Marcelo Gomes veste jeans no deus Acaso

Marcelo Gomes veste jeans no deus Acaso

Rodrigo Fonseca

12 de agosto de 2020 | 11h49

Dono de uma das obras mais tocantes do cinema nacional contemporâneo, com filmes festejados em Cannes, Veneza, Toronto e Berlim, o pernambucano Marcelo Gomes registou o cotidiano de Toritama em “Estou Me Guardando Para Quando o Carnaval Chegar”, um dos filmes pelos quais vai passar no seminário Na Real_Virtual, nesta quarta-feira, às 19h

Rodrigo Fonseca
Triando o melhor do cinema documental nos streamings, a Netflix nos dá de presente “Estou Me Guardando Para Quando o Carnaval Chegar”, do pernambucano Marcelo Gomes, um bicho anfíbio, dividindo sua carreira entre fatos e fabulações. Laureado com uma menção honrosa no É Tudo Verdade, o longa-metragem que hoje o grande N hospeda ganhou mundo em 2019, a partir da mostra Panorama da Berlinale, onde o realizador concorreu ao Urso de Ouro, dois anos antes, com “Joaquim”. “O que é importante nessas plataformas é que milhões de pessoas têm acesso aos meus filmes. O ‘Estou Me Guardando…’, quando chegou na Netflix teve um público enorme e até os moradores da cidade onde filmei, Toritama, tiveram a oportunidade de assistirem ao filme. Foi maravilhoso, eles se viram pela primeira vez em uma plataforma. Acho que o filme teve um público mais amplo e provocou inúmeros debates. Todo dia recebo e-mail convidando para debates”, conta o cineasta ao P de Pop. “Agora, espero que o futuro seja o momento quando o filme puder ser visto na sala de cinema, na televisão, nas plataformas. A magia do cinema é insubstituível. Não podemos abandonar as salas de cinemas”.

Os moradores de Toritama

Esta noite, Gomes vai passar o conjunto de seus filmes em revista no seminário Na Real_Virtual, realizado às 19h, com curadoria de Carlos Alberto Mattos e Bebeto Abrantes, produzido pela Imaginário Digital. Pra saber das pérolas que estão sendo garimpadas nesse simpósio, basta consultar https://imaginariodigital.org.br/real-virtual/2020. Dá uma média de 150 pessoas (já chegou a ter umas 200) na “sala” organizada no Zoom pelo produtores Marcio Blanco e Kerlon Lazzari, da Imaginário Digital, falando com titãs como Maria Augusta Ramos, João Moreira Salles, Cao Guimarães, Carlos Nader, Petra Costa, Walter Carvalho, Belisario Franca, Joel Pizzini, Gabriel Mascaro e Rodrigo Siqueira. Faltam ainda Emílio Domingos (nesta sexta) e Gomes. O debate desta quarta vai ser “Quando o real vira ficção”, tendo como sua Estrela de Belém o filme “Viajo Porque Preciso, Volto Porque Te Amo”, lançado no Festival de Veneza, em 2009, e laureado com o troféu Redentor de melhor fotografia (pra Heloísa Passos) e melhor direção (dIvidida com o cearense Karim Aïnouz) na Première Brasil.
“Desde que despontou com o premiado curta ‘Maracatu, Maracatus’, Marcelo Gomes tem sido uma força motriz no cinema brasileiro, dirigindo e colaborando com outros diretores”, diz Mattos ao Estado de S. Paulo. “Suas parcerias com Karim Aïnouz, Gabriel Mascaro e Cao Guimarães têm criado filmes originais e super contemporâneos, como é o caso do curta ‘Sertão de Acrílico Azul Piscina’ e seu desdobramento no longa ‘Viajo porque Preciso, Volto porque te Amo’. Vai ser bom ouvi-lo falar sobre seu trânsito entre o documentário e a ficção num encontro que promete algumas boas surpresas para quem estiver lá”.

Aula de geografia dos afetos, guiada pela cartilha da sabedoria pernambucana, “Estou me guardando para quando o carnaval chegar” promete encantar o público de seu país com a mesma força que surpreendeu as plateias do Festival de Berlim, há um ano e meio. O filme de Marcelo Gomes teve uma breve passagem por nossas telas no É Tudo Verdade e de lá saiu com o Prêmio da Crítica, dado pela Abraccine. Dois anos depois de sacudir a seleção oficial de Berlim com o “Game of Thrones” brejeiro “Joaquim” (2017), Gomes regressou às telas alemãs com um documentário sobre a capital brasileira da calça jeans em pleno Nordeste, Toritama. Sua exibição alemã foi dedicada ao cineasta Eduardo Coutinho, morto em 2004, no Rio. “Eu sempre pensei em retratar Toritama como um filme que seria levado de mão em mão”, diz Gomes ao Estadão. “Acho que tinha que ser um filme poroso e contaminado pelas pessoas que estavam diante da câmera. Essas diferentes personalidades iriam apresentar um ar fresco para aquela cidade. Um caleidoscópio afetivo carregado de contradições, como Toritama é. A cidade pode ser vista de uma forma cruel e doce, organizada, improvisada, racional, criativa, crente, ateia, pragmática e melancólica. Queria esse cardápio de emoções no meu filme”.

Não há no longa a mecânica palavrosa dos filmes mais famosos de Coutinho, realizados a partir de “Santo forte” (1999), mas tem algo do belíssimo “Moscou”, que o cultuado documentarista rodou em 2009, a partir da encenação de uma trupe teatral. Coutinho queria extrair linguagem (e, dela, sentido) de um processo. Gomes faz o mesmo, só que numa dinâmica à la Dziga Vertov, com foco na observação de ritos a partir de uma passagem curta de horas (ou dias, tanto faz) que sintetizem sensorialmente a rotina de Toritama. Sorrisos e gestos de preguiça contam, às vezes, mais do que palavras, com destaque para a sequência em que a câmera faz um corpo a corpo com a imagem de um pequeno empresário que confecciona cortes muito particulares de jeans, usando-se como modelo vivo de suas peças. Gomes consegue transformar o que parecia ser um filme sobre trabalho (e mais valia marxista) numa reflexão existencial – e carnal, numa lógica mais aristotélica do que platônica – acerca das estratégias nossas de apreensão e fruição do Tempo. Em Toritama, o povo não quer ter patrão. Quer ser senhor de sua matéria viva de trabalho. Mas a autonomia, que seria uma carta de alforria, pode virar uma outra forma de escravidão, no terreno da afetividade. Cada um que arque com a sua escolha, pois o bloco da sobrevivência está na rua.
Com uma elegância singular, Gomes se inclui como personagem no filme, como sujeito de contracampo, usando o fato de ter ido a Toritama quando menino, com seu pai. A memória serve de norte a esse regresso do diretor do eterno “Cinema, aspirinas e urubus” (2005) a uma região que hoje é diferente do idílio da recordação. Diferente porque viveu… viveu-se… prosperou-se entre máquinas e panos azuis, que caem da tela, em margem de corte, num gesto de sinestesia pura. “Deixei-me ser levado pelo Deus acaso, mas sabendo muito bem o que queria com esse filme”, diz Gomes. “Acho que um filme é sempre uma estrada com o caminho invisível, mas você sabe onde chegar. Ocasionalmente, a partir de interferências e desejo dos personagens, mudamos de rota”.

p.s.: Nesta quinta-feira, às 20h30, o brilhante “Fim de Festa”, de Hilton Lacerda, estreia na TV, no Canal Brasil, acompanhando, num tom à la “Veludo Azul”, o processo investigativo da morte de uma francesa no carnaval do Recife. Ivo Lopes Araújo conduz a câmera de cores nunca saturadas que registra cada passo do policial federal Breno Wanderley (Irandhir Santos, em sublime atuação) no caso.

p.s.2: Esta noite, a Globo/Globoplay exibe um Lawrence Kasdan inédito por estas bandas: “Querido Companheiro” (“Darling Companion”, 2012). Na delicada trama desta dramédia de família em crise, Beth (Diane Keaton) e sua filha Grace (a gênia Elisabeth Moss) salvam um cão perdido no acostamento de uma estrada. Vivido com finesse por Kevin Kline, Joseph, o marido de Beth, odeia o animal, que, agora, é a principal companhia da esposa. Como um casamento vai ser realizado na casa de férias desse clã alquebrado, Joseph acaba perdendo o cachorro. Beth se recusa a voltar sem ele e os convidados remanescentes são obrigados a se empenhar na busca, lavando roupa suja em massa. O longa marcou o regresso do realizador de obras-primas como “O Reencontro” (1983), “O Turista Acidental” (1988) e “Grand Canyon: Ansiedade de uma Geração” (Urso de Ouro de 1992) depois de um hiato de nove anos sem filmar, iniciado após o fracasso de “O Apanhador de Sonhos” (2003). No Brasil, Luiz Antônio Lobue dubla Kline e Prisicila Franco dubla Moss. A voz de Diane é confiada à dubladora Rosa Maria Baroli.

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