‘Makunaíma’ faz geopolítica poética em Brasília

‘Makunaíma’ faz geopolítica poética em Brasília

Rodrigo Fonseca

19 de dezembro de 2020 | 12h33

Cena do “Macunaíma” (1969), de Joaquim Pedro de Andrade, revisitada no .doc de Rodrigo Séllos

Rodrigo Fonseca
Numa curva ascendente de revelação de Brasis, dialogando majoritariamente com sotaques documentais, o 53º Festival de Brasília, exibido dia a dia, sempre às 23h, pelo Canal Brasil, até este domingo, viveu na sexta-feira o apogeu de sua seleção competitiva, com uma produção egressa de Roraima: “Por onde anda Makunaíma?”. São 84 minutos de afirmação de identidade na veia. Reflexão sobre raízes culturais com especial atenção ao legado das populações indígenas, o longa-metragem de Rodrigo Séllos é uma universidade de múltiplos saberes, concentrados em 84 minutos, a partir do estudo da figura de Makunaíma – mais lembrado pelo livro de Mário de Andrade, onde o nome do personagem se escreve com “c” e não com “k” – como uma síntese da brasilidade em sua concepção mais revolucionária, desbundada, tropicalista. Ao longa da projeção, estuda-se Antropologia, Cinema Moderno, Teatro e Vanguardas, com um TCC em Geopolítica. Uma frase do produtor Luiz Carlos Barreto é um farol para esta narrativa de uma convulsiva (e também reflexiva) montagem: “O Brasil se perderá definitivamente na hora que renegar Macunaíma”. Trabalho de roteiro mais sólido de toda a competição pelo Candango de 2020, construído a partir de uma estrutura assinada por Juliana Colares (alimentada por uma pesquisa feita por ela e Klaus Schmaelter), o filme de Séllos parte do registro de Makunaima como sendo um mito para povos da tríplice fronteira Brasil-Venezuela-Guiana, registrado em livro pela primeira vez no início dos anos de 1910, pelo etnólogo alemão Koch-Grünberg. É ele quem faz a ponte entre o extremo norte da América do Sul com o Brasil, por meio de Mário de Andrade. Partindo de um rastreio etnográfico e de uma atomização da rapsódia andradiana, o cineasta engata um voo pelo Cinema Novo, para fazer a geologia das cordilheiras semióticas que o realizador Joaquim Pedro de Andrade (1932-1988) erigiu ao levar Macunaíma às telas, em 1969, com Grande Otelo (1915-1993) e Paulo José. Este tem uma delicada aparição no .doc, em meio a depoimentos analísticos de Heloísa Buarque de Hollanda e Hernani Hefner. Igualmente delicada é a fala de Antunes Filho (1929-2019) sobre a versão do Herói Sem Caráter para os palcos, questionando a repressão contra o espetáculo. Repressão, aliás, é uma das palavras mais revisitadas (e espatifadas) por Séllos, em especial num desabafo do ator Cacá Carvalho (parceiro de Otelo no filme “Exu-Piá”, outra releitura do personagem) a dizer: “Aquela força de ‘Macunaíma’ foi uma resposta a um tempo terrível. Talvez esteja para aparecer uma outra resposta de força artística diante desse horror que está se configurando desses tempos politicamente… vergonhosos”.

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