho também vão participar, em dupla, na mesma sessão. É uma novidade e será uma oportunidade única de vermos esses diretores conversando entre si.

Susanna Lira é uma das palestrantes

Qual é o Brasil que está retratado no Na Real_Virtual?
Márcio Blanco:
É inegável que não podemos deixar de ser afetados pelo momento que atravessamos, no qual vemos direitos de grupos identitários sendo atacados frontalmente pela atual política de governo. É uma política que teme muito a importância que o audiovisual tem no fortalecimento de uma democracia. Não é a toa que todas as conquistas políticas e econômicas do cinema brasileiro, nos últimos dez anos, têm sido sistematicamente desmontadas. Isso em um momento onde a própria política cinematográfica, por força de pressões vindas desses grupos identitários, fazia uma “mea culpa” e assumia que era preciso fazer mais para tornar o audiovisual brasileiro diverso. Então, o Na Real_Virtual chega em um momento onde o gênero documentário se oferece como uma força de articulação desses diversos atores. Sem dúvida, o fato de o formato ter assumido historicamente pra si um papel social faz do Na Real_Virtual um espaço onde essa articulação pode acontecer e onde podemos continuar discutindo e desejando um Brasil plural. Certamente, isso está refletido na curadoria de temas, filmes e diretores da Parte 2.

Joel Zito Araújo é um dos nomes a falar sobre a prática documental no país

Como a tua experiência na representação e na reflexão das periferias transparece no Na Real_Virtual e o quanto os saberes trocados na primeira edição já reverberam sobre você, como produtor?
Márcio Blanco:
Eu, Bebeto e Carlinhos discutimos tudo no Na Real. Embora tenhamos funções demarcadas na operacionalização do evento, todos os assuntos são discutidos por nós três. Não foi diferente na curadoria. Desde a Parte 1, discutíamos a importância de inserir realizadores negros, indígenas e mulheres no nosso elenco. Grupos que, de certa forma, estão na periferia do Brasil e que ainda estão na periferia do cinema brasileiro no que diz respeito à ocupação de funções-chaves da realização audiovisual, como a direção, por exemplo. Então, além da experiência como produtor cultural, eu também trago para o Na Real_Virtual minha experiência idealizando e realizando um festival chamado Visões Periféricas, que, há 13 anos, tem a missão de revelar cineastas das periferias brasileiras. Alguns dos diretores que estão no Na Real_Virtual – Parte 2 passaram pelo Visões em algum momento, como o cineasta Adirley Queiroz e o cineasta indígena guarani Alberto Alvares. O próprio Coutinho, que vai ser homenageado na Parte 2, também já foi homenageado no Visões. São diretores que representam esse Brasil plural nas telas.
Todos os saberes que foram trocados na Parte 1 me fizeram repensar a função de um seminário e a forma de organizar um. Porque não podemos separar a forma como organizamos um debate dos efeitos que ele terá. Se por um lado estávamos distantes fisicamente uns do outros, por outro é preciso dizer, também, que foi uma troca que gerou muito afeto. Não estávamos no ambiente frio de um auditório, separados pela formalidade que distingue claramente debatedores, mediadores e público. Se você pensar em uma sala virtual, no qual os rostos de todos os participantes são exibidos em janelas com o mesmo enquadramento, acho que isso contribui para gerar uma atmosfera de intimidade, para passar a sensação de que todos ocupam um lugar de igualdade. Acho que na Parte 1 isso desarmou os diretores e permitiu momentos de muita intimidade e franqueza com o público. Não foi à toa que, após os debates encerrados, a maioria do público que incluía os próprios diretores, ficava para continuar trocando impressões, o que foi apelidado de “momento boteco”. Onde você veria diretores como João Moreira Salles, Walter Carvalho, Carlos Nader, Maria Augusta Ramos se assistindo e trocando de forma descontraída entre si e com o público? Teve muito disso e acho que virou uma marca que queremos que permaneça na Parte 2.

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