Mapa da mina da Un Certain Regard de Cannes

Mapa da mina da Un Certain Regard de Cannes

Rodrigo Fonseca

25 de maio de 2022 | 11h01

A população indígena Lakota é retratada em “War Pony”, espécie de “Nomadland” de 2022

RODRIGO FONSECA
Na reta final de Cannes, uma leva de sete títulos da Un Certain Regard se impõe como candidatos a prêmios:
JOYLAND, DE SAIM SADIQ (Paquistão): Uma tapa na cara do sexismo e do patriarcado, numa mescla de “Succession” com Almodóvar, à moda paquistanesa. Na trama, uma família rica, o clã Rana, busca uma nova liderança em meio a seus parentes mais jovems. Mas o rapaz mais cotado a assumir os negócios se apaixona por uma mulher trans, o que é considerado um escândalo para seus familiares e uma libertação par ele.
WAR PONY, DE GINA GAMMELL E RILEY KEOUGH (EUA): Espécie de “Nomadland” em versão indígena, este drama com atores não profissionais aborda o cotidiano de dois jovens da população Lakota às voltas com as crises sociais americanas.
VOLADA LAND (ou GODLAND), DE HLYNUR PÁLMASON (Islândia): É surpreendente o domínio de montagem que o filme esbanja em sua recriação da paisagem islandesa do século XIX, onde um padre dinamarquês vai encarar um calvário ao provar de pecados que não estão na Bíblia.

“Domingo y La Niebla”

CORSAGE, DE MARIE KREUTZER (Áustria): Cada vez mais gigante em cena, a cada novo filme, a luxemburguesa Vicky Krieps, revelada em “Trama Fantasma” (2017), encarna a imperatriz Elisabeth da Áustria ()1837-1898), apelidada de Sissi, como um espírito inquieto que encara xenofobias e ilusões afetivas em busca do desejo de afirmação. A direção de arte de Monika Buttinger estonteia, galvanizada pela luz da fotografia de Judith Kaufmann.
THE STRANGER, DE THOMAS M. WRIGHT (Austrália): Lealdade, viga central das amizades, cheia de devires de honra quando aplicada ao universo masculino, é o vetor de empuxo deste thriller lento, a passos de cágado, mas de um domínio singular da engenharia sonora. Sean Harris faísca em cena no papel de Teague, um silencioso criminoso com o passado enevoado. Ao conhecer um sujeito igualmente taciturno e de índole similar num voo, Mark (vivido por um Joel Edgerton com ares de Capitão Caverna), Teague terá de enfrentar suas falhas d’outrora.
DOMINGO Y LA NIEBLA, DE ARIEL ESCALANTE MEZA (Costa Rica): É estonteante a fotografia de Nicolás Wong Diaz nessa história de fantasmas que assombram a discussão da gentrificação na América Latina. Seu protagonista corre o risco de ter sua casa expropriada. Mas o espectro de sua finada mulher parece disposta a ajudá-lo a ficar em seu lar, transformando o local num santuário.
BURNING DAYS, DE EMIN ALPER (Turquia): O diretor do devastador “O Conto das Três Irmãs” (2019) vitamina os códigos do thriller político, narrando a luta de um promotor idealista, Emre (o ótimo Selahattin Pasali) para conter os ânimos de uma cidadezinha alquebrada por uma crise hídrica. É o melhor roteiro de toda a mostra.
Cannes termina no dia 28, com “Crimes of the Future”, de David Cronenberg, como seu mais provocador filme, entre os títulos em disputa pela Palma de Ouro já projetados.

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