Marcha da China em San Sebastián

Marcha da China em San Sebastián

Rodrigo Fonseca

17 de setembro de 2020 | 20h47

“Wuhai” disputa a Concha de Ouro de San Sebastián

Rodrigo Fonseca
Embora o título oficial de abertura de San Sebastián, em 2020, seja um Woody Allen inédito cá rodado, batizado de “Rifkin’s Festival”, o primeiro longa-metragem a ser projetado na cidade espanhola, pra plateias específicas (como a imprensa, por exemplo), é uma produção da China, num gesto de reconhecimento do crescente (e potente) investimento daquela pátria asiática nas telas: “Slow Singing”. A realização é de Dong Xingyi, que concorre com a fita ao prêmio da sessão Nuevos Directores. Na trama, o ex-presidiário Junsheng regressa à casa pouco depois de sair da prisão e descobre que se sente distanciado da sua cidade natal. Há anos que não vai lá, mas ainda pensa que é o jovem mais duro da cidade. Após ter passado por várias provações e tribulações, ele se dá conta de que sua ausência aparentemente curta da região deixou uma lacuna GG em sua alma. Vai ter China também na competição oficial: “Wuhai”, de Zhou Ziyang. No enredo, vemos os dilemas de Yang Hua e Miao Wei, um casal feliz que vive em uma pequena cidade rodeada por uma paisagem desértica espantosa na Mongólia. No entanto, Yang Hua se sente desconfortável com seu histórico financeiro. Ele faz parceria com o seu amigo Luo Yu num negócio de empréstimos comerciais, mas falha e acaba por se afogar em dívidas. Dia a dia, a dignidade dele vai sendo dilapidada. Ziyang vai concorrer com “True Mothers”, da japonesa Naomi Kawase; “Another Round”, do dinamarquês Thomas Vinterberg; “In The Dusk”, do lituano Sharunas Bartas; e “Été 85”, do francês François Ozon.

“Slow Singing” disputa na mostra Nuevos Directores

Foi uma chinesa, Chloé Zhao, quem levou o Leão de Ouro de Veneza por “Nomadland”, um ensaio sobre as cicatrizes da Era Trump, a partir da jornada América adentro de uma mulher (Frances McDormand). O longa de Chloé estará em San Sebastián. O que os espanhóis não pegaram foi “One Second”, último exercício autoral de Zhang Yimou, um dos artesões maiores da China nas telas. Esse filme sumiu… ou foi sumido. Há quase um ano e meio, Yimou encara uma peleja silenciosa da qual pouco – ou nada – se fala para liberar este longa. Em 2019, no auge do Festival de Berlim, esse longa foi convocado pelo evento alemão com fome de Ursos, mas foi retirado misteriosamente da competição, sob ordens do governo chinês, sendo que Yimou era seu realizador, aclamado por cults como “A História de Qiu Ju” (Leão de Ouro de 1992). A dramédia, que ele ainda não lançou, foi extirpada da disputa berlinense às pressas, sem explicação prévia. A justificativa dada: a produção ainda não estava 100% finalizada. O rumor generalizado: a alta cúpula do Poder da China teria reprovado a dimensão política da narrativa de Yimou, censurando-a para cortes. A trama tem como foco a amizade entre um cinéfilo a uma jovem que vive sem teto, em uma província. Falava-se que seria o melhor trabalho recente do cineasta, que botou o planeta pra chorar, em 1988, com “Sorgo Vermelho”, e abalou nervos, em 2002, com “Herói”. Em sua passagem pelo Festival de Pingyao (PYIFF), de Jia Zhangke, realizado em outubro passado, Yimou falou de um outro projeto, já em finalização. Esse longa em fase de conclusão é um thriller de espionagem chamado “Impasse”. Zhag Yi (de “Flores do Oriente”) lidera o elenco. Na ocasião, o cineasta comentou que espera ver “One Second” em circuito, apesar dos percalços por que passou. No último dia 2 de abril, o realizador de “Lanternas Vermelhas” (1991) completou 70 anos, em plena atividade, mesmo encarando narizes torcidos aqui e acolá.
Ainda de San Sebastián: entre as atrações brasileiras, destacam-se de duas reflexões sobre o racismo chanceladas previamente por outros grandes eventos: “Casa de Antiguidades”, de João Paulo Miranda Maria, e “Todos os Mortos”, de Caetano Gotardo e Marco Dutra.

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