Maratona Almodóvar pro domingo de quarentena

Maratona Almodóvar pro domingo de quarentena

Rodrigo Fonseca

29 de março de 2020 | 14h46

Salvador Mallo (Antonio Banderas), alter ego de Almodóvar, passeia com sua mãe, Jacinta (Julieta Serrano), em “Dor e Glória”

Rodrigo Fonseca
Logo após a exibição de “Pulp Fiction”, a partir das 18h deste domingo, 29 de março, a grade do Telecine Cult vai ungir seus caminhos com o azeite de Pedro Almodóvar, numa maratona de alguns de seus maiores sucessos, começando pela picardia de “A Lei do Desejo”, ganhador do troféu LGBTQ Teddy na Berlinale de 1987. Às 20h vem “Má Educação” (2004). Já às 22h, vem o genial “Dor e Glória”, que faturou US$ 37 milhões em sua carreira mundial. Só em seu primeiro dia em cartaz na Espanha, o longa-metragem arrastou 45 mil pagantes ao circuito. Contabilize em seu currículo uma indicação ao Oscar de melhor filme internacional e uma à estatueta de melhor ator, dada a Antonio Banderas. No Brasil, Duda Ribeiro dublou o astro.
É difícil não dedicar o olhar e o coração a esse exercício de resfolego do diretor, que ganhou o Leão de Ouro honorário em Veneza pelo conjunto de sua obra. Num papo com uma amiga, confrontado com a pergunta “Se não vai mais escrever nem filmar, o que você vai fazer?”, o cineasta Salvador Mallo, protagonista de “Dor e Glória”, vivido por A. Banderas, responde o que pode: “Viver, suponho”. É um desabafo franco, sem muito espaço para digressões ou para metáforas que inflem de glacê um bolo saboroso em sua (aparente) franciscana simplicidade de ingredientes, como só Pedro Almodóvar sabe assar. Com estreia brasileira marcada pra esta quinta-feira, na esteira de uma fervorosa acolhida no Festival de Cannes, a saga de Mallo brota como estandarte de equilíbrio a flamular entre os dois hemisférios da obra do diretor espanhol, aqui em momento de apogeu numa espécie (indireta) de autobiografia. Existia o Almodóvar de excessos furiosos, na navalha da chanchada, como o de “Áta-me” (1989) e de “Maus hábitos” (1983). E existia o Almodóvar dos excessos cinéfilos folhetinescos, no transbordamento de querências e carências, como o de “Carne trêmula” (1997) e de “Fale com ela” (Oscar de melhor roteiro, em 2003). Agora, há um caminho do meio, um equilíbrio de cascos de centauro entre esses dois modos de estar na tela, com paixão em estado líquido, em ebulição. Logo, seu novo filme é carnaval.
Devastador é a palavra para definir a volta do realizador de “Tudo sobre minha mãe” (1999) às salas de projeção, com seu melhor filme em quase duas décadas, coroado em Cannes com a láurea de melhor trilha sonora para o compositor Alberto Iglesias e com o prêmio de melhor ator dado a Banderas – merecidíssimo. Fotografada com um colorido berrante por José Luis Alcaine, esta trama trata do ocaso (e posterior redenção) de Salvador Mallo (como citado… o papel de um grisalho e inspiradíssimo Banderas), que, cansado da vida, agrilhoado à solidão, acossado por dores da espinha e por uma doença gástrica (similar a um engasgo), solta-se em inércia por dias vazios de sentido e de afazeres.

Cada engasgo de Mallo parece traduzir a incapacidade absoluta de ele digerir as lacunas que não foram preenchidas em sua relação com um ator do passado (o caudaloso Asier Etxeandia, de “Sordo”), com o namorado de juventude (o argentino Leonardo Sbaraglia, de “Relatos Selvagens”) e com as expectativas de sua mãe (Julieta Serrano). É o engasgo de quem ainda precisa dizer algo que não foi dito. Ou filmar o que não se filmou. Por isso “Dor e glória” parece a autópsia de um corpo vivo, por exumar um cadáver que ainda não sucumbiu ao Tempo ou a degradação de si mesmo. No roteiro, Almodóvar faz a dramaturgia se esgarçar por caminhos inusitados, incorporando até chapas ortopédicas (em forma de animação) em sua narrativa, saudado pela revista “Cahiers du Cinéma” como um dos acontecimentos cinéfilos de 2019. Entre distrações, doses de heroína, caminhadas inertes (um tanto parecidas com a do cineasta Guido Contini, de Daniel Day-Lewis em “Nine”) e reinações em sua própria angústia, Mallo faz uma evasão até antigamente, onde esbarra com sua mãe mais moça, encarnada por uma divinal Penélope Cruz. Talvez seja no ontem, naquilo que para Almodóvar (só nele… e no olhar encantado da gente) é futuro do pretérito e não a mais que perfeita ilusão de “já se foi”, resida uma saída. A fagulha que possa incendiar a fogueira Mallo.
Sabe-se que a fogueira Almodóvar já ardeu com mais continuidade n’outros tempos, não só os tempos de sua mocidade, mas tempos de menos caretice no mundo, que, hoje, encontra-se na Idade Média quando se fala em desejo e em corpo. Talvez por isso, “Dor e glória” pareça uma reação, um basta, uma resposta desesperada. Uma resposta em forma de “esta é minha vida”. Mas, há que se ter cautela nisso, pois Almodóvar afirmou em Cannes, em 2016: “Jamais vou permitir uma biografia minha, pois a história de minha vida está dividida entre cada um dos filmes que filmei”. É uma cautela que se relativiza quando se lembra de Fellini, a dizer: “Assim como toda pérola é a autobiografia da ostra, todo filme é a biografia de seu diretor”.
Mas há um passo além na relação especular entre autor e obra aqui. Até roupas de Pedro foram usadas em “Dor e Glória” como modelo do vestuário de Salvador, um cineasta cheio de crises em sua vida amorosa, em sua relação com as drogas e em sua saúde. Ele busca a paz com o astro de seu primeiro filme, que acaba de ser desenterrado para uma exibição em uma cinemateca espanhola.

Lançado em março na Espanha, o longa foi relacionado pelo próprio Pedro aos lá citados “Má educação” (2004) e “A lei do desejo” (1987), como se fosse parte de uma trilogia do eu, uma tríade do masculino emasculado. “Dolor y Gloria” pode ser um bom exemplar do chamado almodrama (termo de Caetano Veloso), uma releitura folhetinesca dos afetos a partir de parâmetros que não são da realidade e sim do legado histórico do melodrama. “Julieta”, que ele levou ao festival francês em 2016, já era um exemplo disso.
Há quem classifique o filão de metamelodrama. Esse rico verbete é parte das pesquisas de dramaturgia feita pelo professor José Carvalho (considerado o mais prestigiado teórico sobre roteiro no Brasil, que leciona como escrever para cinema e TV no Rio e em São Paulo na Oficina Roteiraria [http://www.roteiraria.com.br/]). Com base nas reflexões antropológicas do americano David Bordwell e nos ensaios geopolíticos do português João Maria Mendes, Carvalho consolidou essa expressão a partir da ideia de que o realizador de “Áta-me” (1989) cria seu universo com base no tecido visual “vivo” derivado do melodrama clássico e de suas releituras modernas, de Douglas Sirk a Rainer W. Fassbinder.

Vá para onde for, “Dor e glória” há de comover, há de incomodar e há de se firmar como um dos melhores filmes deste ano e um dos melhores momentos de seu realizador. Vivo e vivaz. Parabéns ao Telecine pela maratona. Que venham outras. Aliás, atenção ao trabalho incrível que Renata Boldrini está fazendo este mês de março, mês de celebração da força feminina, ao fazer um balanço das mulheres diretoras em atividade. O trabalho de Renata, desde os anos 1990, é de uma riqueza singular para o enriquecimento da cultura cinéfila nacional. Lá pelos idos de 1998, ela fez uma reportagem antológica sobre os (então) 30 anos de “Era Uma Vez No Oeste” (1968) que foi um primor. E, desde então, só fez depurar seu estilo reflexivo.

p.s.: Às 23h10 desta segunda, a TV Globo exibe “Doutor Estranho”, com Benedict Cumberbatch no papel do Mago Supremo. A direção é de Scott Derrickson.

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