Marcelo Saback leva às telas comédia autoral

Marcelo Saback leva às telas comédia autoral

Rodrigo Fonseca

04 de agosto de 2021 | 12h13

Marcelo Saback entre o elencaço da comédia “Dois + Dois”

Rodrigo Fonseca
Campeão de bilheteria desde “Divã” (2009), com fenômenos como “De Pernas Pro Ar” (2010) e “Loucas Pra Casar” (2015) em seu currículo de roteiros de sucesso, Marcelo Saback tem uma obra que torce o conceito clássico da “teoria do autor”, esmerilhada por teóricos e críticos franceses a partir dos anos 1950, na defesa da tese que autoria das narrativas fílmicas é sempre do diretor. Ele seria um caso de “roteirista autoral”. É dele, muitas vezes, que vem uma identidade – quase sempre ligada à observação das tentações do dia a dia – no coletivo de longas-metragens nos quais trabalha. Mas, em seu mais recente trabalho, uma releitura brasileiríssima (e saborosíssima) de “2 + 2” (uma comédia argentina de Diego Kaplan, lançada em 2012), ele une duas pontas da criação artística (o roteiro e a direção), ao assinar também como cineasta uma história sobre desejos tortos. A versão nacional, que aporta nas telas este fim de semana, tem o título literal de “Dois + Dois” e teve Hsu Chien Hsin como diretor assistente.
Com muito humor e com a delicadeza peculiar de Saback, o longa dá uma espiadinha no universo de quem pratica o swing – a troca de casais. No enredo, Diogo (Marcelo Serrado) e Emília (Carol Castro, numa atuação luminosa) estão juntos há 16 anos, têm uma filha adolescente e, apesar da estabilidade, vivem entediados com a rotina familiar. Ele é um cardiologista de prestígio, muito preocupado com a carreira e com pouco tempo para se divertir; ela é a garota do tempo de um telejornal. O casamento morno de Diogo e Emília é virado de cabeça pra baixo quando eles descobrem que os melhores amigos, Ricardo (Marcelo Laham) e Bettina (uma hilária Roberta Rodrigues), têm um relacionamento aberto. Mais do que isso, são adeptos da prática de troca de casais, vivendo super seguros com a escolha, tentando convencê-los de que é possível ser muito feliz levando esse estilo de vida, digamos, mais liberal. Óbvio que esse papo vai dar em confusão. Mas vai render também um estudo sobre a arte de gostar. Saback fala mais dessa arte no papo a seguir, com o P de Pop.

Você virou um dos mais disputados e bem-sucedidos roteiristas do país sempre falando das confusões afetivas da arte de gostar. Como é que esse histórico de histórias molda a sua visão para a direção nesse “Dois + Dois”? Ou seja… como é que a escrita e a observação de personagens te preparam para criar cenas… planos… uma narrativa visual?
Marcelo Saback:
Justamente por escrever tanto sobre as confusões afetivas que o “2+2” me inspirou a adaptar essa história, levantar essa questão: será que amor e desejo andam necessariamente juntos sempre? Até que ponto essas convenções podem ou devem ser postas à prova? O filme não pretende trazer respostas, ele levanta essas e outras tantas questões, inclusive esbarrando nos conceitos de fidelidade e lealdade. Eu tentei que a narrativa visual fosse leve, não apelativa para a questão apenas sexual. Queria que o filme fosse doce e elegante. É isso que tentamos buscar, por ser basicamente uma história de amor.
“Dois + Dois” me impressionou muito por perceber e retratar uma carência que todos parecemos disfarçar das maneiras variadas. Onde é que uma comédia de casais e quartetos vira uma comédia sobre solidão… um estudo sobre as nossas inabilidades de amar?
Marcelo Saback:
Vira mesmo uma comédia da solidão, você tem toda razão. Quando o filme faz uma brincadeira com esse bordão clássico e popular, “quem não sabe brincar, não desce pro play”, ele pretende levantar justamente essa questão sobre a nossa inabilidade de amar, ou a nossa pretensão de sabe amar. Amar é ver o outro feliz ou será que, ao ver o outro feliz, o nosso amor corre algum risco? Amor, posse e correção, acaba tudo isso rimando com solidão.
Onde é que o (ótimo) ator Marcelo Saback pesa positivamente na direção do teu elenco? O que a arte de atuar traz de ganho para a arte de dirigir?
Marcelo Saback:
O fato de ser ator ajudou muito, sem dúvidas. Tenho dirigido muito teatro, que para mim, é a arte das personagens, isso contou muito. Dirigir atores sempre foi um prazer para mim e o teatro me possibilitou isso. Pretendo ou entendo um pouco da loucura que permeia na cabeça da gente.
Qual é o Brasil que as suas histórias reflete?
Marcelo Saback:
Esse filme é uma história sobre personagens, de conflitos em diferentes camadas. De competição feminina, competição masculina, fala sobre vaidades profissionais, inseguranças que são pertinentes a todos nós. A sexualidade é só uma delas, todas elas acabam interferindo na história de amor dos quatro, que no final, acabam amando mais parecido que imaginam. Vou repetir o nosso amado Paulo Gustavo: “Rir é um ato de resistência”. O humor é intrínseco na alma do brasileiro, a gente suporta as nossas mazelas com muito riso e pouco siso, mas a gente não é alienado por conta disso. O humor apontoa, crítica, fala de questões relevantes e ainda assim é considerado por uma galera como um gênero menor. Quem não entendo o nosso humor, tão pouco vai entender o nosso drama. As minhas histórias tentam mostrar isso.

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.