Mamet em preto e branco

Mamet em preto e branco

Rodrigo Fonseca

20 de novembro de 2015 | 19h35

Race de David Mamet

Distante dos cinemas desde 2008, quando lançou o subestimado Cinturão Vermelho, fincando praça na TV e mantendo abertas as portas de seu lar de berço, o teatro, o dramaturgo e diretor David Alan Mamet levou aos palcos, no fim da década passada, uma irônica discussão sobre identidades raciais: a peça-thriller Race. Inédito no Brasil, o texto está em cartaz no Rio de Janeiro, no Teatro Poeirinha, em Botafogo, em espetáculo com direção de Gustavo Paso, centrada na luta de um homem (branco), ao lado de seus advogados, para provar sua inocência (ou não) num caso de estupro de uma negra. A peça fica em cartaz até 20 de dezembro. No elenco estão Gustavo Falcão, Heloisa Jorge, Luciano Quirino e Yashar Zambuzzi. Na entrevista a seguir, Paso, especialista na lógica mametiana, fala sobre estética do autor.  

O que existe em Race, em sua discussão sobre moral com base na cor (da pele), que aproxima a peça dos textos mais cortantes (e até existencialistas) de Mamet?
GUSTAVO PASO:
Mamet tem uma estética própria. Ele é o grande nome do teatro da fragmentação. Por diversas vezes nos deparamos com falas de personagens que claramente terminariam com uma interrogação, mas que nos dão apenas reticências representando um “final”… com textos repletos de fontes em itálico, outras em CAIXA ALTA e outras em negrito. Toda sua obra é dirigida a esse ponto. Isso nos da uma noção técnica do trabalho deste autor, ele lida com o texto de forma viva. Sabe dirigir suas peças, e sua genialidade é conseguir que você respeite o texto e ao mesmo tempo fique livre para  imprimir seu conceito e estética sobre ele. Mas o mais importante é que Mamet fala de Poder e da degradação da humanidade expondo nossas relações contemporâneas, e ele expõe isso em textos como The Duck Variations e Edmond, assim como em Race, Oleanna e assim por diante.

Race teatro David Mamet

De que maneira o conceito de moral – que ele, judeu fã de Dostoiévski, associa com recorrência à questão da lealdade – transparece em Race?
PASO: Race é uma peça que fala de mentira. Todos mentem. Os advogados mentem para o cliente, o cliente mente para os advogados e a assistente afrodescendente dos advogados mente para conseguir o emprego. Quando as mentiras aparecem, caem as mascaras e a peça acaba.

O dramaturgo David Mamet: estética da fragmentação

O dramaturgo David Mamet: estética da fragmentação nos palcos em “Race”

Qual é o desafio de encenar um texto de cunho racial em um país miscigenado como o Brasil?
PASO:
O primeiro passo é admitir que, como sendo neto de italianos, espanhóis e portugueses, faço parte de uma “raça” dominante que em sua grande maioria é excludente. Em segundo lugar, preciso saber que este é um assunto que ao tira-lo da “caixinha” é impossível recolocá-lo. A necessidade de expor esses assuntos é a melhor… ou única… maneira de colocar o assunto em pauta para ver se conseguimos mudar algo em relação aos anos e anos de massacre racial. O Brasil está longe de ser um país democrático, principalmente em se falando de preconceito. Mamet coloca conceitos que são verdadeiras facadas em quem pensa e se pretende minimamente digno e justo… Não é o fato de você estar casado com uma negra que você não é racista. Não é por aí. Pra terminar de uma forma mais próxima à Justiça, cito apenas um esclarecimento: não é a mesma coisa chamar um afrodescendente de “neguinho” e me chamarem de “branquelo”. Posso até ficar chateado, pois poderia estar mais sensual e bonito com uma “corzinha” bronzeada, mas isso passar a ofensa na mesma proporção? Não. Minha raça não foi massacrada num tronco ou numa senzala.