Marçal Aquino proseia sobre livros, grades e TV Globo em Tiradentes

Marçal Aquino proseia sobre livros, grades e TV Globo em Tiradentes

Rodrigo Fonseca

22 Janeiro 2018 | 10h50

Marçal Aquino é um dos autores de “Carcereiros”, foco de debate na 21ª Mostra de  Tiradentes, nesta segunda

Rodrigo Fonseca
Pilar de excelência no cinema quando o assunto é roteiro, o paulista Marçal Aquino, um dos mais respeitados autores do país da década de 1990 para cá, à força de livros como Faroestes e Amor e Outros Objetos Pontiagudos, chega à casa dos 60 anos no próximo dia 28, com a pena e o instinto criativos dedicados à TV. Em parceria com o dramaturgo e também escritor Fernando Bonassi (de Luxúria), ele escreveu para a Rede Globo uma série coroada com prêmio em Cannes, no MIPTV, que estreia em junho na grade aberta da emissora após ter mobilizado atenções no Globo Play, a plataforma digital do plimplim. O projeto parte da prosa homônima do Dr. Drauzio Varella para construir uma cartografia da cena prisional no país, com foco nas agruras de um agente carcerário (Rodrigo Lombardi). José Eduardo Belmonte assina a direção do projeto, que será debatido esta noite (segunda, 22/1), na 21ª Mostra de Tiradentes, em MG, às 21h. Bonassi, Belmonte e Marçal tocam o papo, centrado no diálogo da Literatura com o Audiovisual. Mas vai ser difícil pro Marçal não falar de Letras, como ele faz a seguir:

“Desde o começo, ficou claro para mim e para o Bonassi que não seria possível fazer uma adaptação convencional do livro do Drauzio. Isso porque ali não existiam narrativas propriamente ditas, mas apenas incidentes e esquetes curtos, impossíveis de serem convertidos em um episódio de seriado. O jeito foi usar o livro e suas histórias como fonte de inspiração para a criação de um grupo de personagens e das tramas que eles iriam viver. Foi assim que nasceu Carcereiros, que, nessa etapa de criação, teve ainda a participação do cineasta e roteirista Dennison Ramalho”, diz Marçal, que se deu uma tarefa de aniversário este ano. “Vou fazer 60 anos no fim do mês. E resolvi me dar de presente, finalmente, a conclusão e a publicação, neste ano, do romance A Felicidade Genital, no qual venho trabalhando de forma irregular desde outubro de 2012”.

Foi em 1997, com Os Matadores, de Beto Brant, que Marçal passou para a seleção brasileira de roteiristas. Este ano, chega às telas seu exercício mais recente de escrita para o cinema: Tungstênio, de Heitor Dhalia, baseado na HQ homônima de Marcello Quintanilha. Em paralelo, ele segue na TV Globo, onde já desenvolveu (sempre em duo com Bonassi) projetos como Supermax (2016), O Caçador (2014), Força-Tarefa (2012) e, agora, Carcereiros, que entra no ar com uma chancela de premiação dada pela Europa.

“O elemento de originalidade que nos atraiu para o projeto – e que mostrou, desde o início, que não seria apenas mais um ‘drama de cadeia’ – foi o fato de tratarmos aqui do carcereiro, um personagem nunca contemplado por esse gênero de dramaturgia’, diz Marçal. “Isso nos permitiu criar histórias cujo espaço físico não se limita ao cárcere, mas extrapola sempre para a rua”.

Tiradentes segue até o dia 27, quando será exibido A Moça do Calendário, de Helena Ignez, com um desempenho radical de Djin Sganzerla. No mesmo dia serão conhecidos os premiados da competição Aurora, que começa nesta segunda. Os concorrentes são: Ara Pyau – A Primavera Guarani (SP), de Carlos Eduardo Magalhães; Imo (MG), de Bruna Scheld Corrêa; Dias Vazios (GO), de Robney Bruno Almeida; Baixo Centro (MG), de Ewerton Belico e Samuel Marotta; Rebento (PB), de André Morais; Lembro Mais Dos Corvos (SP), de Gustavo Vinagre; e Madrigal Para Um Poeta Vivo (SP), de Adriana Barbosa e Bruno Mello Castanho. Nas programações paralelas à competição, os títulos de maior destaque no evento até agora foram Arábia, de Affonso Uchôa e João Dumans; o irregular (mas necessário) Era Uma Vez Brasília, de Adirley Queirós; e o delicioso Bandeira de Retalhos, que marcou a volta de Sérgio Ricardo (de A Noite do Espantalho) à direção de longas-metragens após um hiato de quase quarenta anos.