Malick em ofensiva contra os fascistas

Malick em ofensiva contra os fascistas

Rodrigo Fonseca

11 de dezembro de 2019 | 13h43

Rodrigo Fonseca
Em meio à onda de antissemitismo que varre a França, com cruzes espalhadas por túmulos de judeus, a estreia de um filme debruçado sobre a rejeição à Maldade, como Uma vida oculta” (“A hidden life”) é, a um só tempo, um bálsamo ético e um convite ao debate acerca dos ecos nazistas em nosso redor. É um Terrence Malick no limite do esplendor, dirigindo com uma fome que só se viu igual em “Cinzas no Paraíso” (1978). Sua exibição nos circuitos de Paris, Marselha e arredores começa nesta quarta-feira. Na sexta, esta superprodução laureada com o Prêmio do Júri Ecumênico de Cannes será projetada na telona do Cine Odeon, na programação de 200 títulos do Festival do Rio 2019, às 21h40. Tem mais uma dose desta pérola metafísica na maratona cinéfila carioca na terça, às 18h15, no Estação Net Botafogo.
Após uma safra de filmes recentes de linha messiânica, calcados em seus estudos da filosofia transcendentalista, como “A árvore da vida” (Palma de 2011), o veterano realizador nascido em Illinois, que comemora em 2019 seus 50 anos de carreira, aplica seus ensaios sobre fé no contexto da II Guerra Mundial. A aparição do mítico ator suíço Bruno Ganz (1941-2019), num momento crucial da trama, foi saudada, em Cannes, com apupos de respeito, numa salva de aplausos. Em seu novo trabalho, o mais sóbrio e contundente desde “Além da linha vermelha” (Urso de Ouro em 1999) recria, com uma potência plástica singular, relativa à fotografia de Jörg Widmer, a saga do fazendeiro austríaco Franz Jägertätter, que se recusou a lutar em prol dos nazistas. Analgésico seria a melhor palavra para classificar o efeito que o desempenho de August Diehl (de “O jovem Karl Marx”) no papel central. Igualmente impecável é a atuação de Valerie Pachner como Fani, a mulher e esteio moral de Franz.
“Sempre vem à minha cabeça a lembrança de Bruno Ganz sentado na relva entre nós, sem qualquer hierarquia, sem superioridades em relação a nós, que estávamos ali, no set, só aprendendo, com ele e com Malick”, disse Valerie Pachner ao P de Pop na Croisette. “No processo com Terry (apelido do diretor), aprendi que espiritualismo não é questão de religião mas de conexão, em especial com a Natureza”.

Seu parceiro de cena concordava com a atriz. “Terry é pura curiosidade: filmando, ele nos bombardeia de perguntas, sem dar muitas respostas. Mas, nesse clima, todo mundo se integra pela leveza que ele desperta”, disse Diehl. “Franz foi herói porque disse ‘Não’ e soube se manter fiel a essa palavra, acima de todos os custos. Ele é um exemplo para este mundo onde todos se resignam”.
Para investigar a paisagem de feno, de árvores e rios, numa aldeia germânica, Malick contou com a fluidez da câmera de Jörg Widmer (de “Os invisíveis”). O fotógrafo integrou a equipe de câmera de “A Árvore da Vida”, pelo qual o cineasta conquistou a Palma de Ouro, em 2011.

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